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Portugal islâmico. Uma comunidade sem sobressaltos

Portugal islâmico. Uma comunidade sem sobressaltos

As designações associadas a Antes e Depois de Cristo (AC/DC) marcaram a história, mas até agora ninguém definiu o equivalente para o ataque às Torres Gémeas em Nova Iorque há dez anos atrás. Mas já não há dúvidas: o mundo está diferente e Portugal não lhe passa ao lado.

Raff naquele dia não foi à Mesquita. Acabou o jejum sozinho, em casa, após um dia de trabalho como os outros. Não houve festa nem roupa nova, apenas a primeira oração da manhã.

Terça-feira, dia 30 de Agosto, foi um dia igual ao anterior, num restaurante da baixa lisboeta a servir os clientes, a quem não esconde que é muçulmano, mas onde adopta uma postura "ocidentalizada" porque "é assim que se sente bem". Quase não pratica o culto e considera-se o muçulmano mais português que existe.

Raff foi um dos muitos muçulmanos que assistiu ao 11 de Setembro de 2001 pela televisão e que faz parte da comuidade portugesa, com 40 a 50 mil muçulmanos. A poucos dias da data em que se assinala uma década sobre a destruição das Torres Gémeas em Nova Iorque, o sentimento entre os muçulmanos portugueses é comum: há um antes e um depois. Anteriormente, raramente os portugueses abordavam questões ligadas ao Islão ou aos islâmicos, hoje olham sobretudo para roupa ou para a barba de uma forma diferente. É inevitável, diz Yiossuf Admangy, editor da única revista islâmica - "Al Furqan" - em Portugal.

Todavia, salvo raras excepções, como a detenção de um radical islâmico no Porto em 2007, a comunidade islâmica em Portugal raramente aparece nas páginas dos jornais. Mas relativamente à imprensa paira no ar um sentimento de desconfiança, sobretudo de quem não está habituado a falar com jornalistas ou quem apenas vai espreitando as notícias no mundo que ligam o Islão ao terrorismo.

Dia de festa

Na Mesquita Central de Lisboa, o paquistanês Aarif transpirava alegria e não conseguia esconder algum alívio no primeiro dia a seguir ao jejum do Ramadão. O cigarro descontraído no canto da boca marcava o regresso à normalidade. Foram 30 dias sem comer, beber e fumar durante o dia, mas o hábito de um costume que pratica há mais de 15 anos já não lhe traz novidades.

Perto da Praça de Espanha, às 7.30 horas da manhã, poucos lisboetas se aperceberam das centenas de muçulmanos que encheram a Mesquita Central de Lisboa para celebrar o "Id ul Fitr", a festa que marca o fim do mês do Ramadão, do jejum que serve, segundo os crentes do Islão, "para recarregar as baterias espirituais".

Das cores berrantes dos guineenses ao azul claro, mais discreto, dos homens do Magreb, a mesquita encheu-se para ouvir o imã Sheikh David Munir na primeira oração da manhã. Um dos membros da comunidade mais conhecidos dentro e fora de portas.

Cá fora chegavam, apressados, os últimos, a correr a descalçar-se, junto a um amontoado de centenas de sapatos no pátio da mesquita, que pronunciavam uma sala completamente cheia.

A maior parte, eram portugueses dos países lusófonos, sobretudo de Moçambique e da Guiné-Bissau. Uma imagem que retrata a comunidade muçulmana portuguesa: a maior parte oriunda daqueles países de África, alguns de Angola e minorias vindas da Índia, Paquistão, Bangladesh e de alguns países do Magreb como o Senegal ou Marrocos.

Sem polémicas

As mulheres em trajes de festa, maquilhadas, com os cabelos arranjados, assistiam às orações numa sala própria, enquanto os homens, também com roupa festiva, na sala maior, ouviam atentamente as palavras do imã. Uma separação que acontece dentro das mesquitas e não tanto nas famílias. Em Portugal, a maior parte das mulheres trabalha, estuda e nem todas usam o tradicional véu - Hijab -, que tanta polémica tem levantado em países como a França, Bélgica ou a Espanha.

Por cá, o véu nunca chegou a ser notícia, nem mesmo quando dois agentes da PSP levaram uma muçulmana para a esquadra em Odivelas por se ter recusado a identificar. O caso ficou por ali, conta Yiossuf Admangy. Garante que "todos nos tratam bem, apesar de algumas excepções nos comentários na Internet no site da revista ou na página da Comunidade Islâmica.

Ainda há "muitos ignorantes e a prova disso é quando olham para os muçulmanos como imigrantes, quando na realidade, a maior parte são portugueses oriundos de ex-colónias de Portugal", refere.

A. 9/11 - D. 9/11

Já depois da primeira oração diária, no primeiro dia a seguir ao Ramadão, o imã da mesquita de Lisboa cumprimentou os crentes que vê todos os dias e aqueles que aparecem mais pelas ocasiões festivas. Por entre os inúmeros muçulmanos, o presidente executivo da PT, Zeinal Bava, e o presidente da comunidade islâmica e homem da banca, Abdool Vakil, também faziam parte da longa fila.

Tal como Abdool Vakil, o Sheikh David Munir nasceu em Moçambique e tem nacionalidade portuguesa. Estudou na Universidade de Carachi e em 1986, com 23 anos, deixou o Paquistão e é desde essa altura o imã da Mesquita Central de Lisboa.

Sobre o que mudou desde o 11 de Setembro, o líder da comunidade confessa que "o olhar é diferente nos países não islâmicos, apesar da integração em Portugal ser natural, uma vez que a maioria provém das ex-colónias portuguesas". Já no resto da Europa, sustenta, "é diferente". Por exemplo, em França, os muçulmanos são de Marrocos, da Argélia e da Tunísia, tudo ex-colónias "onde os franceses não ficaram, não se integraram, ao contrário dos portugueses". Portugal, refere, "estava lá, conviviam, era uma sociedade conjunta, mista".

Discriminação

Todavia, David Munir admite que desde aquela data em 2001 que os muçulmanos passaram a estar confrontados com alguma discriminação, anteriormente dirigida ao povo cigano ou aos africanos. Inconscientemente para alguns, acrescenta, "mulher que usa lenço ou homem que usa barba, podem ser conotados com terrorismo".

Uma questão que parece ser assumida por todos os líderes religiosos é que, desde o ataque aos Estados Unidos, houve um maior interesse em conhecer o Islão e, por isso, há cada vez mais convertidos, inclusivamente portugueses.

Para David Munir, enquanto o 11 de Setembro foi longe, os atentados de 11 de Março de 2004 em Madrid e 7 de Julho de 2005 em Londres, "foram muito mais próximos de nós", o que também levou as mesquitas em Portugal a tentar melhorar a sua imagem. Por exemplo, exemplifica, "o líder budista Dalai Lama visitou a mesquita de Lisboa e referiu-a como exemplar".

O teólogo conclui que "a preocupação com a segurança é de todos, por isso as autoridades conhecem-nos, visitam-nos e sabem que somos pessoas de bem".

Diálogo

Yiossuf Admangy, o imã Sheikh David Munir ou outros líderes da comunidade estão sempre à disponíveis para os jornalistas ou para quem estiver interessado em saber mais sobre o Islão. O editor confirma que há "mais segurança quando há encontros de missionários, por exemplo do movimento Tabligh Jammat", mas continua, diz, a haver "muita ignorância". O editor também refere que há mais portugueses a abraçar o Islão e justifica as conversões pelo facto da sociedade ocidental "estar podre, entre roubos, violações e adultérios". O número de convertidos aumentou, comenta Yiossuf Admangy, porque "as pessoas começaram a interessar-se pelo Islão e os próprios muçulmanos, que se perguntaram se estavam correctos ou não, aprenderam mais sobre o Islão até para responderem a questões que lhes eram colocadas", refere.

Uma prática que conhece bem desde 1981, altura em que registou a revista "Al Furqan", também dedicada a esclarecer muçulmanos e não só. No que diz respeito aos costumes, Admangy sabe que os horários das orações e algumas práticas não são fáceis de conciliar com as horas de trabalho. Mas há formas de as contornar, fora das horas habituais.

O desconhecido

Além da Mesquita Central, a Aicha Siddika em Odivelas, e a do Laranjeiro, em Almada, são aquelas que reúnem mais fiéis, mas menos conhecidas do público. Em Odivelas, a marcação para contactar o imã obedece a uma autorização do conselho que superintende a mesquita, enquanto no Laranjeiro, palco de algumas suspeitas de discursos mais radicais, é costume disponibilizar-se para responder a perguntas, a não ser com marcações prévias.

O editor da "Al Furqan", Yiossuf Admangy, explica que há diferenças: "Enquanto a mesquita de Lisboa é mais moderada, a mesquita do Laranjeiro é mais rigorosa, mais tradicional".

Apesar da indisponibilidade para conversar com os responsáveis, a metros da mesquita do Laranjeiro, sentado num jardim, à sombra, o guineense Alasi Mamadu Lamine Fode Soare, ainda em pleno jejum, não se furtou a nenhuma questão. Homem alto, com 52 anos, nas suas vestes compridas azuis claras bordadas a ouro, com a cabeça coberta a condizer, explicava calmamente que "ninguém sabe quem fez o 11 de Setembro e os muçulmanos também não". Recusa a ideia de terrorismo associada ao Islão e diz, entre um sorriso calmo e um olhar demorado no horizonte, que "os terroristas não são muçulmanos". Na sua comunidade, que contabiliza como a segunda maior depois da de Lisboa, Alasi garante que "não tem nenhum problema com fenómenos de discriminação". Refere que naquele lugar "há muitos portugueses convertidos, paquistaneses, moçambicanos e guineenses como ele". Despediu-se com uma frase: "O Islão é paz".

Porto a crescer

No geral, o editor da "Al Furqan" tem a sensação que a comunidade islâmica em Portugal está bem integrada, apesar de haver diferenças nessa mesma adaptação. No Porto, conclui, "com mais árabes, o percurso pode ser um tanto diferente".

Ainda assim, os muçulmanos dizem-se perfeitamente integrados em Portugal, sem sofrerem na pele a discriminação de outros países. Apesar da maioria não gostar de falar sobre assuntos como o fanatismo ou radicalismo, o presidente do Centro Cultural Islâmico do Porto, Abdul Rehman Mangá, não se surpreende com as abordagens ao assunto.

Para o antigo imã do Porto, o 11 de Setembro, "apesar de não ter tido a ver com a religião em si, marcou-nos e mudou-nos". Garante que "há mais diálogo com a sociedade civil, obrigou-nos a ter mais contactos, mais pessoas que queriam saber mais sobre o Islão". E muitos "acabaram por se converter", recorda.

Um mal que trouxe algum bem, confessa Abdul Rehman Mangá, porque "veio trazer a verdadeira informação sobre o Islão". Não se incomoda com a discriminação até porque considera "natural que exista alguma discriminação para com todos os que são diferentes". Há um ou outro caso menos agradável, mas garante que "são raros".

Os muçulmanos portuenses começaram com meia dúzia de famílias. Nos anos 90 eram pouco mais de 500, e a 7 de Janeiro de 1999 fundaram a comunidade. Mas a falta de emprego em Lisboa, levou a que se estabelecessem na "Invicta" mais imigrantes, sobretudo árabes, e hoje rondam os cinco mil.

No Porto a maior comunidade de muçulmanos é da Guiné-Bissau seguida do Bangladesh, Senegal, Tunísia e Argélia.

Abdul Rehman Mangá não tem dúvidas em considerar que "estão bem integrados, apesar do factor língua ser complicado". Enquanto que "os mais velhos têm mais dificuldade, com as suas culturas diferentes, os mais novos integram-se "num ápice".

A prisão mais importante em Portugal

Abdul Rehman Mangá é o líder de uma comunidade onde em Agosto de 2007 o argelino Samir Boussaha foi alvo de um mandado de detenção emitido pelas autoridades italianas. Samir foi extraditado para Itália onde era suspeito de pertencer a uma rede que recrutava terroristas para o Iraque e Afeganistão.

Hoje, garante que "contactam regularmente com as autoridades até pela segurança da própria comunidade".

Relativamente a um movimento que deu que falar em Lisboa, os Tabligh Jammat - cuja tradução literal é "grupo de pregadores" - , considerados mais conservadores, Abdul Rehman desdramatiza e considera que o receio é injusto, uma vez que os membros do Tabligh "são pacifistas e apenas mais conservadores, ligados ao Paquistão, à Índia e ao Magreb". Nunca viu, esclarece, nem ouviu "os Tabligh falarem de política".

No que diz respeito a discursos mais radicais, o líder da comunidade islâmica do Porto dá o exemplo da solidariedade entre povos "que levam mais a sério". Uns, sustenta, "são mais radicais, por exemplo, porque não aceitam assistir ao sofrimento do povo da Palestina".

Tabligh em destaque

Em Lisboa, foram os Tabligh Jammat que preocuparam as autoridades e que estão sob vigilância das autoridades francesas, britânicas e norte-americanas. Um dos líderes desse movimento, Ismael Lumat, frequenta a mesquita de Odivelas e foi investigado pelos Serviços de Informação de Segurança (SIS), assim como o director do Colégio Islâmico de Palmela, Xeque Rizwan Daud Ismael.

Além dos cargos que ocupam na comunidade, Rizwan Daud Ismael e Ismael Lunat são apontados, respectivamente, como líder espiritual e operacional do Tabligh Jamaat em Portugal.

Também Yiossuf Admangy considera o movimento Tabligh pacifista e mais tradicional. Confirma que vários elementos daquele movimento de missionários de vários países costumam reunir-se em Portugal, entre Maio e Junho, mas não pode garantir que são todos boas pessoas, até porque não podem conhecer todos. Muitos vêm das mesquitas na Índia passam por Portugal, às vezes na Mesquita Central, outras vezes no Laranjeiro ou Odivelas.

Sunitas Hanafitas

Para um estudioso da teologia islâmica, que pediu para não ser identificado, uma vez que tem um cargo importante na comunidade, Portugal não difere muito do resto do mundo no que diz respeito às ramificações do Islão. Há cerca de 80% de Sunitas, 15% a 18% de Xiiatas, e cerca de 2% de Wahabitas, uma facção mais radical, que predomina na Arábia Saudita e de onde surgem a maioria dos terroristas. Uma opinião que não é partilhada pelo editor da "Al Furqan" e pelo líder da comunidade portuense. Ambos consideram os Wahabitas mais rigorosos e ortodoxos.

Em Portugal, garante o estudioso, há pouco mais de meia centena de Wahabitas, todos sem tendências extremistas. Divisões à parte, o teólogo explica que todos os estudiosos do Islão e, mesmo os não muçulmanos, são unânimes em considerarem que o cerne da religião é o mesmo.

Em Portugal, acrescenta, 90% dos 40 a 50 mil muçulmanos são sunitas hanafitas.