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Diabo com nome de anjo. Ex-polícia confessou 13 homicídios e 50 violações

Diabo com nome de anjo. Ex-polícia confessou 13 homicídios e 50 violações

De anjo, só nome. Joseph James DeAngelo, autor confesso de 13 homicídios e cerca de 50 violações, viveu escondido grande parte da vida. Apanhado após 40 anos na penumbra, agachou-se perante a Justiça e confessou dezenas de crimes para evitar a pena de morte.

Joseph James DeAngelo, um antigo polícia expulso das forças de autoridade depois de ser apanhado a furtar um repelente para cães, é o autor confesso de 13 homicídios e pelo menos 50 violações. Está a ser julgado em Sacramento, na Califórnia, nos EUA.

A sentença, já definida, será lida na sexta-feira, mas antes de oficiada condenação, a danação, na forma da raiva que as vítimas de DeAngelo não ultrapassaram. A danação pelo estrago que o antigo polícia norte-americano, agora com 74 anos, causou a tantas pessoas: que admita, entre homicídios e violações, mais de 50 vidas foram interrompidas, corrompidas, em vários condados dos EUA durante os anos de 1970 e 1980.

A danação, sinónimo de maldição, de perversão. "Sendo cristã, um quarto de mim quer que Deus tenha piedade de ti. Mas os outros três quartos querem que ardas no inferno", desabafou Jane Carson-Sandler, uma das vítimas do "Assassino do Estado Dourado".

"Posso ter sido uma das tuas vítimas, DeAngelo, mas sabes uma coisa?" A pergunta é retórica, porque Jane Carson-Sandler não espera ter resposta. Nem o arguido pretende dar-lhe a mínima satisfação. Desde que começou a ser julgado, em Sacramento, faz-se ausente do tribunal, olhos no vazio, distantes num ponto fixo. Mas não deixa de estar na mira das vítimas.

"De Angelo, quero que olhes para mim, quero que te lembres do que digo", continua Jane, nome próprio dado às vítimas desconhecidas nos EUA, apelido composto, nada anónimo. "Sabes, agora sou uma sobrevivente, lutadora. É isso, maldito, transformei a minha dor em poder e a minha desgraça numa mensagem", acrescentou Carson-Sandler, quarta-feira, ao segundo de três dias de audiência, que vão conduzir a dor, as memórias do horror até à leitura da sentença.

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Violou mulheres na frente dos companheiros

DeAngelo vai ser condenado a 26 sentenças de prisão perpétua, 11 das quais correm sucessivamente. Com base no acordo de confissão, em que admitiu 53 ataques a 87 vítimas em 11 condados diferentes, incluindo 50 violações, evita a pena de morte, que era desejo de muitas das vítimas.

Armado e mascarado aterrorizou comunidades norte-americanas nos anos 1970 e 80, invadindo casas enquanto mulheres solteiras ou casais dormiam. Por vezes, amarrava o homem e empilhava pratos nas costas deste, violando a mulher, enquanto ameaçava matar os dois se os pratos caíssem.

Bob Hardwick foi um desses homens, amarrado, enquanto a namorada era violada. Não quer a morte de DeAngelo, deseja-lhe um inferno na terra e sugere a condenação a ataques diários dos colegas de prisão. "É imperativo que a justiça seja alcançada e que estes ataques se perpetuem pelo resto da sua vida", disse Hardwick. "Assim, digo uma coisa aos futuros companheiros de cadeia de Joe DeAngelo, se me estão a ouvir, por favor lembrem-se do que acabei de vos pedir", acrescentou.

O perdão não surge facilmente, só porque o agressor está detido, sentado no banco dos réus no tribunal do Condado de Sacramento, após tantos anos na penumbra, até ser capturado, já os crimes eram uma memória dolorosa, uma ferida aberta apenas para as vítimas.

"Gostava que DeAngelo conhecesse a mulher que violou, que ele pode pensar que quebrou, mas não", disse Joanne Miyao, identificada como a 42.ª vítima de violação do "Assassino do Estado Dourado", ou "The Golden State Serial Killer", na designação da língua original.

Erguendo a cabeça em tribunal, ombros direitos, Miyao disse que se via como "uma sobrevivente", mas incapaz de perdoar o agressor. "Não cheguei a esse ponto ainda. Não sei se algum dia chegarei", acrescentou.

Ex-noiva fintou o destino mas teve arma apontada à cabeça

Uma antiga namorada de DeAngelo compareceu também em tribunal. Bonnie Ueltzen não foi autorizada a falar, mas sentou-se ao lado de Carson-Sandler, a quinta vítima de violação, de olhar fixo no homem que pressentiu crescer como monstro quando era ainda uma adolescente.

Há 50 anos, quando tinha 19, Bonnie Ueltzen acabou com o noivado com DeAngelo. Sentia crescer o desconforto, o medo. Justificadamente. Dias depois, o ex-noivo, despeitado, apareceu-lhe à janela do quarto, arma em punho, para a raptar. Foi salva pelo pai, que correu com o intruso.

Uma década depois, DeAngelo era já a expressão do demo. "Odeio-te Bonnie", gritou durante o 38.º ataque, dados da polícia, uma violação cometida em 1978. Viria a ser detido 50 anos depois, em abril de 2018, quando as autoridades tinham esgotado quase todas as possibilidades de o apanhar.

Barbara Rae-Venter, uma especialista em biologia que estuda árvores genealógicas, uma das mais importantes personalidades do ano 2018 pela prestigiada revista científica "Nature", foi decisiva neste desfecho.

Uma amostra de sémen preservada num congelador permitiu fazer o sequenciamento do ADN do autor dos crimes dos anos 70 e 80, sem que se conhecesse a sua identidade. De Angelo seria detido dias depois.

A leitura da sentença, cujos contornos foram acordados com a Acusação, vai decorrer num salão da Universidade da Califórnia, a mesma em que DeAngelo se formou, com uma licenciatura em Justiça Criminal, há 50 anos.

Vítimas dizem que aparente fragilidade do agressor é um esquema

A leitura da sentença não é o fim da linha para DeAngelo, que comparece em tribunal numa cadeira de rodas, debilitado, fragilizado à vista de todos. Uma farsa, segundo as vítimas.

"Tenho a certeza de que o plano é parecer fragilizado para cumprir a pena numa prisão-hospital onde acredita que poderá ser tratado mais como um paciente do que um prisioneiro", disse Gay Hardwick. "Não o quero a respirar o mesmo ar que eu respiro, a ver o mesmo sol que vejo", acrescentou esta vítima.

Espicaçados os procuradores pediram ao tribunal para mostrar um vídeo do pátio da prisão onde se vê o arguido animado e ágil. O juiz recusou. Mas as vítimas não desarmam e desejam para DeAngelo a pior prisão que o Estado conseguir providenciar.

"És um ser desprezível. Deves ser enviado para a pior prisão da Califórnia", desabafou Dolly Kreis, mãe de uma das vítimas de violação, Debbie Strauss, que faleceu em 2006.

"Merece o pior ambiente possível, onde tenha de viver em medo permanente, como as suas vítimas", acrescentou Sandy James, irmã de Debbie, recomendando a prisão de máxima segurança de Pelican Bay.

Para já, DeAngelo não vai sair das instalações do Departamento Correcional da Califórnia, uma vez que as transferências de prisões estão suspensas, devido à covid-19. Se e quando for levado, a vítima Jane Carson-Sandler só tem um desejo. "Que não o isolem, que o metam numa cela com outros prisioneiros, porque ninguém gosta de violadores que perseguem jovens raparigas", disse. "Passaria o resto da vida a olhar para trás", em sobressalto, como as dezenas de vítimas que fez durante duas décadas de terror em 11 condados dos EUA.

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