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Entrega dos Nobel: uma história de adiamentos, confusões e recusas

Entrega dos Nobel: uma história de adiamentos, confusões e recusas

A tradicional cerimónia dos prémios Nobel que estava agendada para esta quinta-feira, dez de dezembro,, data que assinala a morte de Alfred Nobel, em Estocolmo e Oslo, foi cancelada devido ao novo coronavírus. Os vencedores receberam os troféus em casa num evento online. Mas em 119 anos de cerimónias nem tudo correu como desejado.

Todos os anos os prémios são atribuídos em diferentes categorias: Medicina, Literatura, Fisíca, Química, Paz e Economia. Ao longo dos 119 anos os prestigiados prémios Nobel foram ocasionalmente ofuscados por guerras, laureados e acontecimentos diplomáticos. Em algumas ocasiões a cerimónia não aconteceu como planeado.

De acordo com a Fundação, os comités encarregados de selecionar um vencedor podem também decidir não atribuir nenhum prémio, caso nenhum trabalho ou investigação seja o suficientemente bom. É exemplo o ano de 1948, meses depois da morte de Mahatma Gandhi, o prémio da Paz não foi atribuído, uma vez que o pacifista indiano nunca foi escolhido em vida para o receber. "Não havia nenhum candidato vivo adequado", afirmou a comissão naquele ano.

Desde dos primeiros prémios, em 1901, não foram atribuídos 49 prémios, sendo que 16 correspondem à categoria da Paz. Por vezes, os prémios podem ser adiados e entregues posteriormente ao vencedor, como aconteceu em 2018, que foi entregue à escritora polaca Olga Tokarczuk no ano seguinte devido a um escândalo que envolveu a Academia Sueca, responsável pela atribuição da categoria da literatura.

A entrega de prémios ficou igualmente suspensa durante as duas guerras mundiais, especialmente durante a segunda. A justificação apresentada na época refletiu-se em valores físicos e morais, bem como pelo facto do comité de Estocolmo não ter maior acesso a publicações científicas, até 1944. A Noruega, que atribui o prémio da Paz, foi ocupada pelos Nazis a partir de abril de 1940. No período entre 1939 a 1945, os prémios não foram entregues.

Outra razão que contribui para a não entrega das distinções são os "amigos ausentes", ou seja, quando os premiados estão a atravessar alguma dificuldade, como aconteceu em 1924, com o escritor polaco Wladyslaw Reymont. Em 1956, o tradicional banquete comemorativo que ocorre após a cerimónia de entrega de prémios em Estocolmo foi cancelado para evitar convidar o embaixador soviético devido à repressão da Revolução Húngara.

Carl von Ossietzky, jornalista e pacifista alemão, foi detido num campo de concentração nazi e não pôde receber o seu prémio da Paz em 1936, morrendo dois anos depois. Em 1970, o soviético Alexander Solzhenitsyn foi obrigado a recusar o prémio da Literatura, temendo não conseguir regressar ao seu país. Apenas aceitou o prémio quatro anos mais tarde. A líder da oposição de Myanmar, Aung San Suu Kyi, estava sob prisão domiciliária quando ganhou o prémio da paz em 1991, ficando impedida de aceitar o prémio pessoalmente até 2012. Já em 2010, o dissidente chinês Liu Xiaobo estava preso quando lhe foi atribuído o prémio da Paz e acabou por falecer em 2017.

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São vários os premiados que tem rejeitado os seus prémios, alguns forçados, outros por vontade própria. O autor russo Boris Pasternak recebeu a distinção na Literatura em 1958, mas as autoridades soviéticas forçaram-no posteriormente a recusá-lo. Em 1973, o negociador da paz do Vietname, Le Duc Tho, recusou-se a partilhar o prémio com o secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger, argumentando que o cessar-fogo que pôs fim à Guerra do Vietname não estava a ser respeitado. Com medo dos protestos, Kissinger não viajou para a cerimónia em Oslo. Na década de 1930, três cientistas alemães foram galardoados com Nobel: Richard Kuhn (1938) e Adolf Butenandt (1939) em Química, e Gerhard Domagt (1939) em Medicina. Mas Hitler impediu qualquer alemão de aceitar um Nobel, por isso só os receberam quando a guerra terminou. O filósofo francês Jean-Paul Sartre também recusou o prémio de literatura em 1964.

O banquete dos prémios Nobel realizar-se-ia hoje, se não fosse pela covid-19, no entanto o ano de 2020 ficou marcado pela pandemia do novo coronavírus que impediu a entrega de prémios e a realização do tão aguardado e tradicional banquete depois da cerimónia.

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