Talibãs

Entre a morte e o medo: assim vivem as desportistas afegãs

Entre a morte e o medo: assim vivem as desportistas afegãs

Escondidas, com as redes sociais apagadas e o medo a dominar-lhes o espírito. Será assim que grande parte das desportistas afegãs se encontram neste momento, principalmente as que não conseguiram sair do país após a chegada dos talibãs ao poder. Numa fase em que o país ia fazer história nos Paralímpicos, tudo se desmoronou.

Com os Jogos Paralímpicos a começar na próxima terça-feira, Zakia Khudadadi ia tornar-se na primeira mulher a competir neste torneio, um momento histórico para um país conservador em que, mesmo quando não era dominado pelos talibãs, o desporto feminino não era bem visto por parte da sociedade.

Khudadadi tinha revelado em entrevista à Al-Jazeera que ficou em êxtase quando soube que iria participar nos Paralímpicos. "É a primeira vez que uma atleta feminina vai representar o Afeganistão nos Jogos e estou muito feliz", disse na altura, mas rapidamente tudo mudou. "Devido à grave situação vivida no país, com os aeroportos fechados" não há a possibilidade de Zakia Khudadadi e Hossain Rasouli (atletismo) viajarem até Tóquio, explica o porta-voz do Comité Olímpico Internacional, Craig Spence.

No último período de ocupação talibã, entre 1996 e 2001, as mulheres não tinham direitos básicos como estudar, trabalhar, conduzir, andar na rua desacompanhadas de um homem e praticar desporto, algo considerado "anti-islâmico". "Vários estranhos enviaram cartas ao nosso treinador a dizer que praticarmos desporto era proibido e avisaram que se continuássemos que iriam atacar-nos", contou, sob anonimato, uma futebolista de Herat ao jornal espanhol "Marca".

Com o agravar da situação no país, várias futebolistas temem agora pela vida. "Tenho-as encorajado a apagar todas as redes sociais e a esconderem-se. A maior parte delas foi para casa de amigos para se esconderem porque os vizinhos sabem que são desportistas. As vidas delas estão em perigo, têm medo, os talibãs estão em todo o lado e andam pelas ruas a espalhar o medo", referiu Khalida Popal, antiga capitã da equipa de futebol do Afeganistão e atual diretora do futebol afegão, à Associated Press.

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Seis futebolistas e os treinadores da equipa de Herat estão desaparecidos há vários dias, revelou Silvia Ricchieri, da organização não-governamental italiana Florence Cospe, que coopera com o clube há vários anos. "Assim que se aperceberam do rápido avanço dos talibãs, muitas fugiram para o Irão. Elas são jovens, solteiras e o risco de violência e retaliação por parte dos talibãs é muito alto. Infelizmente não temos notícias de seis delas e de nenhum dos treinadores. Estamos muito preocupados", disse Ricchieri.

Até esta tomada de poder dos talibãs, as mulheres viviam um período de evolução na prática desportiva. "Nos grandes centros urbanos, como Cabul ou Herat, as mulheres juntavam-se em clubes, iam a ginásios privados ou simplesmente formavam grupos para praticar desporto", explica Rohullah Soroush, investigadora na Afghanistan Analysts Network. "As mulheres serão muito ativas na nossa sociedade", referiu Zabihullah Mujahid. Apesar de um porta-voz dos talibãs ter garantido que as mulheres tenham um papel ativo na sociedade que estão a formar, há relatos preocupantes de violência contra mulheres a chegar do país.

Segundo alguns relatos algumas mulheres já receberam ordens para não regressarem ao trabalho, apenas saírem de casa com uma burca completa (que esconde todo o corpo e apenas tem uma rede na zona dos olhos) e acompanhadas por um guardião homem.

Num passado recente, as desportistas afegãs demonstraram um ato de coragem na tentativa de melhorar a situação em que se encontravam. Em 2018, a seleção nacional de futebol feminino acusou Kerammudin Karim, presidente da federação, e vários membros da equipa de violações e abusos sexuais. Fizeram-no em anonimato, com receio de represálias para elas e para as famílias.

Uma jogadora revelou ao "The Guardian" que o presidente tentou beijá-la e que, depois de ter fugido, foi expulsa da equipa e acusada de ser lésbica. Outra atleta relatou que foi ao escritório de Karim para obter um visto de viagem, e que este a levou para um quarto que a desportista explicou ser "como um quarto de hotel, com cama e casa de banho". Após ter trancado a porta, disse-lhe que queria descobrir se esta "era ou não lésbica". Após ter recusado despir-se, o presidente esmurrou-a na face. "Começou a sair sangue do meu nariz e boca. Ele continuou a dar-me murros, caí na cama e ficou tudo escuro. Quando acordei, as minhas roupas tinham desaparecido e havia sangue por todo o lado, estava a tremer, não sabia o que se tinha passado comigo. A cama estava cheia de sangue, que saía do meu nariz, boca e vagina", disse a atleta. Quando ameaçou contar o sucedido, foi ameaçada: "Já viste o que eu te fiz? Posso dar-te um tiro e o teu cérebro fica aqui espalhado, e posso fazer o mesmo à tua família".

O críquete é um dos desportos mais mediáticos no Afeganistão e é também um bom exemplo da dualidade de critérios do regime talibã e da discriminação para com as mulheres. Hamid Shinwari, chefe executivo do Afghanistan Cricket Board, revelou que a modalidade "está com bastantes dificuldades" para as mulheres. A equipa foi formada em 2010 e desmantelada em 2014, sem qualquer jogo oficial ter sido realizado. No entanto, para o críquete masculino a realidade é bem diferente. "Os talibãs adoram críquete. Eles apoiaram-nos desde o início e não interferem com as nossas atividades", revelou Hamid ao Indian Express.

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