A revolução franciscana

Pontificado em chave de mudança

Pontificado em chave de mudança

Mudança. A palavra atravessa, desde o início, os gestos, as decisões, os apelos, as homilias do Papa Francisco.

Desde o primeiro momento, pressentiu-se a mudança: o cardeal Jean-Louis Tauran chegou à varanda da Basílica de São Pedro, no início da noite de 13 de Março de 2013, e anunciou "habemus papam". Quando disse o nome escolhido pelo eleito, Francisco, percebeu--se que muito mudaria. Mudou logo nos instantes iniciais: as primeiras palavras dirigidas à multidão pelo até aí arcebispo de Buenos Aires foram um aparentemente banal "boa noite". Mas o que parecia normal trazia já o gérmen da novidade. O bispo e o povo caminham juntos, disse logo a seguir, inclinando-se para pedir a bênção dos milhares de pessoas que estavam na praça. Durante longos segundos, um silêncio esmagador tomou conta da multidão que pressentia o tempo novo. E, a partir daí, o Papa habituará as pessoas a um repetido pedido: "Rezem por mim..."

A mudança continuou pressentida e confirmada nos dias seguintes, nos gestos sucessivos: o novo Papa recusa ir viver no Palácio Apostólico, onde ficaria quase sozinho, preferindo um quarto de residencial numa casa onde se cruza a cada instante com padres, bispos, cardeais, funcionárias e funcionários; vai de carro pagar a conta da casa onde estivera alojado antes do conclave; pega no telefone e liga para pessoas que, do lado de lá, julgam ser uma brincadeira... Não se fica pelos gestos aparentes, essa mudança. E chega mesmo à tradição ou modo de fazer da Igreja: na primeira Quinta-Feira Santa, a cerimónia do lava-pés é celebrada numa prisão de Roma; o Papa lava os pés a 12 presos, incluindo duas mulheres, uma delas muçulmana. Há teólogos que reagem, dizendo que o gesto quebra a regra litúrgica dos 12 homens, simbolizando os 12 apóstolos de Jesus.

O Papa segue em frente, mostrando desde o início que para ele, antes ou acima da regra, estão as pessoas e o evangelho em que ele acredita.

A mudança chega ao topo da estrutura e Francisco cria um conselho de cardeais, uma espécie de mini-governo para o assessorar e pôr em marcha a reforma da Cúria Romana. Tinha sido esse um dos pedidos mais insistentes de um dos muitos cardeais, durante as reuniões preparatórias do conclave que o elegeria. Bergoglio não deixa escapar a oportunidade e, sobretudo, acha que as conversas devem ter consequências.

Acontece o mesmo com o Instituto das Obras da Religião, o chamado Banco do Vaticano. A pouca transparência da instituição no modo de gerir o dinheiro já trazia Bergoglio e outros cardeais muito insatisfeitos. O novo Papa quer mudanças também aí. Já esta semana surgiu a confirmação de que esta é mesmo a mudança desejada pelo Papa que se encontra mais avançada (ler texto ao lado).

Mudança é também o que Francisco propõe no campo da moral individual e familiar: para lá chegar, quer que a Igreja - bispos, cardeais, padres e leigos, grupos e paróquias, toda a gente - debata como devem ser olhadas novas e velhas realidades da vida familiar: divorciados, homossexualidade, famílias recompostas, famílias só com um progenitor, refugiados e migrantes, violência doméstica... Para iniciar o debate, faz com que o Vaticano promova um inquérito sobre todas essas questões. Chegam milhares de respostas de todo o mundo.

O processo culmina com duas assembleias de bispos. Fica-se a meio caminho: o Papa muda as regras da declaração de nulidade dos casamentos católicos e torna-a tendencialmente gratuita. Consegue que os bispos aceitem o debate de ideias e utilizem uma linguagem mais inclusiva e positiva; mas os divorciados terão de esperar por novas formas de integração e acolhimento na Igreja, a doutrina da contracepção é mantida, apesar de muita gente ter deixado o catolicismo por causa dela. Já para 2016, o documento que Francisco deverá publicar pode avançar mais propostas. De mudança, claro.

Influenciado pela realidade latino-americana, o Papa explica ainda a escolha do nome com o exemplo de São Francisco de Assis: "Ah, como eu queria uma Igreja pobre para os pobres!", exclama, três dias depois de eleito, perante os jornalistas do Mundo inteiro que estavam em Roma para acompanhar o conclave (ver JN de dia 4). É em nome desses pobres que Francisco passa a insistir na necessidade de mudar as estruturas económicas e financeiras, acabar com a lógica de uma economia que "mata", contrariar a globalização da indiferença e insistir em que o ambiente tem de ser preservado para que, mais uma vez, não sejam os mais pobres a sofrer. Mas essas serão talvez as mudanças mais difíceis de concretizar. Porque, aqui, o Papa apenas pode agir pela sua palavra.

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