A revolução franciscana

Entre a reforma e os opositores - os temas difíceis do Papa

Entre a reforma e os opositores - os temas difíceis do Papa

Não sendo a sua questão essencial - o que o Papa quer, em primeiro lugar, é que todos os católicos assumam de forma mais intensa a sua relação com o Evangelho e com as consequências da fé no agir quotidiano -, a reforma da Cúria Romana iniciada já por Francisco é um desafio importante para poder concretizar todos os outros de forma plena.

Os problemas da Cúria foram uma das razões que levaram Bento XVI a resignar do cargo e o Papa Bergoglio quer cumprir o mandato dos cardeais. Nas reuniões preparatórias do conclave, foram muitas as vozes a pedir uma clara reforma da instituição.

Vários passos já foram dados e, durante o próximo ano, Francisco quer ter pronto o novo quadro legislativo e organizativo dessa reforma. Os cardeais seus conselheiros no denominado G-9 têm estado a trabalhar na reconfiguração, que passa não só pela junção de diferentes organismos (já operada em alguns casos), mas sobretudo por redefinir o papel da Cúria como serviço de ajuda ao Papa e não como governo mundial da Igreja.

A articulação com os bispos locais, organizados em conferências episcopais, é um dos temas mais delicados. Bergoglio já deu sinais de que quer dar maiores responsabilidades aos bispos, numa opção pela colegialidade. Mas isso terá de ser feito com cautelas, de modo a não fazer aumentar a oposição (surda ou mais clara) que por vezes já se sente. A sua lógica é a de ganhar adesão à ideia da reforma e não estragar a possibilidade de a concretizar, o que aconteceria se entrasse numa lógica de confronto. Mas, mesmo assim, adivinham-se dificuldades.

O discurso de boas-festas aos responsáveis da Cúria, segunda-feira passada, constitui a terceira parte de um tríptico em que o próprio resumiu muito do que pretende: em 2103, Francisco sublinhou "os aspectos importantes e inseparáveis do trabalho da Cúria: o profissionalismo e o serviço". Em 2014, enumerou o "catálogo" das 15 tentações e doenças de quem trabalha nos órgãos centrais da Igreja; entre elas, o "terrorismo das maledicências, bisbilhotices e mexericos", a "indiferença para com os outros" ou os "exibicionismos" quando se "transforma o serviço em poder e o poder em mercadoria para obter dividendos humanos ou mais poder".

Este ano, para completar o tríptico, o Papa falou das virtudes de quem trabalha num serviço como este - e insistiu em valores como a humanidade, amabilidade, honestidade, respeito, humildade, capacidade de dádiva, liberdade ou sobriedade. Sobre alguns destes valores repetiu anteontem, na noite de Natal: "No seio duma cultura da indiferença, que não raramente acaba por ser cruel, o nosso estilo de vida seja, pelo contrário, cheio de piedade, empatia, compaixão, misericórdia."

Além da articulação com os bispos locais e do estilo de vida dos seus responsáveis e funcionários, a reforma da Cúria deve afrontar ainda questões como novos modos de organização, menos burocracia, mais eficácia no trabalho ou transparência nas contas.

O Papa terá de lidar aqui com outras questões delicadas: Francisco já fez saber que não quer despedimentos dos funcionários, mas a reforma terá de garantir também uma maior eficiência na distribuição dos recursos. Francisco e o G-9, como admitiu há pouco tempo o cardeal Maradiaga, podem estar a desenhar um caminho que passe por, no futuro, os funcionários do Vaticano trabalharem por períodos limitados de tempo na Cúria ou nas instituições do Vaticano.

O papel da diplomacia papal também está em jogo, nesta redefinição (os diplomatas da Santa Sé dependem directamente da Secretaria de Estado do Vaticano). Em Junho, Bergoglio disse a alunos da Academia Pontifícia Eclesiástica, escola de formação diplomática da Santa Sé, que eles não são "chamados a ser altos funcionários de um Estado, uma casta superior que se preserva, querida nos salões mundanos". E apontou o que o futuro lhes pode trazer: a Europa, "que precisa de acordar"; a África, "sedenta de reconciliação"; a América Latina, "faminta de nutrição e interioridade"; a América do Norte, "que precisa de redescobrir as raízes de uma identidade que não se define a partir da exclusão"; a Ásia e a Oceânia, "desafiadas pela capacidade de fermentar na diáspora e dialogar com a vastidão de culturas ancestrais."

A reorganização do Instituto para as Obras de Religião, o chamado "banco do Vaticano", a par das medidas de transparência financeira, é talvez a parte da reforma que estará mais avançada. Há um mês, o Papa nomeou um novo director do IOR e, no início deste mês, o comité Moneyval, do Conselho da Europa, confirmou que o Vaticano está a fazer esforços para prevenir delitos financeiros.

O futuro do IOR, como o Papa disse em 2013, pode passar por ser um banco, um fundo ou uma instituição de ajuda. Mas, independentemente da opção final, Francisco quer torná-lo numa instituição "honesta e transparente". Até lá, a prioridade é o combate à corrupção - nas últimas décadas, o IOR apareceu várias vezes em histórias mal explicadas ou escândalos notórios. O endurecimento de penas para a corrupção e os crimes financeiros estão entre as medidas já tomadas - que levaram mesmo a várias demissões.

A reforma não dará descanso ao Papa Francisco.

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