EUA

Edward Gallagher, o Navy Seal julgado por crimes de guerra que Trump enaltece

Edward Gallagher, o Navy Seal julgado por crimes de guerra que Trump enaltece

"O tipo é completamente tarado", "o tipo era tóxico". Sem nuances, estas são apenas duas das frases que descrevem Edward (Eddie para os próximos, "Blade" ou lâmina, para os homens do pelotão) Gallagher, o chefe de operações especiais dos seals da marinha norte-americana que foi julgado por crimes de guerra no Iraque, absolvido deles, mas condenado por pousar para fotos ao lado de iraquianos mortos e, por isso, despromovido, mas salvo por um espécie indulto do presidente que reverteu o castigo militar. É "o diabo".

A polémica da clemência presidencial foi tal que até as hierarquias militares se enfureceram. Ao ponto de o secretário da Marinha dos EUA, espécie de secretário de Estado para o ramo que chegou a estar interinamente incumbido da pasta da Defesa, Richard V. Spencer, ser saneado. Spencer pedira a Donald Trump para não se meter no assunto, depois de o presidente lhe fazer sucessivos pedidos envolvendo Gallagher. Até que foi instado a reverter a despromoção do seal e a devolver-lhe as insígnias, para este se poder retirar da marinha com pensão calculada com base em salário de elite. "Foi uma prova de que o presidente tem muito pouco conhecimento do que é estar nas forças armadas, combater com ética ou ser governado por um conjunto de regras e práticas", escreveu recentemente. Spencer foi afastado porque se dirigiu à Casa Branca sem passar pelo superior, o secretário da Defesa, Mark Epser.

"Blade", o "psicopata"

As descrições são de veteranos que partilharam com Gallagher a missão em Mosul em 2017 e foram recolhidas no âmbito de uma investigação interna a cargo do Serviço de Investigação Criminal da Marinha (NCIS, na sigla em inglês), obtidos pelo "The New York Times". Investigação que arrancou depois de os companheiros de "Blade" terem ousado dar conta do desconforto com a atuação do seu chefe e serem instados a manter o silêncio. E são estarrecedores.

"O tipo foi ficando cada vez mais louco", "Andava por lá com a faca", "É um psicopata", "Não podem deixar isto continuar". Alguns não conseguem travar as lágrimas. Pedem desculpa. Por chorar. Por falar. O silêncio é a alma dos seals, o corpo de comandos mais especiais do exército norte-americano, preparados para atuar em mar, ar e terra (sea, air, land).

A fotografia que despromoveu "Blade" foi tirada junto do corpo inerte de um jiadista adolescente do Estado Islâmico, que tinha morto com as próprias mãos com uma faca de caça depois de sedá-lo e de lhe fazer uma traqueostomia para que pudesse respirar. Antes, tinha dito: "Ninguém lhe toca. É meu". Contam os soldados. Gallagher enviou-a por email a um amigo nos EUA, legendando: "Boa história por detrás disto, fi-lo com a minha faca de caça".

Dizem ainda que atirava a matar desde os esconderijos. Matou uma menina de "uns 12 anos". Matou um idoso. "Via-se que estava perfeitamente à vontade para atirar contra qualquer pessoa que mexesse". Ele diz que é tudo mentira e que os delatores o acusaram por terem medo que se descobrisse que foram uns cobardes no terreno.

Este é homem que o 45.º presidente dos Estados Unidos indultou, o "grande combatente" que defendeu contra "o estado profundo" (a hierarquia militar) e que convidou há dias ao seu retiro de férias de Mar-a-Lago, na Florida.

Pedidos presidenciais

Edward Gallagher, 40 anos, foi condenado a quatro meses pelo tribunal de San Diego por tirar uma fotografia com um jiadista morto. Já os cumprira à espera do julgamento, pelo que saiu em liberdade. Perdeu a insígnia (Trident) e o posto de chefe. Recuperou-os por ordem do presidente, Donald Trump, para se poder retirar da Marinha em glória.

Acusações anteriores

Já em 2010, Gallagher fora acusado atirado através de uma menina afegã para atingir o homem que a carregava. Não ficou provado.

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