A revolução franciscana

Opinião: A encíclica do Papa, uma oportunidade perdida?

Opinião: A encíclica do Papa, uma oportunidade perdida?

A pergunta do título não se relaciona com os resultados da cimeira de Paris, mas com o reflexo que o documento do Papa Francisco, publicado em Junho último, pode vir a (não) ter no conjunto da Igreja Católica. Se é verdade que vários grupos católicos e outros protestantes, anglicanos e ortodoxos estão empenhados na causa ambiental, também é verdade que em muitos sectores do catolicismo a questão ambiental ainda está muito longe das preocupações.

Há pouco tempo, um alto responsável católico português dizia, num grupo de debate, que o seu receio é que a Igreja passe ao lado das preocupações do Papa. Percebe-se o temor: Francisco pensa e age de forma ágil, preocupa-se com as causas dos problemas e centra-se nos pobres e marginalizados. Para ele, como para os cientistas e para muitos sectores da sociedade, é evidente que os problemas ambientais estão já a provocar mais pobreza e mais conflitos violentos. Ou seja, o ambiente tem uma relação profunda com as questões da paz e do desenvolvimento.

O problema é que as questões que o Papa coloca exigem respostas rápidas - mesmo se ponderadas - e uma grande capacidade de autocrítica, bem como mudanças de hábitos, de modos de fazer, de maneiras de olhar a realidade.

Isso, como se sabe, é o mais difícil - para cada pessoa, para as empresas e para os estados. E, para alguns católicos, o Papa está bem enquanto fala de Deus, mas já não tem nada que falar de economia ou política. Era esse o comentário do norte-americano Jeb Bush, na sua reacção à publicação da encíclica. E, no "Diário de Notícias", o articulista espanhol Miguel Angel Belloso, que se apresentava como católico, manifestava uma grave ignorância sobre a doutrina tradicional da Igreja. Escrevia ele, comentando a encíclica, que "Francisco chega a ser ofensivo ao assegurar que a propriedade privada não pode estar acima do bem comum". Ora, a primazia do bem comum sobre a propriedade privada é uma verdade central da teologia cristã desde os primeiros séculos do cristianismo - a ponto de os teólogos dos primeiros séculos, os chamados "padres da Igreja", dizerem que quem rouba comida por necessidade não comete pecado.

O mais grave, no entanto, nem sequer são estes comentários críticos. O pior, mesmo, são aqueles que dizem que o Papa é extraordinário, que diz coisas fantásticas, que devemos aplaudir. Mas que, a seguir, defendem tudo ao contrário do que Francisco diz ou, simplesmente, preferem manter o que existe, sem pôr nada em causa. É esse cinismo que pode levar a que a encíclica passe e que pouco mude.

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