Reino Unido

Dois tiros no porta-aviões britânico: as polémicas da covid-19

Dois tiros no porta-aviões britânico: as polémicas da covid-19

É velho o ditado do "olha para o que eu digo, não olhes para o que faço". Em Inglaterra, a descrição é certeira e mais uma vez Boris Johnson vê os seus líderes contra a pandemia debaixo de fogo por infringirem as regras do confinamento.

É o primeiro-ministro britânico quem vem a praça pública defender o seu principal conselheiro, Dominic Cummings, acusado de violar as regras de confinamento impostas para combater a pandemia de covid-19.

"Eu acho que, em todos os aspetos, ele agiu com responsabilidade, legalidade e integridade", disse Johnson durante uma conferência de imprensa que ocorreu numa altura em que os pedidos de demissão do seu conselheiro se multiplicam.

Segundo Boris Johnson, o seu assessor "seguiu os instintos que qualquer pai ou familiar seguiriam" numa situação semelhante.

Os instintos do assessor, que, com sintomas de covid-19, viajou mais de 400 km até casa dos pais, deixam-no na mira dos britânicos e da oposição, que considera que deve abandonar o cargo por não respeitar as regras de confinamento em vigor, nem proteger o Serviço Nacional de Saúde britânico.

Para os outros, a mensagem é sempre clara: "Se uma pessoa quebrar as regras, vamos todos sofrer". Mas, neste caso, Dominic Cummings, o mesmo que idealizou a campanha do Brexit (saída do Reino Unido da União Europeia), não é um simples mortal.

A escritora J. K. Rowling é uma das figuras públicas que saiu ao ataque contra Dominic Cummings, através de partilhas e mensagens publicadas no Twitter.

Num desses textos, a autora da saga Harry Potter, que é casada com um médico, escreveu: "As famílias de luto foram separadas, os funerais ficaram sem assistência e os que morreram foram forçados a despedir-se através de iPads, porque as pessoas obedeceram às regras para proteger o NHS (Serviço Nacional de Saúde) e salvar vidas, e Johnson fica aqui a defender Cummings".

Um porta-voz oficial de Downing Street esclareceu que, "devido à esposa já estar infetada com o suposto coronavírus, e à alta probabilidade de ele próprio se sentir indisposto, tornou-se essencial garantir que o filho pudesse receber os cuidados adequados", mas os argumentos não têm convencido a oposição.

"A ser verdade, o principal conselheiro parece ter violado as regras de confinamento. As instruções do governo eram muito claras: ficar em casa e não fazer viagens que não são essenciais", disse um porta-voz do Partido Trabalhista, à agência EFE.

Os jornais ingleses "The Guardian" e "Mirror" juntaram-se numa investigação e revelam que Cummings pode ser alvo de uma investigação da polícia por violar as regras do isolamento, depois de um professor de Química aposentado ter apresentado queixa depois de o ter visto na rua, na cidade de Barnard Castle, a cerca de 50 km de Durham, cidade onde vivem os pais de um dos estrategas de Boris Johnson.

O caso da amante e da demissão do "Senhor Confinamento

Em março, o governo britânico ordenou a qualquer pessoa com sintomas relacionados com a covid-19 o isolamento em casa por sete dias, sem saídas sequer para comprar bens essenciais.

Um dos homens de confiança de Boris e líder da estratégia para enfrentar a pandemia, Neil Ferguson, foi o primeiro a infringir as regras.

O investigador demitiu-se após ter recebido a amante em casa, que atravessou a cidade de Londres para o visitar, no mesmo dia em que o Reino Unido ascendia ao primeiro lugar da tabela de infetados no mundo.

A pressão pública foi tão grande que o epidemiologista que ajudou o Governo a definir e a impor as regras de confinamento só teve uma solução: sair.

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