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Elite comunista chinesa esconde empresas em paraísos fiscais

Elite comunista chinesa esconde empresas em paraísos fiscais

Um investigação publicada esta quarta-feira por vários jornais ocidentais mostra que a elite comunista da China, entre eles familiares de personalidades de topo do regime, usa empresas registadas em paraísos fiscais para esconder dinheiro.

Os documentos, resultantes de uma investigação do Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (CIJI) e publicados por jornais como o "The Guardian", o "Le Monde" ou o "El País", entre outros, mostram que pelo menos 13 parentes de dirigentes máximos do regime, incluindo do atual presidente Xi Jinping e dos ex-primeiros-ministros Wen Jiabao e Li Peng, têm grande atividade em sociedades "offshore", nomeadamente nas Ilhas Virgens Britânicas. Também 15 das maiores empresas privadas e estatais enviaram dinheiro para paraísos fiscais.

A investigação mostra também que bancos ocidentais tiveram um papel fundamental na movimentação do dinheiro. Pricewaterhousecoopers, UBS e Credite Suisse são algumas das mais conhecidas instituições financeiras que, segundo a investigação revelada esta quarta-feira, atuaram como intermediários na criação de empresas nos "offshores".

Os jornalistas do CIJI tiveram acesso a cerca de 200GB de dados financeiros de apenas duas empresas registadas nas Ilhas Virgens Britânicas. A informação, analisada em conjunto pelo CIJI e pelos pelos periódicos que a publicam, revela que 21 000 clientes provenientes da China e de Hong Kong usaram paraísos fiscais para evitar impostos e movimentar dinheiro para fora do país.

Desigualdade entre ricos e pobres

A lei chinesa não obriga a que a informação financeira dos dirigentes do regime seja revelada publicamente, pelo que este tipo de movimentações de dinheiro para fora do país manteve-se, até agora, opaco e desconhecido do povo chinês.

O enorme crescimento económico chinês da última década tem feito aumentar o debate interno sobre a distribuição de riqueza no país. Os 100 mais ricos concentram nas suas mãos, diz o "The Guardian", mais de 300 mil milhões de dólares, enquanto que há ainda 300 milhões de chineses que vivem com menos de 2 dólares por dia.

O governo chinês tem reprimido vigorosamente os movimentos que lutam, dentro do país, pela maior transparência sobre as actividades da elite política e económica da China.

As revelações desta quarta-feira incomodam, por isso, o regime chinês e a elite económica que opera sob sua proteção. A censura apressou-se a cortar o acesso aos sites dos jornais ocidentais que publicaram as informações do CIJI e nenhum dos dirigentes e empresários quis prestar declarações sobre a matéria, antes da publicação das informações.

O Governo chinês reagiu, no entanto, esta manhã. Na conferência de imprensa diária no Ministério dos Negócios Estrangeiros, o porta-voz da diplomacia de Pequim, Qin Gang levantou "dúvidas" sobre as informações.

"Do ponto de vista do leitor, a lógica desse artigo não é convincente e isso faz com que sejam suscitadas dúvidas sobre se têm outras motivações", disse.

De acordo com a EFE, Qin Gang quando questionado sobre se a China vai ter algum tipo de atuação na sequência das alegações do relatório dos jornalistas o porta-voz da diplomacia chinesa respondeu de forma ambigua. "O inocente é inocente e as más práticas não podem ocultar-se", disse Qin Gang.

Fluxos de dinheiro para fugir às restrições

O uso de "offshores" não é necessariamente ilegal e os dados confidenciais obtidos pelo CIJI nada dizem sobre os negócios destas empresa, lá registadas, nem especificam as razões pelas quais foram criadas.

Mas a análise dos dados mostra que, segundo o "El País", numerosas pessoas próximas dos dirigentes políticos chineses abriram sociedades em paraísos fiscais, depois de terem ganho enormes fortunas à sombra do regime.

A investigação revela que estas pessoas criaram ou têm participações em empresas em paraísos fiscais, que usaram para ocultar bens e dinheiro do controlo oficial, e para aproveitar os benefícios fiscais concedidos por Pequim a investidores estrangeiros. Na China, há restrições ao fluxos de capital que entra e sai do país. A lei proíbe retirar da China mais de 50 mil dólares por ano.

Entre os nomes ligados ao regime chinês e à elite empresarial do país encontrados nos registos revelados, estão o cunhado de Xi Jinping, o actual presidente chinês, o genro do anterior primeiro-ministro, Wen Jiabao, a filha do seu antecessor, Li Peng, um genro do conhecido líder chinês Deng Xiaoping, ou o neto do lendário comandante da revolução Su Yu. Ao todo são 13 as pessoas ligadas ao regime que estão vinculadas pelo menos a 25 sociedades na qualidade de acionistas ou diretores.

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