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Eleições para testar a saturação de uma Espanha fragmentada

Eleições para testar a saturação de uma Espanha fragmentada

Quarto escrutínio em quatro anos tenta resolver impasse político. PSOE deverá vencer, mas terá, de novo, dificuldade em governar.

Os eleitores espanhóis votam hoje pela quarta vez em quatro anos, com um cenário ainda mais incerto do que nas eleições gerais de abril, cujo resultado não permitiu a formação de Governo, obrigando à repetição da votação. Finda a campanha eleitoral - a segunda neste ano -, mantém-se a sombra do bloqueio político que se arrasta em Espanha desde 2015. Aos 30% de indecisos junta-se uma elevada volatilidade agravada pelas imagens dos protestos - que se repetiram ontem em Barcelona - ocorridos na Catalunha após a publicação da sentença dos presos independentistas.

Trata-se de "um fenómeno invulgar que pode alterar muito a correlação de forças", explica, ao JN, Paz Álvarez, diretora da empresa de sondagens espanhola Key Data. Além disso, há muitas pessoas "predispostas a mudar o sentido de voto na reta final", nota a analista, sobretudo, dentro dos "novos partidos, que ainda não têm uma fidelidade de eleitores muito forte".

Todas as sondagens coincidem em apontar para um equilíbrio entre os blocos da esquerda e da direita, embora atribuindo a vitória ao PSOE, com 27%. No entanto, no seu conjunto, os partidos de Esquerda deverão ver-se penalizados devido ao "desânimo do eleitorado com o fracasso nas negociações para a formação de Governo", assinala a analista.

Por outro lado, a entrada em cena do partido de Íñigo Errejón (Más País) também contribui para as descidas de PSOE e Unidas Podemos. Apesar de as sondagens darem um resultado pouco expressivo à formação liderada pelo ex-número dois do Podemos (4%), "percebe-se uma transferência de votos tanto do PSOE como do Podemos para o novo partido".

Direita em mutação

Mas a principal recomposição deverá acontecer na Direita, com as sondagens a atribuírem um importante crescimento ao Partido Popular (PP, 21%) e, em especial, à formação de extrema-direita Vox. "O momento é bom para o Vox, porque tem um discurso muito claro sobre a Catalunha, que agrada a um certo tipo de votantes", observa Paz Álvarez.

No entanto, a especialista não acredita que o partido de Santiago Abascal chegue aos 15% que lhe atribuem algumas sondagens. "Penso que está sobrevalorizado porque é um voto que está exacerbado, tem um tipo de eleitor com muita vontade de se afirmar".

Em sentido inverso, encontra-se o Ciudadanos, que poderá cair dos 16% colhidos em abril para os 9%. "As pessoas tinham uma expectativa" em relação ao partido de Albert Rivera que "não se materializou" explica a analista. Com um votante "muito crítico" e "pouco fiel", a formação será "penalizada pela ambiguidade de se apresentar como fiel da balança e, ao mesmo tempo, lutar para liderar a direita". Ainda assim, seria uma surpresa se o partido ficasse pelos 15 deputados: "Há muitos indecisos que no final poderão acabar por voltar a confiar no Ciudadanos".

No que diz respeito a cenários pós-eleitorais, a "união de PSOE e Podemos será mais difícil porque se prevê que tenham um pior resultado do que em abril e vão precisar do apoio de grupos independentistas", observa.

Assim, para evitar umas terceiras eleições, PSOE e PP poderão acabar por invocar a situação de emergência para estabelecer "um pacto de legislatura" que permita aos socialistas governar em minoria, aponta Paz Álvarez.