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Um homem simples mas exigente

Um homem simples mas exigente

Quando Nelson Mandela foi eleito presidente da República da África do Sul, em 1994 - tinha então 75 anos -, surpreendeu aqueles que o rodeavam pela sua maneira usual de ser. Não fumava, não ingeria bebidas alcoólicas, não comia manteiga, ovos ou o que quer que pudesse agravar a sua elevada pressão arterial.

Mantendo o hábito da prisão, levantava-se todos os dias às 4.30 horas. Com o decorrer do tempo, passou a despertar às 5 horas. Da mesma forma, substituiu o jogging matinal diário pela bicicleta estática. Tomava um frugal pequeno-almoço - frutos frescos ou flocos de aveia com leite morno -, antes de começar a trabalhar às 6.30 horas. Nos tempos de repouso ou descanso, distraía-se a ver desporto, sobretudo boxe, na televisão, ou a ler biografias. Trabalhava geralmente até à 1 ou 2 horas da madrugada.

"Foi sempre muito pontual. Detesta fazer perder tempo aos outros. É seguramente a única coisa que verdadeiramente o aborrece: chegar tarde a uma reunião ou qualquer desonestidade", recordava em vésperas do seu 90º. aniversário Zelda La Grange, a mulher que se tornou ao longo de mais de uma década secretária particular, chefe de gabinete, companheira de viagem, confidente e neta honorária de Nelson Mandela, desde o dia em que começou a trabalhar como anónima dactilógrafa no gabinete presidencial em 1994.

"Ele começava as reuniões e a receber pessoas às 8.30 horas, ia almoçar a casa e, no período da tarde, prosseguia as reuniões e as audiências ou fazia deslocações pontuais. Realizava 12 a 13 grandes viagens internacionais por ano, mesmo quando estava à beira dos 85 anos. "A comida tinha que ser simples, como aquela que fazemos em casa: alimentos cozinhados, fruta, coisas sãs. E como nem sempre é fácil conseguir-se comida simples num hotel de cinco ou seis estrelas, nós passámos a sentir a falta, nas viagens, da comida feita por Xoliswa, o seu cozinheiro Xhosa de longa data".

La Grange, de 37 anos, é uma mulher afrikaans, filha de um antigo executivo e de uma professora, que votavam no Partido Nacional, a formação política da minoria branca que inventou o "apartheid". Zelda, emergiu do anonimato da classe média colonial (e cegamente inconsciente do regime de segregação racial) para vir a ganhar o afecto e a confiança do homem que, tendo um dia sido o mais temido inimigo da sua família e da "tribo" branca, converteu-se depois na mais prestigiada personalidade política da transição dos séculos XX e XXI.

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