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Descoberto o primeiro encontro sexual da nossa espécie fora de África

Descoberto o primeiro encontro sexual da nossa espécie fora de África

Investigadores acreditam ter descoberto a data do primeiro encontro sexual dos nossos antepassados "Homo Sapiens" fora de África, há cerca de 300 mil anos, tendo gerado filhos com os Neandertais, que viviam na zona que atualmente corresponde à Europa.

Uma equipa de investigadores internacionais analisou os restos mortais de três Neandertais, incluindo o crânio de um bebé que morreu na Rússia há 44 mil anos e um adolescente da mesma espécie antepassada dos humanos atuais que foi predominante na Europa, encontrada na gruta asturiana de El Sidron, em Espanha, e que terá morrido há 49 mil anos.

Os investigadores centraram-se nos restos mortais masculinos porque queriam analisar o cromossoma Y, a marca genética da paternidade que passa de pais para filhos. Pretendiam perceber quem teve filhos com quem: se tinham sido os corpulentos machos Neandertais a juntarem-se às fêmeas Sapiens, se os elegantes machos Sapiens que procuraram fêmeas Neandertais para ter filhos.

Os resultados, publicados na revista "Sapiens", revelaram um novo capítulo do cruzamento entre Sapiens e Neandertais, já extintos, que aconteceu há cerca de 300 mil anos.

Trata-se do cruzamento mais antigo entre espécies de que há conhecimento, tendo acontecido inclusivamente antes de a nossa espécie ser o que é, pois o Homo Sapiens propriamente dito surgiu há cerca de 200 mil anos, aproximadamente 100 mil anos depois deste "primeiro encontro sexual" entre duas das três espécies de hominídeos que habitavam a terra há 300 mil anos.

Carles Lalueza-Fox, geneticista e coautor do estudo, acredita que a evidência deste cruzamento, vincada no cromossoma Y, prova que houve migração para fora de África dos antepassados do Homo Sapiens, que se encontraram com os Neandertais num lugar por identificar.

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"É impossível saber onde aconteceu, mas o mais plausível é que tenha sido no Médio Oriente ou, com menor probabilidade, nos Balcãs", argumenta Antonio Rosa, outro coautor do estudo, citado pelo jornal espanhol "El país".

A investigação, centrada no cromossoma Y, demonstra que neste encontro participaram machos e fêmeas de ambas as espécies, Sapiens e Neandertais, mas que deixou uma marca permanente na espécie que predominava na Europa naqueles tempos : o cromossoma Y dos Neandertais foi substituído pelos dos Sapiens, possivelmente porque os Neandertais eram muito menos, cerca de 10 mil naquela altura.

Um outro estudo anterior já havia demonstrado que a marca genética materna dos Neandertais - o genoma mitocondrial que passa de mães para filhos - era Sapiens, o que quer dizer que um cruzamento entre espécies deixou a marca das fêmeas Sapiens nos Neandertais.

Os investigadores situam este cruzamento numa data idêntica ao dos machos Sapiens com fêmeas Neandertais, há 300 mil anos. O mais provável é que tenha acontecido tudo no mesmo encontro, admite Mikkel Schierup, investigador da Universidade de Aarhus, na Dinamarca.

Neste encontro agora identificado pelos cientistas, e tido como o primeiro cruzamento entre espécies fora de África, foram os Sapiens que passaram os genes aos Neandertais, o contrário do que sucedeu há cerca de 50 mil anos, quando sucedeu o oposto.

Este novo estudo atualiza e emaranha a nossa árvore genealógica. Tendo só em conta os cromossomas sexuais dos pais e o genoma mitocondrial das mães, Sapiens e Neandertais são os parentes mais próximos. Analisando o resto do ADN não sexual, os Neandertais estão mais próximos dos Denisovanos, um povo misterioso que vivia na Ásia, numa altura em que a terra era habitada por seis espécies diferentes de hominídeos.

Análises de estudos anteriores mostraram que as três espécies mais conhecidas, Neandertais, Sapiens e Denisovanos, se encontraram em vários momentos da História e tiveram filhos entre eles. Até este novo estudo, pensava-se que Sapiens e Neandertais se haviam cruzado duas vezes, uma há cerca de 100 mil anos, possivelmente no Médio Oriente, e outra há 50 mil anos.

Destes encontros nasceram filhos mestiços, que, segundo os investigadores, eram bem recebidos nas tribos e criados como se fossem da própria espécie. Cresceram, multiplicaram-se ao longo de milhares de anos, ao ponto de hoje haver apenas uma espécie de homem, o Sapiens.

Fruto destes encontros entre as três espécies, há milhares de anos, muitos dos seres humanos modernos têm uma percentagem de ADN Neandertal e, em menor escala, de Denisovano.

Neandertais e Denisovanos extinguiram-se há milhares de anos, mas de alguma forma continuam vivos entre nós. Todos os humanos fora de África têm cerca de 2% de ADN de Neandertal ativo em cada uma das suas células. Alguns Sapiens da Austrália e da Nova Guiné têm uma pitada de ADN Denisovano.

Mais ainda, alguns povos de África e da Índia tem marcas de ADN de "povos fantasma", espécies humanas por identificar, mas cuja marca continua nos humanos atuais milhares de anos depois.

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