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Despedido e acusado de roubo por dar doses de vacina que sobraram para evitar que fossem para o lixo

Despedido e acusado de roubo por dar doses de vacina que sobraram para evitar que fossem para o lixo

Um médico de Houston, no Texas, deparou-se com dez vacinas que sobraram após um dia de vacinação e cujo prazo de validade expirava em seis horas. Decidiu inocular dez pessoas com critérios para receberem a vacina, incluindo a mulher, que sofre de doença pulmonar. Mas foi despedido e acusado de roubo.

O caso remonta a 29 de dezembro. O médico Hasan Gokal, de 48 anos, supervisionou a vacinação contra a covid-19 num parque de estacionamento de Humble, nos arredores de Houston, direcionado a profissionais de saúde. Não houve muita divulgação e a adesão foi baixa - só foram administradas 250 doses. Pelas 18.45 horas, quando o serviço estava a ser encerrado, chegou uma pessoa e foi vacinada. Mas administrar aquela dose ativou o prazo de validade do frasco e após seis horas iria ficar inutilizado. Os cerca de 20 profissionais de saúde que estavam a trabalhar no local já tinham sido vacinados ou não queriam ser, os paramédicos tinham ido embora e dos dois polícias presentes, um já tinha sido vacinado e o outro rejeitou a vacina.

Com dez doses a mais, que iriam para o lixo seis horas depois, o que fazer? Hasan Gokal recordou as indicações e recomendações recebidas numa sessão de formação sobre a administração da vacina da Moderna, a 22 de dezembro: primeiro, a profissionais de saúde e residentes em casas de saúde e, em segundo lugar, a quem tivesse mais de 35 anos e uma doença que aumente o risco de caso grave de covid-19. Depois, a mensagem foi: "Administrem a vacina nas pessoas. Não queremos desperdiçar nenhuma dose. Ponto", garante o médico, em declarações ao "The New York Times".

Seguindo esta orientação, contactou o responsável do Departamento de Saúde Pública do condado de Harris e revelou a sua ideia para conseguir aproveitar as doses sobrantes. Do outro lado ouviu uma resposta afirmativa: "ok". Iniciou então uma "maratona" de telefonemas através dos seus contactos para encontrar pessoas elegíveis para serem vacinadas. Quando chegou a casa, em Sugar Land, já tinha à sua espera uma mulher com cerca de 60 anos e doença cardíaca e outra com mais de 70 e diversos problemas de saúde.

De volta ao seu carro, foi até uma casa onde havia quatro pessoas elegíveis para a vacinação: um homem de 60 anos com problemas de saúde, a mãe deste na casa dos 90 anos que estava acamada, a sogra com mais de 80 anos e demência e a mulher, cuidadora da mãe.

Conduziu depois até outra habitação e administrou a vacina a uma mulher com mais de 70 anos.

Combinou ainda com outras três pessoas e encontrou-se com elas em sua casa. Uma mulher com mais de 50 anos, que é rececionista numa clínica médica, e uma mulher de 40 anos, cujo filho esteve toda a vida ligado a um ventilador, foram vacinadas. A pessoa que iria receber a última dose sobrante telefonou a cancelar.

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Após a meia-noite, e com apenas alguns minutos de validade, Hasan Gokal optou por dar a dose sobrante à sua mulher, de 47 anos, que sofre de sarcoidose pulmonar, uma doença inflamatória que causa insuficiência respiratória.

Na manhã seguinte, submeteu a informação sobre todas as pessoas vacinadas, incluindo a sua mulher, e informou os seus superiores e colegas sobre o que tinha feito e porquê.

Mas a decisão de encontrar pessoas elegíveis para não desperdiçar as vacinas sobrantes veio a revelar-se um pesadelo para o médico: foi despedido e acusado de roubar dez doses de vacina contra a covid-19 no valor total de 135 dólares (111 euros).

"O meu mundo ruiu", confessou ao "The New York Times". "Ter desabado tudo sobre ti. Deus, foi o pior momento da minha vida."

No final de janeiro, um juiz julgou a acusação sem fundamento. "É difícil compreender qualquer justificação para acusar qualquer médico bem-intencionado nesta situação com uma ofensa criminal", considerou o juiz Franklin Bynum. Mas Kim Ogg, procuradora distrital, prometeu levar o caso a um grande júri. Embora os promotores da acusação apresentem o médico como um oportunista, o seu advogado diz que ele agiu com responsabilidade - até mesmo de forma heroica.

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