Moçambique

Depois do terror, em Pemba enfrenta-se a fome e os traumas

Depois do terror, em Pemba enfrenta-se a fome e os traumas

A vila de Palma, no norte de Moçambique, é agora um lugar-fantasma. Depois do selvático ataque perpetrado por militantes do autoproclamado Estado Islâmico, na passada quarta-feira, Palma ficou deserta.

Por lá, vagueiam sobreviventes na esperança de encontrar familiares, vivos ou mortos. Outros milhares, que saíram da vila em embarcações ou em voos humanitários, rumaram a Pemba, capital da província de Cabo Delgado, onde enfrentam a escassez de comida e a falta de condições.

Pelo caminho entre o terror e a suposta segurança, muitos são os que tentam fugir à fome e imploram por comida e água. Segundo várias organizações não-governamentais (ONG), alimentar a população deslocada ao longo do último ano tem sido um enorme desafio, havendo já claros sinais de desnutrição entre a população em Cabo Delgado, onde a violência, que começou em 2017, provocou uma crise humanitária com quase 700 mil deslocados.

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Com a chegada dos deslocados de Palma, o cenário vai piorar, garantem as organizações. Só ontem, a capital de Cabo Delgado acolheu cerca de duas mil vítimas do ataque dos rebeldes, contou Carlos Almeida, coordenador da Helpo em Moçambique, ONG que dá apoio a crianças na área da educação. Apesar do apoio do Programa Alimentar Mundial, que distribuiu 250 toneladas de ajuda alimentar para atender às necessidades de quase 16 mil pessoas, as Nações Unidas garantem que há falta de fundos e de bens essenciais.

Forças do Governo envolvidas

Além da fome, adultos e crianças tentam ainda ganhar a batalha contra a memória. A Pemba, a população de Palma está a chegar num estado de "trauma psicológico". "Viram os seus entes queridos ser mortos à sua frente, as suas casas e todos os seus pertences serem queimados, terem de fugir e sofrer violações sexuais", contou à TSF Margarida Loureiro, do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados. A Amnistia Internacional voltou a divulgar o relatório sobre a violência no Norte de Moçambique, insistindo que centenas de civis foram mortos, não só pelos rebeldes do Estado Islâmico, que ontem reivindicou o controlo de Palma, conhecido localmente como Al-Shabaab, mas também pelas forças de segurança governamentais e por uma empresa militar privada contratada pelo Governo.

Já não é a primeira vez que a organização sugere o envolvimento do Governo moçambicano na morte de civis. Todavia, o Executivo garante não estar relacionado com as mortes e sublinha que está a juntar esforços para combater os insurgentes, a pressão não pára de aumentar. Dezoito organizações da sociedade civil moçambicana exigiram ao presidente da República, Filipe Nyusi, que "acione" pedidos de apoio internacional para combater os grupos armados no Norte do país, considerando que a situação atingiu "proporções inaceitáveis".

Militares portugueses apoiam Moçambique

Moçambique irá receber, nas próximas semanas, 60 militares enviados por Portugal para ajudar no combate aos insurgentes. Os primeiros elementos do contingente português que vai ajudar na formação das forças militares moçambicanas partirão na primeira quinzena de abril, revela a agência Lusa. O envio deste contingente de 60 militares portugueses, das forças especiais, é enquadrado pelo novo acordo-quadro de cooperação bilateral que está a ser ultimado pelos ministérios português e moçambicano.

A equipa de militares apoiará o exército moçambicano na formação das suas forças especiais, garantiu anteontem Augusto Santos Silva, ministro dos Negócios Estrangeiros. Ainda assim, Portugal não tem como missão "pressionar o Governo de Moçambique" a aceitar ajuda internacional para solucionar a crise humanitária em Cabo Delgado, devendo, sim, apoiá-lo, defendeu o ministro dos Negócios Estrangeiros, Santos Silva, insistindo que a sua preocupação em relação aos ataques terroristas de Moçambique "não é de hoje, não é de ontem, e não é porque houve brancos vítimas dos ataques".

Apoio internacional

A Renamo, principal partido da Oposição moçambicana, defendeu que o país precisa de apoio internacional para travar a progressão de grupos armados, devido à "intensidade" dos ataques, acusando o Governo de "inércia e apatia" na abordagem do problema.

Conter a violência

O Aliança Democrática, principal partido da Oposição na África do Sul, instou todos os países da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral a conter os ataques terroristas em Cabo Delgado, Norte de Moçambique, lembrando que os ataques "têm o potencial de desestabilizar toda a região da Comunidade".

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