Canadá

Destapar o horror: descoberta de vala comum de crianças indígenas mal arranhou a superfície

Destapar o horror: descoberta de vala comum de crianças indígenas mal arranhou a superfície

De 1831 a 1969, 150 mil crianças foram retiradas à força das suas famílias indígenas no Canadá e colocadas em internatos da Igreja Católica. A maioria nunca mais voltou a ver os pais, milhares morreram de maus tratos. Os abusos que sofreram são inenarráveis.

Ossos de uma costela infantil, um dente solto e o testemunho de sobreviventes revelam que dezenas de crianças indígenas foram arrancadas das suas camas em plena madrugada para cavar sepulturas num pomar de maçãs. Essas sepulturas, que são relativamente rasas - têm entre 70 a 80 centímetros de profundidade - destinavam-se a elas próprias e a outras crianças como elas.

É uma história de terror absoluto e só agora começa a ser destapada: o número de crianças que podem estar enterradas em campas anónimas e não documentados no local da antiga Escola Residencial Indígena Kamloops, na Colúmbia Britânica, no Canadá, pode ser muito maior do que o choque de horror provocado pelos 215 túmulos descobertos em maio deste ano.

Um primeiro relatório foi revelado esta quinta-feira e agora o Canadá admite abertamente: muitas mais sepulturas de crianças indígenas vão ser encontradas à medida que as buscas continuarem. E o país prepara-se para o pior.

Um "genocídio cultural"

Começando em 1831, ainda sob a gestão administrativa da Grã-Bretanha (o Canadá só se tornou independente em 1867) e prosseguindo até 1969 do século XX, o sistema escolar de internato do Canadá, maioritariamente gerido pela Igreja Católica e sempre com financiamento do Estado, separou à força cerca de 150 mil crianças indígenas das suas famílias nativas, impondo-lhes um violento estilo de vida paramilitar que pretendia purificá-las e integrá-las na sociedade canadiana.

PUB

Até 1951, todas as crianças indígenas com idades entre os 7 e os 15 anos eram obrigadas por lei a frequentar uma escola residencial, denunciaram as Fundações Indígenas. Milhares delas nunca mais foram devolvidas aos seus pais e estima-se que mais de seis mil possam ter sido mortas.

Os abusos são incontáveis. As crianças indígenas foram forçadas à conversão ao cristianismo e estavam proibidas de usar as suas línguas nativas ou de praticar as suas tradições e costumes - se o fizessem eram espancadas. Assim que ingressavam nas novas escolas católicas, rapavam-lhes o cabelo, que usavam comprido, destituindo-as da sua identidade indígena natural.

As crianças separadas dos pais eram sujeitas a vários tipos de pavor e maus tratos, desde a desnutrição programada à fome perpétua, passando pelo isolamento como punição comportamental, recurso frequente às ameaças e abusos físicos, coroando-se tudo isto com abusos sexuais de vária ordem. As crianças sofreram aquilo que a Comissão de Verdade e Reconciliação do Canadá já designou como, simplificando a monstruosidade, um "genocídio cultural".

O horror ainda está a começar

Sarah Beaulieu, da University of the Fraser Valley, que é especialista em buscas por radar de penetração no solo, conduziu as célebres investigações de maio na Colúmbia Britânica que destaparam os mais de 200 túmulos suspeitos e que continham restos mortais de crianças tão pequeninas quanto os três anos de idade. Debaixo de grande alvoroço público, Beaulieu sublinhou que as suas inquirições no solo apenas cobriram um hectare de terreno num local que possui mais de 65 hectares.

"Esta investigação mal arranhou a superfície", disse a especialista canadiana no primeiro briefing técnico sobre as descobertas da primavera. Os meses que se seguiram até agora, dão-lhe razão: a contagem de sepulturas anónimas em todo o país aumentou já para mais de 1100, agigantando as perspetivas mais tenebrosas.

Os principais sites de horror, além do da escola indígena de Kamloops, incluem: túmulos não identificados de 751 pessoas perto do local da antiga escola católica Marieval Indian Residential School, em Saskatchewan; restos mortais de 182 pessoas, incluindo um número indeterminado de crianças, perto do local da escola católica St. Eugene's Mission, em Cranbrook, na Colúmbia Britânica; e 104 pessoas cujos restos mortais estão enterrados sem identificação junto à antiga Escola Residencial Indígena Brandon, em Manitoba, que era gerida pela Igreja Metodista.

"Esta é uma verdade muito pesada", declarou Rosanne Casimir, uma chefe indígena de Secwépemc. "Seguiremos as provas à medida que forem sendo divulgadas e seguiremos a ciência enquanto prestamos atenção às narrativas orais que os sobreviventes partilham connosco".

No fim das aulas, a sala estava cheia de sangue

São agora cada vez mais os ex-alunos que vêm a público contar as suas experiências tenebrosas. Eles descrevem "abusos horríveis às mãos de funcionárias dos internatos: físicos, sexuais, emocionais e psicológicos", dizem as Fundações Indígenas.

George Guerin, um ex-chefe da Nação Musqueam que estudou na Kuper Island Residential School, na Colúmbia Britânica, lembrou que uma das instrutoras, a Irmã Marie Baptiste, "usava um pau que era comprido e grosso como um taco de bilhar. Quando ela me ouvia a falar na minha língua nativa, batia-me com o pau com toda a força, na cabeça, nas mãos, nos braços, nas costas, na cabeça, apanhava onde calhava", diz. "Muitas vezes, no fim das aulas, a sala estava toda pichada de sangue. E éramos nós, as crianças, que tínhamos que limpar esse sangue, do chão, das carteiras, das paredes, ou então ainda apanhávamos mais".

Entre 2007 e 2015, os indígenas que frequentaram estas escolas residenciais católicas apresentaram em tribunal cerca de 38 mil ações judiciais por lesões causadas por abusos físicos e sexuais, segundo dados da CBC - Canadian Broadcasting Corporation.

Para milhares de crianças, o abuso e a galopante negligência das escolas foram mortais. O relatório de 2015 da Comissão de Verdade e Reconciliação do Canadá documentou 3200 crianças que morreram em escolas residenciais, mas o número de mortes pode ser 10 vezes maior do que isso, diz a CBC.

Quatro anos depois, o Centro Nacional para a Verdade e a Reconciliação divulgou os nomes de 2800 das crianças que puderam ser identificadas. Muitas das famílias dessas crianças nunca foram notificadas das suas mortes, noticiou a BBC News em 2019.

Igreja Católica tem que assumir responsabilidade

Em 2008, o governo canadiano pediu formalmente desculpas pelas terríveis práticas que vigoraram durante um século e meio. No início de junho de 2021, o primeiro-ministro Justin Trudeau disse que "a Igreja Católica deve assumir formalmente responsabilidades pelo seu papel na administração de muitas das escolas" e que "deve fornecer todos os registos possíveis para ajudar a identificar restos mortais de outras crianças indígenas" que nunca mais foram devolvidas às suas famílias.

No primeiro domingo de junho, na sua bênção semanal na Praça de S. Pedro, em Roma, o Papa Francisco admitiu ter ficado "triste" e "magoado" com a descoberta dos restos mortais de crianças, mas não pediu publicamente perdão.

A atitude do Papa foi recebida com desapontamento e amargura pelo chefe da Federação das Nações Indígenas Soberanas de Saskatchewan. "Estamos todos magoados e tristes. Quem não está?", disse Bobby Cameron à agência Reuters. E sublinhou: "Isto é uma farsa mundial". E depois disse aquilo que era esperado do chefe da Igreja Católica: "Quão difícil é para o Papa dizer: sinto muito pela forma como a nossa organização tratou o povo das Primeiras Nações, os alunos das Primeiras Nações durante aqueles tempos, lamentamos muito, rezamos por eles".

O arcebispo de Vancouver, J. Michael Miller, em cuja arquidiocese histórica estava localizada a escola residencial Kamloops, foi mais longe do que o Papa. Através do Twitter, o prelado disse que a Igreja "errou inquestionavelmente" ao implementar uma política de educação selvagem que resultou numa "absoluta devastação para crianças, famílias e comunidades inteiras".

A Conferência Canadiana de Bispos Católicos não comentou o assunto.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG