Coronavírus

E vai mais outro. Detido ativista que criticou o poder chinês

E vai mais outro. Detido ativista que criticou o poder chinês

Um ativista e professor de Direito chinês que fez duras críticas ao sistema político da China e à forma como Pequim geriu o surto do coronavírus foi detido.

Xu Zhiyong, antigo professor de Direito na Universidade Qinghua, uma das mais prestigiadas do país, mas afastado após criticar abertamente o presidente chinês, Xi Jinping, foi preso no sábado, revelou a Amnistia Internacional. Segundo a organização de defesa dos Direitos Humanos, o ativista, que esteve preso entre 2014 e 2017, viveu nos últimos dois meses em sítios diferentes, para evitar ser detido, depois de ter organizado uma reunião entre apoiantes de reformas democráticas, em Xiamen, na costa leste do país, em final de dezembro.

Depois de o surto do novo coronavírus se ter alastrado pelo país, Xu Zhiyong escreveu um ensaio, intitulado "Alerta Viral: Quando a Fúria Ultrapassa o Medo", no qual argumentava que a obsessão do regime com a estabilidade e a centralização do poder em torno de Xi Jinping estavam a paralisar e incapacitar a burocracia do país, impedindo uma resposta rápida e eficaz ao vírus. "Nada - nem a liberdade, dignidade ou felicidade do povo chinês - é mais importante do que manter a estabilidade", acusou.

No mesmo ensaio, publicado online no início de fevereiro, Xu disse que, devido à ausência de liberdade de expressão e de um sistema burocrático moderno, o líder chinês "não tem restrições" e a Comissão de Segurança Nacional, que foi estabelecida por Xi, "domina com punho de ferro cada camada da burocracia", que responde ao seu superior "até atingir, no topo, A Única Pessoa Responsável". "No entanto, esse indivíduo é apenas um homem de carne e osso que não pode estar presente em todos os aspetos da governação", resumiu, apelando à demissão de Xi Jinping.

"A guerra do Governo chinês contra o coronavírus não o desviou da sua ofensiva generalizada contra vozes dissidentes", considerou a Amnistia Internacional.

Outros casos

O desaparecimento de Xu surge numa altura de indignação pela morte de Li Wenliang, o médico que alertou inicialmente para o novo coronavírus mas que foi repreendido pela Polícia, que o obrigou a assinar um documento no qual admitia que lançara um boato "infundado e ilegal". Pang Kun, outro advogado e defensor dos direitos dos trabalhadores, foi também detido na semana passada e, entretanto, libertado, depois de as autoridades o acusarem de "provocar confusão". Dois jornalistas independentes que estavam em Wuhan, epicentro do novo coronavírus, também desapareceram nas últimas duas semanas, e mais de 350 pessoas em todo o país foram punidas por "espalhar boatos", segundo o balanço da organização de defesa dos Direitos Humanos "Chinese Human Defensors".

As autoridades chinesas têm ainda restringido o acesso à Internet. O serviço VPN - mecanismo que permite aceder à rede através de um servidor localizado fora da China -, usado para contornar a censura na rede chinesa, foi alvo de ataques, tornando mais difícil o acesso a sites estrangeiros bloqueados no país, incluindo Google e Twitter, ou a órgãos de imprensa estrangeiros.

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