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Funeral de Mandela realiza-se dia 15

Funeral de Mandela realiza-se dia 15

Os sul-africanos estão a reagir à morte de Nelson Mandela com perfeita normalidade. "Estão de mãos dadas a assistir à partida do seu líder", disse um empresário português na África do Sul. O funeral do líder anti-apartheid será realizado no domingo, dia 15, anunciou, entretanto, o presidente sul-africano.

Antes do funeral, no dia 10, terá lugar uma cerimónia nacional de homenagem ao antigo presidente no estádio do Soweto. Cinco dias mais tarde, o funeral decorre na aldeia natal de Mandela, Qunu, anunciou esta sexta-feira o presidnete Jacob Zuma.

Entre os dias 11 e 13 de dezembro, o corpo de Nelson Mandela estará exposto na sede da Presidência, em Pretória. Durante toda a próxima semana decorre uma "semana nacional de luto", cujo início, marcado para domingo, é assinalado por um "dia nacional de oração e de reflexão".

A África do Sul prepara-se já para receber os chefes de estado de todo o Mundo para as cerimónias fúnebres de Nelson Mandela.

"É um dia perfeitamente normal aqui na Cidade do Cabo, não há manifestações, as pessoas falam sobre o assunto (morte de Mandela), claro, mas essencialmente estão de mãos dadas a assistir à partida do seu líder", disse o empresário português na Áfrical do Sul Joaquim Sá, alientando que "devido à doença prolongada, o acontecimento de ontem (quinta-feira) era algo já esperado" e, por isso, "as pessoas sentem muito orgulho, muita admiração por Mandela, uma figura mundial, por ter feito parte da mudança na África do Sul e de elas terem assistido a isso".

Também a presidente da Comissão da União Africana, Nkosazana Dlamini Zuma, disse que "África está desolada" com a morte do líder histórico Nelson Mandela, um "herói panafricano".

Em nome da União Africana (UA) e do resto do continente, a sul-africana Dlamini Zuma expressou pesar pela morte aquele que considera ser "um ícone panafricano".

Madiba - nome do clã de Mandela e pelo qual é conhecido carinhosamente na África do Sul - "simboliza o espírito do panafricanismo e a solidariedade na luta de humanidade contra o "apartheid", a opressão e o colonialismo", disse Dlamini Zuma.

Antes de ser preso em 1963, por 27 anos, visitou diversos países africanos que deram um "apoio decidido" à luta do povo sul-africano, lembrou.

"A sua morte é uma grande perda para a família, para o nosso continente e a própria humanidade", disse. "Neste triste momento de dor, os nossos corações e pensamentos estão com a viúva, Graça Machel, a ex-mulher Winnie Madikizela-Mandela, filhos, netos e bisnetos e os povos da África do Sul e África", acrescentou.

A morte de Nelson Mandela foi anunciada pelo atual presidente da África do Sul, Jacbo Zuma, numa declaração transmitida pela televisão, quando eram 21.45 horas de quinta-feira em Portugal continental.

"Caros cidadãos sul-africanos, o nosso amado Nelson Rohlihla Mandela, o presidente fundador da nossa democrática nação, partiu", declarou Jacob Zuma. "Ele faleceu em paz no conforto da sua casa", acrescentou, garantindo que o primeiro presidente negro da África do Sul terá um funeral de Estado e ordenou que as bandeiras sejam colocadas a meia-haste em sinal de luto.

Um plano interno de atuação após a morte de Mandela revelado pela imprensa há meses dava conta de um cerimonial de 12 dias. Pelo menos três dias de luto deverão ser reservados à família de Mandela, casado com a moçambicana Graça Machel.

Depois de ter estado quase três décadas na prisão, Nelson Mandela - ou Madiba, o nome tribal pelo qual era conhecido no seu país - tinha já 71 anos quando foi libertado.

Era então o preso político mais famoso do Mundo e tornava-se, conforme então se disse, a Grande Esperança Negra da África do Sul. Todavia, apesar de ter um nome conhecido mundialmente, só um reduzido número de pessoas - companheiros de prisão, a segunda mulher (Winnie) e um punhado de amigos leais - sabia muito mais do que isso.

Aliás, ao conceder a liberdade a Mandela, o último presidente branco da África do Sul, Frederik W. de Klerk - que contribuiu para o derrube do regime de "apartheid" (política feroz de segregação racial do país) - limitou-se a dizer com algum embaraço: "É um homem de idade, um homem digno e um homem cativante".

Narrando e comentando esse momento histórico, a revista norte-americana "Newsweek" recordava então que, ao lado do presidente sul-africano, estava o líder negro, com o cabelo grisalho e o rosto profundamente sulcado pelas rugas. Depois de ouvir as palavras do presidente, Mandela esboçou um sorriso como se dissesse a F. W. de Klerk: "Vamos agora ver quem manda".

Mandela sabia que a sua luta não tinha terminado. As leis do "apartheid" continuavam a sonegar aos negros o direito ao voto, ao acesso à qualidade da educação, à habitação, ao trabalho, às praias, aos parques, aos hotéis, aos restaurantes e aos locais públicos, que os brancos reservavam zelosamente - e frequentemente de forma brutal - apenas para eles próprios.

O país, destroçado também pelos confrontos entre negros de dois partidos políticos, estava à beira do caos. Mandela, apesar de desconfiar que esse conflito era estimulado por F. W. de Klerk e pelo regime de minoria branca, também estava ciente de que era seu dever conseguir, simultaneamente, convencer os seus sequazes de que não tinha renunciado aos ideais políticos, e provar aos puros e duros do regime, sobretudo os militares, que não corriam perigo de represálias.

Em 1985, quando o antigo presidente sul-africano Pieter W. Botha se propusera negociar com ele a liberdade condicional, Nelson Mandela rejeitou a oferta com a célebre mensagem ao seu povo: "Não posso vender o meu direito de nascimento. Só homens livres podem negociar (...)".

Cinco anos depois, ao lado de F. W. de Klerk, ele era um homem livre, pronto a negociar. E, em 1993, partilhava já com o presidente sul-africano o Prémio Nobel da Paz, pelos esforços desenvolvidos no sentido de se pôr termo ao regime de segregação racial, e por se terem estabelecido as bases de uma nova África do Sul democrática.

Depois, em 10 de Maio do ano seguinte, Nelson Mandela tornou-se ele próprio presidente da África do Sul, naquelas que foram as primeira eleições multirraciais do país. Terminado o mandato presidencial, em 1999, Mandela decidiu abraçar várias causa sociais e de defesa de direitos humanos.

Cinco anos mais tarde, ao completar 85 anos, o homem que foi cognominado a Esperança Negra da África do Sul anunciou formalmente que se retiraria da vida pública - na verdade, continuou sempre presente -, e o seu estatuto de ex-prisioneiro político, o prestígio da sua vida cívica exemplar e a enorme dimensão da sua luta épica pela defesa dos direitos humanos mantiveram-no em guarda como uma das consciências morais do Mundo.

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