O Jogo ao Vivo

A revolução franciscana

Um nome estranho, que Bergoglio entranha

Um nome estranho, que Bergoglio entranha

O nome é todo um programa: ao falar aos jornalistas, a 16 de Março de 2013, três dias depois de ter sido eleito, o novo Papa contou a história de como tinha escolhido o nome e exclamou: "Ah, como eu queria uma Igreja pobre para os pobres!"

Coisa estranha esta: o nome do mais popular santo em todo o mundo - Francisco - nunca tinha sido escolhido por um Papa. O primeiro a entranhá-lo acaba por ser Jorge Mario Bergoglio, de ascendência italiana mas nascido argentino.

Padre jesuíta, Bergoglio é membro de uma ordem com fama de se relacionar com o poder, por causa da sua dedicação à educação e ao aconselhamento espiritual. Mas que, nas últimas décadas, se notabilizou por um trabalho marcante no apoio aos refugiados, no empenhamento social de muitos dos seus membros, na reflexão teológica sobre a pobreza e o compromisso social dos cristãos.

Justificando a escolha do nome, Francisco demorou-se a explicar as três características que encontra no nome do santo de Assis: o homem da pobreza, sinónimo de simplicidade e sobriedade; o homem da paz; e o homem do cuidado com a criação - um tema no centro das preocupações mundiais e do próprio Papa.

Tais aspectos têm estado presentes no agir e no pensamento do Papa. Desde logo, em decisões que mostram que é possível o Papa dar o exemplo de uma vida mais sóbria: entre outros gestos, deixando os vastos salões do Palácio Apostólico e passando a viver numa residência mais funcional e moderna, menos rodeada pela riqueza histórica; ou passando a utilizar carros utilitários e pequenos nas suas deslocações.

A ideia tem merecido também uma grande insistência nos textos e pronunciamentos de Francisco: na exortação Evangelii gaudium (A alegria do Evangelho), de 24 de Novembro de 2013, o Papa escreve (número 48), que a acção missionária da Igreja deve "privilegiar" os pobres e os doentes, os desprezados e esquecidos. E, mais adiante (nº 198), repete que os pobres devem estar no centro da vida da Igreja. E reafirma: "Para a Igreja, a opção pelos pobres é mais uma categoria teológica que cultural, sociológica, política ou filosófica. Deus "manifesta a sua misericórdia antes de mais" a eles. Esta preferência divina tem consequências na vida de fé de todos os cristãos..."

Desde o início, tal orientação também esteve clara na forma de agir do Papa. Quando, por exemplo, logo na primeira celebração de Quinta-Feira Santa, foi a uma prisão romana fazer a cerimónia do lava-pés aos presos. No gesto, contrariando mesmo a tradição litúrgica católica, incluiu mulheres e muçulmanos.

O momento simbolicamente mais importante estaria reservado, no entanto, para o Mediterrâneo: o lugar escolhido pelo Papa para a sua primeira viagem fora do Vaticano foi uma ilha onde chegam diariamente muitos refugiados provenientes de África (agora substituída nas televisões pelas ilhas gregas e turcas, por causa dos refugiados sírios e do Médio Oriente): Lampedusa.

No altar da missa, os pescadores da ilha utilizaram restos de barcos destruídos. E, no curto discurso, o Papa falou da "globalização da indiferença" para com os que mais sofrem: "Habituamo-nos ao sofrimento do outro, não nos diz respeito, não nos interessa, não é responsabilidade nossa!" E acrescentou: "A cultura do bem-estar, que nos leva a pensar em nós mesmos, torna-nos insensíveis aos gritos dos outros, faz-nos viver como se fôssemos bolas de sabão: estas são bonitas mas não são nada, são pura ilusão do fútil, do provisório. Esta cultura do bem-estar leva à indiferença a respeito dos outros."

Já em Junho deste ano, na encíclica Laudato Si" (Louvado sejas), "sobre o cuidado da casa comum", o Papa ligava de novo os três aspectos - pobreza, paz e defesa da natureza - que referiu na escolha do seu nome, relacionando-os expressamente com o santo de Assis (nº 10): "Francisco é o exemplo por excelência do cuidado pelo que é frágil e por uma ecologia integral (...). Nele se nota até que ponto são inseparáveis a preocupação pela natureza, a justiça para com os pobres, o empenhamento na sociedade e a paz interior."

Segunda-feira passada, no voo de regresso da sua viagem a África, o Papa foi questionado sobre o preservativo. E não hesitou na resposta: "É a malnutrição, a exploração das pessoas, o trabalho escravo, a falta de água potável, esses é que são os problemas! Não falemos se se pode usar um ou outro penso-rápido para uma certa ferida, a grande ferida é a injustiça social".

Francisco é um Papa franciscano.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

A revolução franciscana