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Construções em Portugal deveriam resistir como as japonesas

Construções em Portugal deveriam resistir como as japonesas

Tivesse Portugal sido atingido por um sismo de magnitude idêntica ao ocorrido, esta sexta-feira, no Japão, e, muito provavelmente, as consequências teriam sido bem mais desastrosas. Quem assim pensa é Raimundo Delgado, professor catedrático da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, especialista em engenharia sísmica.

Há explicações para um sismo de tamanha magnitude no Japão?

Sim, o país está situado numa falha tectónica com uma actividade sísmica intensa. Por isso, os japoneses já estão habituados aos sismos. No início do século 20, começaram os primeiros estudos de engenharia sísmica e verificou-se que aquela região tem, de facto, uma grande actividade. É claro que sismos como este, de magnitude tão elevada, não são muito comuns.

Diz-se que os edifícios no Japão estão preparados para resistir a abalos desta natureza. É verdade?

Bom, no início do século passado, as construções começaram a ser feitas de forma a resistir aos sismos, mas é preciso ver que tudo se passava, ainda, de uma forma muito rudimentar. Só nas décadas de 60 e 70 é que se estabeleceram as formas de conceber as construções. Anteriormente, era tudo ainda muito básico.

Quer isso dizer que os edifícios anteriores a essas décadas podem não resistir?

Sim, antes não sabíamos medir o que se passava na crustra terrestre aquando de um sismo. Foi então que surgiram os primeiros estudos com base rigorosa. O surgimento dos computadores nas décadas de 50 e 60 vieram permitir sedimentar toda a informação aportada pelos estudos científicos, que passaram a ser levados em conta nas construções.

Em Portugal, há alguma possibilidade de vir a se registar um sismo tão forte?

Sim, claro. Aliás, acredita-se que o sismo de 1755 terá tido uma magnitude da mesma ordem do que se registou hoje no Japão.

E as consequências, seriam as mesmas?

Provavelmente, seriam mais graves. O Japão tem sismos com mais regularidade e estão preparados para pensar e responder a estas questões. Têm uma forma mais organizada para lidar nestas situações. Repare que o sismo acontece e eles pegam logo no kit de sobrevivência e sabem todos muito bem o que têm de fazer, já estão preparados.

E as nossas construções, resistiriam a um abalo tão forte?

Bom, as nossas construções também não têm razão para não se comportarem bem se os projectos forem realizados de acordo com os regulamentos.

Mas desde quando as construções estão preparadas?

Desde a década de 80. No regulamento datado de meados da década de 60, já havia prescrições para as construções, muito embora a zona Norte não fosse considerada, devido à fraca actividade sísmica na região. Só com o regulamento de 1984 é que se passou a incluir, para todo o Portugal, os modernos processos de dimensionamento sísmico. Então, a partir dessa data, não há razão para que as construções não resistam da mesma forma que resistem no Japão. A filosofia de dimensionamento é a mesma.

Pela sua resposta, deduzo que há alguma desconfiança que tal esteja a acontecer...

Não temos grandes mecanismos de certificação de projectos, que ficam apenas assentes na responsabilidade do projectista, mas nenhuma entidade verifica se os projectos cumprem ou não com o regulamento. Em relação à resistência sísmica, os projectos têm de ser verificados, nem que seja aleatoriamente.

E não é suposto haver fiscalização?

Não tenho a certeza de que haja uma fiscalização adequada por parte dos donos das obras e das entidades públicas no sentido de verificar se os projectos correspondem aos que foram entregues nas câmaras. Hoje, há maior preocupação por parte das empresas construtoras em fazer as coisas bem feitas. Quanto aos projectos, já não tenho tanto a certeza. Os projectos são feitos com base em cálculo automático e os projectistas podem não estar a dominar alguns aspectos no contexto da sismicidade.

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