Tragédia

Depois da tempestade só há fome e medo em Moçambique

Depois da tempestade só há fome e medo em Moçambique

O número que ninguém quer ver subir não pára de aumentar. Esta quinta-feira, o governo moçambicano confirmou que já morreram 242 pessoas na sequência do ciclone Idai. Em risco estão ainda cerca de 350 mil pessoas. A fome e as doenças são os golpes que todos temem na luta contra a morte.

Nas últimas vinte e quatro horas foram resgatadas cerca de três mil pessoas. Na terça-feira, o presidente, Filipe Nyusi, decretou estado de emergência e a Cruz Vermelha contabiliza, só na Beira, pelo menos 400 mil desalojados, naquilo que diz ser a "pior crise" do género em Moçambique.

Ao JN, dois portugueses que acompanham de perto a tragédia falam num cenário de destruição que tem tudo para se agravar com a fome e o risco de doenças como a malária ou a cólera.

"A cidade da Beira está situada abaixo do nível do mar, por si só já com problemas crónicos de infraestruturas quer a nível de estradas quer de edifícios antigos", explica Alberto Oliveira, natural do Porto, de 49 anos, a viver na Beira desde 1995.

"Grande parte da população vive ou vivia em casas muito rudimentares, feitas de madeira e chapas de zinco que pura e simplesmente desapareceram. É um drama tão grande que as casas mortuárias já não aceitam mais corpos e estão a informar as famílias para enterrarem os mortos o mais rapidamente possível", explica.

Foi há 11 anos que Sandra Rodrigues, de 44 anos, deixou Portugal para viver em Moçambique. "A situação é calamitosa". explica. "O Mundo não tem noção. Nem com as imagens. Estamos a viver uma situação horrível".

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Além da tragédia humana, a arqueóloga, natural de Vila Pouca de Aguiar, que perdeu as instalações da empresa que tinha, fala dos valores morais também em crise."Há muita gente a aproveitar-se da tragédia e da oportunidade. Roupas que foram enviadas por mecanismos de ajuda internacional estão a ser desviadas e leiloadas e nunca vão chegar para ajudar quem realmente necessita".

Membro da Associação Esmabama, uma instituição não-governamental que trabalha com oito escolas e com cerca de oito mil alunos, dá conta da missão quase impossível de encontrar os desaparecidos. "As estradas estão cortadas e a única hipótese que temos de chegar aos locais mais atingidos é por helicóptero. Mas estão a pedir preços absolutamente incomportáveis", lamenta.

Depois da chuva a fome e as doenças são o maior risco

Os ventos chegaram aos 200 quilómetros por hora e as chuvas derrubaram tudo o que puderam. A força da natureza acalmou, mas a ameaça continua a pairar na vida daquela gente.

É que a água levará três a quatro semanas a escoar e a fome faz-se ouvir num grito que ganha força com o passar dos dias. "As plantações foram destruídas e os preços estão a escalar. Um pão, que em média custa quatro meticais - cerca de cinco cêntimos -, depois do ciclone está a ser cobrado a 10 meticais - 16 cêntimos", explica. Há pessoas a beber água do rio, muito provavelmente contaminada, aumentando o risco de doenças, numa altura em que nem os hospitais dão resposta a tão grande tragédia. "Não há medicamentos e há alas hospitalares completamente a céu aberto".

As operações de resgate não páram e servem para emagrecer o número de mortos. Mas há um perigo escondido no oceano de lama que é a região da Beira. "Quando as chuvas terminarem, os mosquitos que estão inativos vão atacar e a malária vai ser o nosso grande desafio. Vai ser extremamente complicado. É uma catástrofe como não há memória neste país nem no sudeste africano", avisa Sandra. "Os surtos de cólera vão aparecer. A má nutrição e as doenças respiratórias são uma ameaça e quem já estava vulnerável não resistiu".

WhatsApp na ajuda das buscas

O drama dos desaparecidos une diversas pessoas que procuram um resquício de esperança por alguém ainda vivo. Mesmo com dificuldades de rede, é através do WhatsApp que se tenta chegar ao contacto de quem não dá sinais de vida. Um desses grupos é o "Rescue Beira", que conta com mais de 170 utilizadores. Em português ou mesmo em inglês são feitos apelos a um ritmo alucinante. "Que boa notícia", reage um dos membros ao ter a confirmação de que mais uma família está a salvo.

No meio de tanto medo as informações falsas também são uma realidade e o rumor dos crocodilos à solta é apenas o exemplo de uma informação que tem causado constrangimentos. "Surgiu uma fake news dando conta de que a Quinta dos Crocodilos, na Beira, foi atingida e que os animais estão à solta. O ciclone devastou o espaço, mas os animais não fugiram e estão controlados", aclara Alberto.

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