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Daniel Ortega destitui embaixador da Nicarágua que o acusou de ser um ditador

Daniel Ortega destitui embaixador da Nicarágua que o acusou de ser um ditador

O Presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, destituiu esta quinta-feira o jornalista Arturo McFields como embaixador do país na Organização dos Estados Americanos (OEA), um dia depois do diplomata ter denunciado uma "ditadura" no seu país.

A decisão de Daniel Ortega surgiu no mesmo dia em que o Comité Internacional da Cruz Vermelha revelou a expulsão de um dos responsáveis da missão na Nicarágua, sem que os motivos tenham sido divulgados.

No caso do embaixador do OEA, o decreto presidencial assinado por Ortega anulou a nomeação de Arturo McFields para o cargo de representante permanente de Nicarágua, para o qual tinha sido nomeado em 26 de outubro.

Para o seu lugar, o chefe de Estado da Nicarágua nomeou Francisco Obadiah Campbell Hooker, que é também o embaixador nicaraguense nos Estados Unidos.

Arturo McFields disse durante uma reunião 'online' da OEA que falava em nome de "mais de 177 prisioneiros políticos e mais de 350 pessoas que perderam as suas vidas no país desde 2018".

Ao mesmo tempo, admitiu ter medo de falar contra o governo de Ortega, mas que "tinha de falar" mesmo que o seu futuro e o da sua família "seja agora incerto".

"Denunciar a ditadura do meu país não é fácil, mas manter o silêncio e defender o indefensável é impossível", apontou McFields, que até agora tinha defendido Ortega quando este foi criticado por membros da OEA.

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McFields, o primeiro afro-nicaraguense a representar o país perante a OEA, é um ex-jornalista que trabalhou na embaixada do Nicarágua e na missão da OEA -- ambas em Washington -- antes de apresentar as suas credenciais como embaixador em 05 de novembro.

As declarações de Arturo McFields tiveram eco na Nicarágua, levando a acusações de "traidor" pelos apoiantes do regime.

Segundo McFields, "no governo ninguém ouve e ninguém fala" sobre o que está a acontecer na Nicarágua, onde "170.000 nicaraguenses fugiram do país e outros continuam a fugir".

Também esta quinta-feira o governo da Nicarágua expulsou um dos responsáveis da missão do Comité Internacional da Cruz Vermelha (CICV), Thomas Ess, sem revelar os motivos, revelou fonte da organização humanitária.

"O CICV confirma que recebeu uma carta na qual o governo da Nicarágua informa que decidiu retirar a aprovação de nosso chefe de missão na Nicarágua. Não sabemos os motivos dessa decisão que nos apanhou de surpresa", referiu à agência EFE um porta-voz.

Thomas Ess era o vice-chefe do CICV na Nicarágua desde março de 2019, quando a organização instalou um escritório para monitorizar "presos políticos".

Esta expulsão ocorre menos de duas semanas depois do regime de Daniel Ortega ter concedido ao chefe regional do CICV, Jordi Raich, a ordem "José de Marcoleta", no grau de "Grande Cruz", o mais alto reconhecimento concedido pela Nicarágua a um estrangeiro, pela sua "respeitosa colaboração" e pela sua "visão de acompanhamento das prioridades do governo".

O CICV garantiu que, apesar desta situação, mantém o compromisso de continuar o seu trabalho humanitário na Nicarágua, "aderindo aos seus princípios de neutralidade, imparcialidade e independência".

Segundo a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) há pelo menos 179 "presos políticos" na Nicarágua que sofrem "tortura e maus-tratos" na prisão, dados que o CICV tem por princípio não divulgar.

As expulsões repentinas de missões internacionais pelo governo nicaraguense não são novas e no início de março foi expulso daquele país o até então núncio apostólico, monsenhor Waldemar Stanislaw Sommertag, decisão que o Vaticano recebeu com "surpresa e dor".

Em 2018, o governo da Nicarágua também expulsou uma missão do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (Acnudh), outra da CIDH e do Mecanismo Especial de Acompanhamento da Nicarágua (Meseni).

O governo nicaraguense, que não costuma dar explicações sobre as expulsões, tem uma política de não tolerar ações que identifica como "interferência em assuntos internos".

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