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"Black lives matter"

De Luther King a George Floyd: as mortes por motivos raciais nos EUA

De Luther King a George Floyd: as mortes por motivos raciais nos EUA

Os últimos dias nos Estados Unidos da América mostram uma nação profundamente dividida. A cor da pele ainda parece importar no país de todos os sonhos e ambições. A contestação contra a violência policial e o racismo ganhou novo fôlego com a morte de George Floyd, que foi asfixiado por um agente da autoridade.

Após o assassinato do pastor Martin Luther King, em Memphis, a 4 de abril, estala a violência em 125 cidades, deixando pelo menos 46 mortos e 2600 feridos. Nos dias seguintes, os distúrbios alastram aos bairros comerciais do centro, alguns a 500 metros da Casa Branca. O presidente Lyndon B. Johnson apela ao exército, que também intervém em Chicago, Boston, Newark, Cincinnati.

De 17 a 20 de maio a violência estala depois da absolvição em tribunal de quatro polícias brancos acusados de terem morto a murro um motociclista negro que tinha passado um semáforo vermelho. Três dias de distúrbios provocaram 18 mortos e mais de 400 feridos no bairro negro de Liberty City, em Miami.

A absolvição de um grupo de polícias de Los Angeles, filmados a agredirem Rodney King, um negro de 25 anos, na noite de 3 de março de 1991, após uma perseguição motorizada, desencadeia motins na cidade, de 29 de abril a 4 de maio de 1992. A violência causou 53 mortos.

A 7 de abril um jovem negro de 19 anos, Timothy Thomas, é assassinado por um polícia branco durante uma perseguição provocando quatro dias de violência que resultaram em 70 pessoas feridas e na declaração de Estado de Emergência com recolher obrigatório.

Trayvon Martin, afro-americano de 17 anos, regressava a casa da namorada do pai, em Miami Gardens, na Florida, depois de passar por uma loja de conveniência, quando foi interpelado por George Zimmerman. O vigilante acabou por dar um tiro no rapaz, cujo comportamento achou suspeito. Zimmerman foi acusado de homicídio, mas acabou ilibado, provocando protestos da população.

A 17 de julho, vários agentes da polícia da cidade de Nova Iorque abordam Eric Garner, de 43 anos, suspeito da venda ilegal de cigarros. Após uma discussão, um dos polícias agarra Garner pelo pescoço para dominá-lo e minutos depois, o homem, que tinha problemas respiratórios, morre no chão. O exame médico classificou a morte como homicídio.

No dia 9 de agosto o polícia Darren Wilson, enquanto faz a patrulha em Ferguson, encontra o jovem Michael Brown que, segundo informações, tinha roubado cigarros numa loja da cidade. Depois de um confronto entre os dois, o policia dispara 18 vezes e seis balas atingem Brown que acaba por morrer. Os distúrbios estenderam-se a 170 cidades, em 37 estados norte-americanos, com milhares de pessoas a saírem para as ruas.

Timothy Loehmann, um polícia de Cleveland, dispara um tiro no abdómen de Tamir Rice, jovem negro de 12 anos, depois de o abordar num parque porque o menor carregava uma pistola de brincar. Loehmann foi ao parque com outro polícia num carro patrulha e dispararam enquanto desciam do veículo. A arma do jovem não tinha a etiqueta laranja que alerta que é falsa. A morte do adolescente, um dia depois, comoveu um país já imerso no doloroso debate sobre violência policial.

No dia 6 de março o polícia Matt Kenny dispara contra Tony Robinson, de 19 anos, em Madison. Três balas atingem o jovem negro desarmado, uma delas na cabeça. O polícia tinha sido alertado de que Robinson estava a provocar distúrbios no tráfego numa área residencial e que tinha tentado agredir duas pessoas. O agente afirmou que tentou defender-se contra uma agressão de Robinson.

De seguida, milhares de manifestantes caminharam de forma pacífica com um cartaz branco com os dizeres "Black lives matter" ("A vida dos negros importa"), uma reivindicação que surgiu no ano anterior, após a morte de Eric Garner, em Nova York, e Michael Brown, em Ferguson, no estado do Missouri, por disparos de policiais.

A 10 de março o polícia Robert Olsen dispara contra Anthony Hills, ex-militar de 27 anos, depois deste ter sido denunciado por caminhar pelas ruas sem roupa. O incidente ocorreu em Atlanta, no Estado da Geórgia. O homem morto, que resistiu à prisão, estava desarmado e sofria de um transtorno mental.

O agente da polícia Michael Slager aborda, a 4 de abril, o veículo de Walter Scott, de 50 anos, em North Charleston. Enquanto o polícia comprova no veículo de patrulha os dados de Scott este sai a correr, aparentemente, por medo de ser preso por não pagar a pensão dos filhos. O polícia começa a perseguir o cidadão negro e atinge-o pelo menos oito vezes. Cinco balas atingem Walter e uma delas atravessa o coração.

O agente alegou legítima defesa mas um vídeo de telemóvel que mostrava o confronto desmentiu a tese de auto-defesa do polícia.

Freddie Gray, um jovem afro-americano de 25 anos, que estava sob custódia policial, morre devido a graves lesões medulares que sofreu quando foi detido, a 19 de abril, num bairro pobre de Baltimore. A morte do jovem causou um mal-estar na população que provocou manifestações violentas contra o abuso excessivo das forças de segurança e que terminaram no dia do funeral com 19 edifícios em chamas, 144 carros incendiados, quase 200 pessoas detidas e pelo menos 15 polícias feridos.

Alton Sterling, um homem negro de 37 anos, que vendia CDs diante de um supermercado, em Baton Rouge, morre atingido pelos disparos de dois polícias brancos que o tinham detido por causa de uma denúncia segundo a qual estaria a ameaçar pessoas com uma arma.

Os tiros foram dados quando Sterling já tinha sido dominado e estava caído no chão com o joelho de um dos agentes sobre seu ombro. Uma gravação com parte do incidente foi divulgada rapidamente pelas redes sociais e desencadeou enormes manifestações.

Jeronimo Yanez, polícia em Falcon Heights, mata com vários tiros Philando Castile, um afro-americano de 32 anos, a quem tinha dado ordem para parar porque o seu carro estava com um farol danificado. A namorada de Castile, Diamond Reynolds, transmite através do seu telemóvel para as redes sociais os momentos posteriores aos disparos. Nas duras imagens vê-se Castile agonizando no banco do motorista, com o cinto de segurança ainda colocado e uma grande mancha de sangue no abdómen.

A mulher afirma que Castile tentava pegar os seus documentos quando o agente começou a disparar. Pouco antes, explicou, a vítima tinha avisado a polícia de que tinha uma arma, mas possuía uma permissão legal de porte. O caso provocou indignação e grandes protestos nos EUA.

Um rapaz de 13 anos morre em Columbus. Tyre King terá puxado a sua pistola de ar comprimido quando os polícias se aproximaram dele, após terem sido chamados devido a um assalto. Um dos agentes disparou várias vezes contra o adolescente, que veio a morrer no hospital infantil. Tyre King terá puxado a sua pistola de ar comprimido quando os polícias se aproximaram dele na quarta-feira à noite após terem sido chamados devido a um assalto.

Um dos agentes disparou várias vezes contra o adolescente, que veio a morrer no hospital infantil. O caso reabriu não só o velho debate sobre as armas nos Estados Unidos (no Ohio, por exemplo, a lei é totalmente omissa sobre as armas de pressão de ar, fazendo com que qualquer pessoa possa adquirir uma) como o da violência policial.

A Polícia de Charlotte, Carolina do Norte, mata o afro-americano Keith Lamont Scott quando este estava estacionado numa paragem de autocarro à espera do filho. Os agentes alegam que estaria armado, mas não quiseram tornar públicas as imagens de videovigilância. O caso motivou ferozes reações da comunidade negra, em protestos que resultaram na morte de um manifestante. O caos em que se transformaram as ruas de Charlotte levaram as autoridades a declarar o Estado de Emergência

George Floyd, 46 anos, afro-americano, morre, na sequência de uma detenção violenta, numa rua de Minneapolis, no Minnesota. Teria, alegadamente, tentado usar uma nota falsa de 20 dólares (18 euros). Durante nove minutos, teve o pescoço pressionado contra o chão pelo joelho de um polícia. "Não consigo respirar", disse, pedindo clemência. Depois, perdeu os sentidos.

Os últimos momentos de vida ficaram gravados num vídeo perturbador, ele no chão, o agente a asfixiá-lo, testemunhas a pedirem que parasse. Protestos violentos acompanhados de pilhagens surgem após a divulgação das imagens. Desde então, a reação faz-se na rua, com milhares de pessoas juntas numa homenagem, pedindo justiça e a condenação dos agentes, denunciando o racismo das forças policiais.

O protesto começou pacífico, mas derivou em batalha campal com a Polícia, que barricou o acesso à esquadra envolvida e atirou à multidão com balas de borracha e gás lacrimogéneo. Lojas e casas foram incendiadas e saqueadas. Foi decretado o Estado de Emergência e o recolher obrigatório para conter a escalada dos protestos. A frase "não consigo respirar" transforma-se num grito de guerra para ativistas que protestam contra a brutalidade policial que atinge os negros e espalha-se pelas redes sociais que se juntam às manifestações.