Insólito

Curou-se da covid mas quando viu a conta do hospital ia tendo um ataque: 1,1 milhões

Curou-se da covid mas quando viu a conta do hospital ia tendo um ataque: 1,1 milhões

Só na América: homem de 70 anos esteve internado 62 dias com a doença do coronavírus, julgou que ia morrer e chegou a despedir-se da família. Mas curou-se e falou-se em milagre. Porém, o maior espanto veio depois: a conta do hospital tinha 181 páginas e o valor mais alto conhecido até agora para tratar a covid-19.

"Holy fuck!" (o Google traduz como "caramba!", mas a tradução mais exata é mesmo um franco palavrão: "fod*-**!") disse Michael Flor enquanto ia desenrolando a conta do hospital que acabara de receber, um maço grosso com 181 folhas de estranhíssimos nomes e de números que cresciam, mastodônticos, uns atrás dos outros. Quando chegou ao fim, estava sem fôlego - e disse outra vez aquele palavrão, agora silabado longa e demoradamente...

Depois, não teve como não sorrir um sorriso amarelo, a situação era para lá de absurda; era chocante: tudo somado, a sua conta de hospital pelo internamento e tratamento da covid-19 ascendia a 1.122.501 dólares, o que dará cerca de 991.670 euros.

A notícia foi contada pelo jornalista Danny Westneat, do "Seattle Times" e está a provocar pasmo em todo o mundo porque deverá ser a maior de todas as contas de hospital já registada durante toda a pandemia para livrar um paciente da severa doença respiratória provocada pelo novo coronavírus.

Michael Flor é esse norte-americano de 70 anos que vive em West Seattle, nos EUA. Ele foi internado no dia 4 de março e esteve acamado em tratamento durante 62 dias seguidos no Centro Médico Sueco de Issaquah, no Estado de Washington, perto do local onde vive.

Reformado, casado, com dois filhos, Flor só imaginava vagamente o que aí havia de vir, mas logo após os primeiros dias de internamento, quando ainda estava consciente, o homem lembra-se de ter olhado à sua volta no quarto do hospital e de dizer à sua mulher, Elisa Del Rosario: "Tens que me tirar daqui, Elisa, nós não temos seguramente dinheiro para isto...". Mas estava ainda longe de imaginar o soco de números que aquela fatura lhe ia dar. Ou como o mundo todo à sua volta ia mudar.

O homem foi notícia três vezes

Antes de ser notícia devido à conta de hospital de valor descomunal - vamos repetir o valor: 1.122.501 dólares por 62 dias de tratamento dá 18 mil dólares por dia ou 754 dólares por hora ou, ainda, 12 dólares por cada minuto de hospitalização -, Michael Flor foi notícia por duas vezes.

Na primeira foi porque era o norte-americano há mais tempo internado com covid-19 - mais de dois meses, um recorde que continua a manter. Recorde-se que a América é hoje o país de todo o mundo onde mais pessoas estão a morrer com a maleita do coronavírus: são já 118.339 mortos e 2.183.589 infetados pela doença respiratória. No somatório total de casos no Mundo, há agora 8.150.931 infetados e os mortos são já quase meio milhão (439.892).

Na segunda vez, Michael Flor foi notícia por outra razão: apesar da sua idade, que o metia no grupo dos que possuem o maior risco de morrer, e do negro quadro clínico que atravessou, inexplicavelmente, o paciente não morreu.

Mas Michael Flor esteve mesmo à beira da morte, com pulmões, rins e coração e quase todos os órgãos vitais a falir praticamente ao mesmo tempo.

"Ele estava tão doente quanto alguém com esta terrível doença pode ficar; basicamente todos os seus sistemas orgânicos estavam a desligar ou a entrar em colapso", diz a doutora Anne Lipke, uma médica intensivista especializada em doenças pulmonares, citada pelo jornal "Seattle Times".

Todos os médicos concordavam que não se ia safar. Tanto assim foi que, numa dada noite de março, ainda no primeiro mês de internamento na Unidade de Cuidados Intensivos no hospital, as enfermeiras do turno da noite chegaram a ligar à sua mulher e, segurando o telefone junto da orelha do pobre Flor, disseram-lhes para fazerem as despedidas porque ele já não deveria aguentar mais aquela noite e tinham-se que se preparar para o ver morrer.

Mas, miraculosamente, Michael Flor aguentou mais um dia e depois outro e outro, uns atrás dos outros, até que se curou. E por causa disso, ainda na sua segunda notícia como famoso, começaram a chamar ao homem o "bebé-milagre", uma piada de boa disposição, e de veneração devido à provecta idade de Flor.
Como não há, como sabemos, duas vezes sem três, o norte-americano foi uma outra vez notícia, agora pela famigerada conta que ascende a mais de um milhão.

Só o quarto custou quase meio milhão

A fatura de 181 folhas - respiremos agora um bocadinho: Flor não vai ter que pagar a totalidade daquele milhão, talvez só uma pequena parte ou até mesmo coisa nenhuma, já vamos ver - é tecnicamente uma explicação das cobranças do hospital Swedish Medical Center.

Mas, por enquanto, ele e a família e os amigos olham com pasmo e uma grande ponta de horror para as despesas extremas a que a covid pode chegar e refletem perplexos e banzados sobre o bizarro sistema de saúde dos Estados Unidos da América que, ao contrário da Europa e da maioria do mundo civilizado, não possui um Serviço Nacional de Saúde, como existe há décadas em Portugal, que proteja os seus contribuintes, mas está antes orientado em sistemas de seguros privados que não existem para tratar da saúde como um bem universal e um direito primordial, mas para dar lucros abissais numa lógica puramente capitalista que rende milhões às grandes corporações.

A conta total de Michael Flor detalha tudo. A cobrança pelo seu quarto na unidade de terapia intensiva custava 9.736 dólares por dia (8.638 euros). Devido à natureza contagiosa do coronavírus, o quarto estava selado e nele só podiam entrar médicos com equipamento de proteção individual total, que se fardavam dos pés à cabeça. Durante 42 dias, ele esteve nessa câmara de isolamento - e o custo total dessa cobrança chegou aos 408.912 dólares (362.832 euros).

Michael Flor também esteve ligado a um ventilador mecânico durante 29 dias, com o uso da máquina faturado em 2.835 dólares ao dia (2.515 euros), totalizando no fim 82.215 dólares (72.950 euros).

A fatura conta indiretamente a história da batalha de Michael Flor. Nos dois dias em que o seu coração, rins e pulmões entraram em falência e ele viu de perto o grande abismo da morte, a fatura estende-se por 20 páginas e totaliza quase 100 mil dólares (88.731 euros), pois os médicos "estavam a atirar tudo o que era medicamento que podiam pensar para dentro de mim", relata Flor.

Cerca de um quarto do total da conta, ou seja 250 mil dólares (221 mil euros) são gastos com medicamentos, incluindo as agora já proibidas cloroquina e hidroxicloroquina, fármacos de tratamento da malária. Ao todo, existem na conta de Michael Flor mais de três mil cobranças detalhadas, o que deu cerca de 50 itens cobrados por dia.

Ele não vai pagar nada daquela fatura

Geralmente, os hospitais recebem dos seus pacientes apenas uma parte do valor cobrado, pois a maioria negociou descontos com as companhias privadas de seguros e é a elas que cabe a maior liquidação. Michael Flor, além do Medicare, sistema de saúde criado na presidência de Barack Obama e que o atual presidente republicano Donald Trump ainda não conseguiu aniquilar.

Passando por tudo isto, Flor disse que ficou surpreendido com sua própria reação. E essa reação, depois do espanto com a fatura de 181 páginas, é agora um sentimento de culpa.

"Sim, sinto-me culpado por ter sobrevivido", disse o homem ao jornal "Seattle Times". "Sinto aquela sensação de 'mas porquê eu?' Por que mereço eu tudo isto? Ver ao ínfimo detalhe o custo inacreditável de tudo isto, definitivamente contribui para a culpa que sinto por ser um sobrevivente".

Como Flor possui seguros, incluindo o Medicare, não precisará de pagar a grande maioria da gigantesca fatura.

Devido à pandemia do coronavírus, também existem na América regras financeiras especiais que se aplicam apenas aos casos de covid-19. O Congresso reservou mais de 100 mil milhões de dólares para ajudar hospitais e companhias de seguros a arcar com os custos da pandemia, em parte para incentivar as pessoas a procurarem testes, exames e tratamentos, incluindo aquelas que não têm seguros.
Beneficiando das diretivas especiais, Michael Flor provavelmente não precisará de pagar sequer as cobranças diretas da apólice do Medicare Advantage, que poderiam chegar aos seis mil dólares (5.300 euros).

O setor dos seguros nos EUA estima que os custos de tratamento apenas para a covid-19 poderiam chegar, no total nacional, a 500 mil milhões de dólares (445 mil milhões de euros). Apesar desse valor ser já astronómico, o Congresso está a ser pressionado para intensificar o valor e atirar para o bolo ainda mais dinheiro dos contribuintes norte-americanos que fazem parte do país onde mais se morre diariamente com covid-19.

Como disse Michael Flor quando abriu a grossa carta com a fatura do hospital, "holy fuck!".