Novas restrições

Do recolher obrigatório ao confinamento: Europa ergue escudo contra a covid-19

Do recolher obrigatório ao confinamento: Europa ergue escudo contra a covid-19

Irlanda e País de Gales voltam, esta semana, ao confinamento. No norte de Espanha, a região de Navarra segue-lhes o exemplo e Madrid pondera adotar o recolher obrigatório, medida já implementada em França e na Bélgica. A força da segunda vaga de covid-19 leva Europa a endurecer estratégias de combate.

Governos, empresas e cidadãos não querem, sequer, ouvir falar de um novo confinamento. No início de outubro, a Organização Mundial da Saúde (OMS) apelou até aos países que "não o usem como principal meio de controlo" da covid-19.

"A única altura em que acreditamos que os confinamentos são necessários é para ganhar tempo enquanto se reorganizam, reagrupam e reequilibram os recursos e se protegem os trabalhadores exaustos da área da saúde. Mas, mesmo assim, preferíamos não o fazer", defendeu David Nabarro, médico e responsável da OMS, em declarações à revista britânica The Spectator.

Todavia, se o cerco imposto pela covid-19 já estava a levar a Europa a endurecer as medidas contra o vírus, nas últimas semanas, com o número crescente de novos casos de infeção por SARS-CoV-2, os esforços de contenção da pandemia intensificaram-se.

A segunda vaga está a ser mais forte do que a primeira e há governos que já esgotaram todos os passos possíveis antes da adoção da medida mais extrema de combate à propagação do vírus. Depois de Israel - que foi o primeiro país do mundo a voltar ao confinamento - também a Irlanda e o País de Gales anunciaram, recentemente, a adoção dessa estratégia restritiva. Mas não são os únicos e, nos próximos dias, a lista poderá aumentar.

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O Governo irlandês decretou, esta segunda-feira, o alerta máximo do plano de combate à pandemia de covid-19, que obriga os cidadãos a permanecerem em casa e o encerramento de bares, restaurantes e espaços comerciais não essenciais, mantendo abertas escolas e creches.

O novo confinamento, menos restrito do que o imposto na primeira vaga da pandemia, entrará em vigor na próxima quinta-feira e durará seis semanas, prevendo levantar progressivamente as restrições até ao início de dezembro, para que a economia possa recuperar durante o período natalício.

Com as novas restrições, os bares e restaurante apenas poderão oferecer o serviço de venda de comida para fora, serão proibidas todas as reuniões familiares e não serão permitidas visitas a outras residências, enquanto as deslocações não essenciais, como passeios ou saídas de casa para exercícios físicos, serão limitadas a um raio de cinco quilómetros.

A população só poderá abandonar os respetivos condados para trabalhar, estudar ou "por outros propósitos essenciais", apesar de o Governo recomendar que se trabalhe a partir de casa sempre que for possível. Até ao momento, a Irlanda registou 1852 mortes por covid-19 e um acumulado de 50 993 casos de infeção.

Às 18 horas desta sexta-feira, o País de Gales vai também iniciar um novo período de confinamento de duas semanas, segundo anunciou ontem o primeiro-ministro, Mark Drakeford.

A medida, explicou ao "The Guardian", visa assegurar "o alívio do sistema de saúde", de forma a garantir a sua capacidade de resposta.

Só os trabalhadores dos serviços essenciais poderão sair de casa, numa altura em que o país contabiliza quase 44 mil óbitos por covid-19 e 762.542 infetados.

Com cerca de 650 mil pessoas, a região de Navarra, no norte de Espanha, vai ficar confinada a partir de quinta-feira e durante 15 dias, exceto para casos excecionais, como trabalho, serviços essenciais ou de emergência.

A presidente do Governo desta comunidade autónoma, María Chivite, anunciou as restrições à circulação de pessoas numa conferência de imprensa extraordinária, na qual reconheceu que a situação de saúde é "preocupante" devido à covid-19, apesar de outras restrições já terem sido tomadas nas semanas anteriores.

"Trata-se de parar toda a atividade não essencial", disse, anunciando, além do confinamento, o encerramento às 21 horas de bares, restaurantes e outros estabelecimentos desportivos e culturais, bem como a restrição de reuniões fora do agregado familiar.

A incidência acumulada por 100 mil habitantes nos últimos 14 dias nesta região espanhola, que faz fronteira com a França, o País Basco, Aragão e Rioja, era esta segunda-feira de 945 casos, a mais elevada do país, que tem 312 de média.

Tal como já acontece em França, a região de Madrid está a analisar a possibilidade de pedir ao Governo central espanhol que declare o recolher obrigatório para garantir que não há deslocações em determinadas horas do dia.

O responsável pela Saúde da comunidade autónoma de Madrid, Enrique Ruiz Escudero, disse esta terça-feira de manhã, num encontro organizado pela agência Europa Press, que esta possibilidade tem sido discutida internamente no seu departamento.

"Nesta situação em que vivemos com a pandemia, qualquer opção que envolva restrição de atividade ou de mobilidade deve ser estudada", salientou Enrique Ruiz Escudero.

O responsável pela região onde se encontra a capital espanhola explicou que esta comunidade autónoma não tem autoridade jurídica para adotar esta medida excecional, que é da responsabilidade do Governo e que, na sua opinião, "não seria aplicável apenas em Madrid, mas em toda a Espanha".

"É uma decisão que não vemos com maus olhos", acrescentou. O Ministério da Saúde espanhol vai reunir-se na quarta-feira com os responsáveis pela saúde das comunidades autónomas, que têm competências para tomar decisões nesta área, esperando-se que do encontro saia algum tipo de indicação comum para enfrentar a pandemia.

Na Bélgica, o aumento galopante de casos positivos de infeção está a preocupar o governo, com o ministro da Saúde a reconhecer que a situação pode ficar fora de controlo. Esta segunda-feira, entraram em vigor novas medidas de restrição como o encerramento de bares, cafés e restaurantes durante um mês e o recolher obrigatório entre a meia-noite e as 5 horas.

Nas duas últimas semanas, as autoridades belgas registaram uma taxa de incidência de 747 casos confirmados de infeção por 100 mil habitantes, o que representa uma subida de 221% face aos 14 dias anteriores. Desde o início da pandemia, morreram 10.443 pessoas no país e 230.480 contraíram a infeção.

Só entre os dias 9 e 15 de outubro, foram registados mais de 55 mil novos casos, o que representa uma média de cerca de oito mil infetados por dia, num aumento de 79% face aos sete dias anteriores.

Num país com uma dimensão semelhante à de Portugal (11,5 milhões de habitantes), o ministro da Saúde belga, Frank Vandenbroucke, advertiu, numa entrevista à cadeia televisiva RTL, que o país está "realmente muito próximo de um 'tsunami'".

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