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Daphne Galizia, a jornalista que incomodava Malta

Daphne Galizia, a jornalista que incomodava Malta

Explosão, fogo e silêncio. Assim foram caladas as palavras aguçadas de Daphne Caruana Galizia, uma das mais proeminentes jornalistas maltesas. Para sempre.

Um carro e uma bomba. Os elementos que determinaram, na passada segunda-feira, a morte de uma das mais respeitadas e odiadas jornalistas da Ilha de Malta. Com um percurso jornalístico com mais de 30 anos, Daphne Caruana Galizia escrevia para diversos meios de comunicação nacionais. Era colunista nos jornais "The Sunday Times of Malta" e "The Malta Independent".

Daphne era também a criadora e escritora do blogue mais famoso e comprometedor para a ilha de Malta: Running Commentary. Foram as investigações jornalísticas destemidas, com tom de denúncia, que ali publicava que chamaram a atenção dos que a temiam. Estava traçado o destino de Daphne Galizia.

Listada pelo jornal online norte-americano "Politico" como uma das 28 personalidades que "agitavam e moldavam" a Europa em 2016 (junto com a filha do ex-presidente de Angola, Isabel dos Santos), a jornalista era já conhecida pelo seu trabalho numa das mais mediáticas investigações, os "Documentos do Panamá".

Daphne encarnava todas as características de um jornalista. Não temia a verdade. Enfrentava quem fosse preciso. Sem "papas na língua", denunciava e provava os crimes que se cometiam no seu país. Fazia tremer todos aqueles que têm um "lado negro".

E assim ganhou inimigos. Daphne escrevia que o Governo maltês está infestado de corrupção, lavagens de dinheiro, máfia. E apresentava as suas provas. Era uma pessoa a temer. A derrubar.

Das ameaças passou-se a ação. Depois de inúmeras tentativas de silenciamento e de ameaças de todo o tipo - afirma o jornal "Times of Malta" -, os inimigos da jornalista maltesa decidiram calar a verdade daquela que vinha denunciando uma situação "desesperante".

"Desesperante" foi mesmo a sua última palavra. Pelo menos escrita. Um grito em tom de lamento: "Há vigaristas por todo o lado. A situação é desesperante". Nem as queixas à Polícia, nem os pedidos de proteção - ignorados - evitaram o que o primeiro-ministro, Joseph Muscat, classifica como "tragédia" e "assassinato político". Apesar de ser um dos visados nas investigações de Daphne Galizia. Foi envolvido em suspeitas de falsificações de passaportes para o Azerbaijão, processou a jornalista e até convocou eleições antecipadas para receber um voto de confiança da população, em junho.

Daphne tinha 53 anos. Resta a família, que agora procura justiça e que publicamente responsabiliza o Governo pelo homicídio da bloguer. "A minha mãe foi assassinada porque se erguia entre o poder da lei e aqueles que procuravam violá-la."