A revolução franciscana

Os sapatos do Papa contra o suicídio

Os sapatos do Papa contra o suicídio

Domingo passado, em Paris, um par de sapatos tornou-se num ícone, fotografado na Praça da República, no meio de milhares de outros, com a indicação do seu anterior proprietário: o Papa Francisco, que desse modo se associava à manifestação simbólica pelo clima, na véspera da abertura da cimeira das Nações Unidas dedicadas ao tema.

Os sapatos do Papa tornaram-se assim uma representação do que Francisco vem repetindo desde o início do pontificado: a urgência de guardar a criação - a expressão cristã para referir a natureza - e, com isso, garantir ao mesmo tempo um Mundo socialmente mais justo e mais pacífico.

Segunda-feira, regressando de Bangui (República Centro-Africana), última etapa da primeira viagem a África, o Papa referiu-se à cimeira de Paris como a oportunidade decisiva para reverter as consequências dramáticas das alterações climáticas. "É agora ou nunca mais!", disse o Papa. "Até hoje, fez-se pouca coisa e, cada ano que passa, os problemas são mais graves. Atingimos o limite! Estamos à beira de um suicídio - para usar uma palavra forte."

A insistência do Papa fundamenta-se também na inspiração franciscana do seu pontificado: o santo de Assis, referência para o nome adoptado pelo cardeal Jorge Bergoglio, quando foi eleito, era o homem da sobriedade, da paz e do cuidado com a criação, gosta de recordar o Papa.

Logo na missa de início do pontificado, a 19 de Março de 2013, Francisco insistiu na vocação de cada pessoa a ser "guardião da criação" e de cada um dos outros seres humanos, especialmente das crianças, dos idosos e dos mais frágeis. Dirigindo-se aos políticos, governantes, gestores e outros responsáveis, apelou mesmo: "Sejamos "guardiões" da criação, do desígnio de Deus inscrito na natureza, guardiões do outro, do ambiente."

Estes gritos iniciais do Papa continuaram nestes quase três anos de pontificado e culminaram com a encíclica "Laudato si" ("Louvado sejas"), de Junho passado. Nela, o Papa propõe duas ideias essenciais: a da "dívida ecológica" e a da "ecologia integral".

Sobre a primeira, explica Francisco que "há uma verdadeira "dívida ecológica", particularmente entre o Norte e o Sul, ligada a de-sequilíbrios comerciais com consequências no âmbito ecológico e com o uso desproporcionado dos recursos naturais efectuado historicamente por alguns países". No parágrafo 51 do texto, o Papa dá exemplos: "As exportações de algumas matérias-primas para satisfazer os mercados no Norte industrializado produziram danos locais, como, por exemplo, a contaminação com mercúrio na extracção mineira do ouro ou com o dióxido de enxofre na do cobre. (...) O aquecimento causado pelo enorme consumo de alguns países ricos tem repercussões nos lugares mais pobres da Terra, especialmente na África, onde o aumento da temperatura, juntamente com a seca, tem efeitos desastrosos no rendimento das culturas."

Francisco fala ainda da exportação de resíduos sólidos para os países mais pobres e da "actividade poluente de empresas que fazem nos países menos desenvolvidos aquilo que não podem fazer nos países que lhes dão o capital". A propósito, cita um texto de 2009 dos bispos da região argentina da Patagónia: "[As multinacionais] fazem aqui o que não lhes é permitido em países desenvolvidos ou do chamado Primeiro Mundo. Geralmente, quando cessam as suas actividades e se retiram, deixam grandes danos humanos e ambientais, como o desemprego, aldeias sem vida, esgotamento de algumas reservas naturais, desflorestamento, empobrecimento da agricultura e pecuária local, crateras, colinas devastadas, rios poluídos e qualquer obra social que já não se pode sustentar."

Esta relação tripartida entre os atentados ao ambiente, a pobreza e o desenvolvimento e o problema da paz é que está por trás da ideia da ecologia integral, inspirada em Francisco de Assis, em quem se notava "até que ponto são inseparáveis a preocupação pela natureza, a justiça para com os pobres, o empenhamento na sociedade e a paz interior". Ou seja, o que o Papa pretende é que cada pessoa assuma também o seu contributo pessoal na defesa do ambiente e no combate às alterações climáticas, bem como na construção de um mundo mais justo - e a encíclica aponta vários exemplos, desde a reciclagem à poupança de água, desde o direito ao trabalho para todos até ao direito à habitação.

Para o Papa, a revolução ecológica não se fará sem a justiça social e sem um Mundo mais pacífico.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

A revolução franciscana