Afeganistão

Desespero, medo e caos no aeroporto de Cabul

Desespero, medo e caos no aeroporto de Cabul

Sete pessoas morreram, tendo algumas caído de um avião em voo. Portugal já retirou doze dos 16 civis do país.

O medo da liderança talibã, que já começou a instalar o pânico no Afeganistão ao controlar entradas e saídas das capitais provinciais e as principais estradas, empurrou milhares de pessoas para o aeroporto de Cabul numa tentativa desesperada de fugir do país. O caos instalou-se e pelo menos sete pessoas morreram quando tentavam fugir, incluindo várias que terão caído de um avião em voo.

À medida que a tensão aumenta, vários são os países que estão a fazer todos os esforços para retirar os seus cidadãos do Afeganistão.

Dos 16 civis portugueses que estavam no Afeganistão, 12 já saíram do país e quatro continuam em funções operacionais no aeroporto de Cabul. "A grande maioria trabalhava para a segurança da delegação da União Europeia" em Cabul, explicou Santos Silva.

Em debandada, homens, mulheres e crianças, puxadas pelos pequenos braços, com apenas os pertences que tinham no corpo, dirigiram-se ao aeroporto de Cabul onde, assoberbadas pelo medo de viver sob o regime do grupo fundamentalista islâmico, tentaram sair do país de avião. Muitas tentaram fazê-lo agarrando-se às rodas dos aviões militares norte-americanos.

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Perante a escalada de violência que está a levar a um êxodo enorme, o presidente norte-americano Joe Biden afirmou que a entrada no país, há 20 anos, nunca teve como "missão construir uma nação".

Biden ameaça

"Fomos para o Afeganistão com objetivos claros, capturar aqueles que nos atacaram a 11 de setembro de 2001 e garantir que a al-Qaeda não usaria o Afeganistão como base para nos atacar novamente. Fizemos isso", disse o democrata, tentando desculpar a acusação de que a precipitada saída das tropas estrangeiras do país levou à queda do Governo afegão.

"Não irei cometer o mesmo erro cometido anteriormente: ficar e continuar a lutar", insistiu Biden, sublinhando que o ex-presidente Ashraf Ghani recusou os conselhos sobre procurar um acordo diplomático com os talibãs e de ter falhado em erradicar a corrupção no país.

A verdade, revelou o democrata que tomou posse em janeiro, é que a situação no Afeganistão se desenrolou mais rápido do que previsto. Além disso, "os líderes políticos desistiram e fugiram do país". "Não há qualquer hipótese de mais um ano, mais cinco anos ou mais 20 anos. É errado pedir às tropas americanas para lutar quando as do Afeganistão não o fariam".

Num tom de voz calmo e complacente, Biden adiantou que os EUA continuarão a apoiar a retirada de civis aliados, tendo já sido resgatados dois mil afegãos. "A resposta será rápida e enérgica" se os talibãs tentarem interferir na evacuação dos EUA. "Assim que tivermos concluído esta missão, concluiremos a nossa retirada militar", advogou.

Situação "devia ter sido evitada" e pode piorar

A secretária-geral da Amnistia Internacional, Agnès Callamard, classificou a tomada de poder dos talibãs como "uma tragédia que devia ter sido prevista e evitada" e que pode agravar-se "sem ação rápida e decisiva da comunidade internacional". A responsável da organização não-governamental alertou ainda para os "milhares de afegãos em sério risco de represálias", desde "académicos e jornalistas a ativistas da sociedade civil e mulheres defensoras dos direitos humanos", que "estão em perigo de ser abandonados a um futuro profundamente incerto". E apela aos governos estrangeiros para que garantam "a saída segura de todos aqueles que correm o risco de ser visados pelos talibãs".

Vinte anos de erros ajudaram forças talibãs a vencer em quinze dias

Foi a mais longa guerra em solo estrangeiro protagonizada pelos Estados Unidos. Mas, apesar de vinte anos em solo afegão e do investimento de mais de 83 mil milhões de dólares (cerca de 70 mil milhões de euros) em armas, equipamentos e treinos de militares, a promessa de transformar o país não se cumpriu. Os sucessivos erros das várias administrações norte-americanas abriram caminho para que os talibãs conquistassem, de novo, o país. Em apenas quinze dias.

O investimento foi massivo, incluindo a compra de helicópteros, aviões e todo o tipo de equipamentos de combate. Mas no esquecimento ficou a falta de instrução dos jovens afegãos recrutados pelo exército ocidental.

A rápida e violenta ofensiva do movimento radical islâmico - que em fevereiro do ano passado prometeu ao Governo de Donald Trump cortar laços com grupos terroristas como a al-Qaeda e o Estado Islâmico no Afeganistão, reduzir a violência e negociar com o Governo afegão apoiado pelos EUA - levou as forças afegãs, claramente em desvantagem, a render-se mesmo antes da chegada dos talibãs às cidades, deixando para trás todo o equipamento, aproveitado pelos insurgentes.

Os "sistemas avançados de armas, veículos e logística utilizados pelos militares ocidentais estavam além das capacidades da força afegã", destaca o relatório apresentado na semana passada ao Congresso norte-americano pelo gabinete de John Sopko, inspetor-geral especial dos EUA para a reconstrução do Afeganistão.

Além disso, durante meses o Pentágono insistiu que o exército afegão era constituído por 300 mil homens, contra os 70 mil talibãs. Mas, feitas as contas, o exército e as forças de operações especiais sob controlo do ministério da Defesa somavam 185 mil soldados, sendo que apenas 60% das tropas eram combatentes treinados, adianta o Centro de Luta contra o Terrorismo da Academia Militar de West Point, Nova Iorque, citado pela AFP.

Além de tudo isto, a grande taxa de deserções obrigava o exército afegão a substituir 25% das suas forças todos os anos, levando à instabilidade interna. Os pontos fracos estavam à vista e a retirada das tropas dos EUA e de outras forças estrangeiras foi o golpe final para o país.

Sem acesso ao banco

O Governo de Joe Biden já declarou que os talibãs não terão acesso às reservas monetárias do Banco Central do Afeganistão mantidas em contas nos Estados Unidos. As reservas brutas do país alcançaram cerca de 8 mil milhões de euros em abril, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI).

Fundos bloqueados

Washington também pode bloquear a ajuda de credores multilaterais ao Afeganistão, como o FMI, que em junho libertou a última tranche de um empréstimo de 314 milhões de euros para apoiar a economia afegã face à pandemia de covid-19.

Soldados em fuga

Centenas de soldados afegãos em fuga em 46 aviões e helicópteros foram obrigados a aterrar no Uzbequistão. Foram detidos 585, estando as autoridades uzbeques em diálogo com o Governo do Afeganistão para decidir o seu futuro.

Os estudantes que espalham o terror no Afeganistão

Os talibãs, ou "estudantes" em pashto (uma das línguas nacionais do Afeganistão), surgiram no início da década de 1990 no Norte do Paquistão. Governaram o país de 1996 a 2001, impondo uma interpretação radical da lei islâmica, a "sharia", num país devastado pela guerra contra os soviéticos e que enfrentava uma luta fratricida entre os "mujaedine" ("combatentes" islâmicos) depois da queda do regime comunista em Cabul, em 1992.

Formados nas madrassas (escolas corânicas) do vizinho Paquistão, onde estes muçulmanos sunitas se refugiaram durante o conflito com os soviéticos, os talibãs tiveram então como líder o misterioso mullah Mohammad Omar, cofundador do movimento e morto em 2003.

Atualmente, o movimento é dirigido por Haibatullah Akhundzada, enquanto o mullah Abdul Ghani Baradar, também cofundador do grupo, dirige a ala política e é o principal negociador dos talibãs nas conversações com o Governo afegão, em Doha. Esteve preso no Paquistão durante oito anos, tendo sido libertado em 2018. Foi ele quem assinou o acordo de paz com o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em fevereiro do ano passado.

Filho do fundador Mullah Omar, Mohammad Yaqoob supervisiona as operações militares do grupo. Por sua vez, Sirajuddin Haqqani lidera a Rede Haqqani, um grupo vagamente organizado que supervisiona os recursos financeiros e militares dos talibãs na fronteira com o Paquistão.

Atual chefe da equipa de negociação dos talibãs, Abdul Hakeem Haqqani - antigo juiz e atual líder do conselho dos ulemas (religiosos) - é visto como homem de confiança de Akhundzada.

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