A revolução franciscana

O outro nome do Papa é misericórdia

O outro nome do Papa é misericórdia

Um homossexual? "Quem sou eu para julgar?" Uma mãe solteira? O próprio Papa baptiza-lhe o filho. Refugiados a morrer no Mediterrâneo? Não podemos ceder à "globalização da indiferença". Pessoas sem-abrigo a dormir à volta do Vaticano? Providenciem-se duches e um barbeiro.

"Miserando atque elegendo". No lema do Papa, escolhido quando Jorge Mario Bergoglio foi nomeado bispo, está a síntese da mensagem central que ele considera dever ser anunciada pela Igreja: "Olhou para ele com misericórdia e escolheu-o", diz aquela frase, em latim.

Por ter esse entendimento, o Papa Francisco decidiu convocar um ano jubilar destinado a celebrar a ideia da misericórdia. A palavra, mesmo usada com frequência na Igreja, tinha sido esvaziada de muito do seu conteúdo concreto e o Papa argentino quer tornar a sua utilização mais real para a vida das pessoas.

Mais do que uma ideia, o Papa quer, no entanto, uma atitude concreta de acolhimento. Desde logo, o acolhimento dos que mais precisam - seja por necessidades espirituais seja por dificuldades materiais. Para isso, recorda, é necessário que os cristãos reaprendam de novo e revivam o espírito e a letra das chamadas "obras de misericórdia" (ver texto ao lado).

"Nas nossas paróquias, nas comunidades, nas associações e nos movimentos - em suma, onde houver cristãos -, qualquer pessoa deve poder encontrar um oásis de misericórdia", diz o Papa, na Misericordiae Vultus (O rosto da misericórdia), a bula de proclamação do jubileu da misericórdia, publicada em Abril.

À luz desta ideia, entende-se melhor a insistência do Papa em convocar o Sínodo dos Bispos sobre a família, cuja assembleia decorreu em Outubro. Uma nova atitude de acolhimento de todas as situações familiares, mesmo daquelas que não estão de acordo com as regras da Igreja, foi uma das teclas repetidas por Francisco a propósito desse processo.

O Papa quer que a sua proposta de oásis chegue mesmo a quem cometeu crimes ou se enredou na corrupção. "Que a palavra do perdão possa chegar a todos e a chamada para experimentar a misericórdia não deixe ninguém indiferente", escreve ele, na bula de Abril. "O meu convite à conversão dirige-se, com insistência ainda maior, àquelas pessoas que estão longe da graça de Deus pela sua conduta de vida. Penso de modo particular nos homens e mulheres que pertencem a um grupo criminoso, seja ele qual for."

O Papa dirige-se directamente a essas pessoas: "Para vosso bem, peço-vos que mudeis de vida. (...) Não caiais na terrível cilada de pensar que a vida depende do dinheiro e que, à vista dele, tudo o mais se torna desprovido de valor e dignidade. Não passa de uma ilusão. Não levamos o dinheiro connosco para o além. O dinheiro não nos dá a verdadeira felicidade. A violência usada para acumular dinheiro que transuda sangue não nos torna poderosos nem imortais."

Desafio semelhante é dirigido pelo Papa a quem é fautor ou cúmplice de corrupção. "Esta praga putrefacta da sociedade é um pecado grave que brada aos céus, porque mina as próprias bases da vida pessoal e social", escreve Francisco.

O Papa lembra ainda que os mais fracos estão entre os que sofrem com este fenómeno: "A corrupção impede de olhar para o futuro com esperança, porque, com a sua prepotência e avidez, destrói os projectos dos fracos e esmaga os mais pobres. É um mal que se esconde nos gestos diários para se estender depois aos escândalos públicos."

É mesmo perante questões extremas como estas que o Papa quer uma Igreja que assuma "o anúncio jubiloso do perdão": "É o tempo de regresso ao essencial, para cuidar das fraquezas e dificuldades dos nossos irmãos. O perdão é uma força que ressuscita para nova vida e infunde a coragem para olhar o futuro com esperança."

Para o Papa, a inspiração bíblica do tema não deixa margem para dúvidas sobre o papel dos cristãos: "Levar uma palavra e um gesto de consolação aos pobres, anunciar a libertação a quantos são prisioneiros das novas escravidões da sociedade contemporânea, devolver a vista a quem já não consegue ver porque vive curvado sobre si mesmo, e restituir dignidade àqueles que dela se viram privados."

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