País Basco

ETA: já só fica a faltar a dissolução

ETA: já só fica a faltar a dissolução

Organização separatista entrega armas em Baiona. Sem apoio de Espanha nem de França.

A ETA passa a ser, a partir deste sábado, uma organização totalmente desarmada. A entrega das armas do grupo separatista basco tem lugar em Baiona, no Sul de França, num ato único que contará com a supervisão de vários intermediários, entre eles o Comité Internacional de Verificação.

Cinco anos e meio depois do anúncio unilateral do fim da luta armada, chega finalmente o momento da entrega do arsenal da ETA, num processo que será feito de forma "legal, completa, verificada e sem contrapartidas", garantiu o governo regional, liderado pelo Partido Nacionalista Basco (PNV).

"Era um gesto que faltava. O anúncio do fim da violência trouxe bastante alívio à sociedade basca, mas era evidente que ainda faltavam dois passos: o desarmamento e a dissolução", diz ao JN Iker Usón, professor da Universidade de Deusto, no País Basco, e coordenador do projeto Ahotsak, que levou o tema do terrorismo para as salas de aula. Embora receba com bons olhos o anúncio, Usón entende que peca por tardio: "A fórmula que se vai utilizar poderia ter sido feita muito antes, por isso perde um pouco o seu efeito mais construtivo".

Após a entrega das armas, fica a faltar a dissolução completa do grupo separatista que, em 50 anos de terror, deixou mais de 800 vítimas mortais em nome da luta pela independência basca.

Trata-se, assim, de um processo muito distinto do que ocorreu com o desarmamento do IRA na Irlanda do Norte, ou do que decorre com as FARC na Colômbia.

No caso da ETA, a entrega das armas não é acompanhada de um processo de paz e será feita de forma unilateral, uma vez que tanto o governo espanhol como o francês se negam a colaborar com o grupo separatista. "É algo insólito", lamenta Iker Usón. Quanto ao Estado espanhol, "sob a bandeira do apoio às vítimas da ETA, não só não ajudou, como tratou de impedir" o processo, acusa.

Passo simbólico

À exceção do Partido Popular, todos os partidos espanhóis têm mostrado apoio ao desarmamento da ETA. Numa iniciativa inédita, formações como o PSOE, Podemos ou PNV juntaram-se ao Bildu, da esquerda "abertzale" (independentista), para assinar um manifesto conjunto sobre o ato que tem lugar hoje em Baiona.

Todos concordam que este é um passo importante para concluir a transferência da luta armada para o plano político, sendo certo que irá ocorrer sem as compensações desejadas pela ETA, nomeadamente quanto ao tratamento dado aos presos ainda espalhados por cadeias um pouco por toda a Espanha.

O ato de hoje tem, assim, sobretudo um peso simbólico, que se espera que contribua para a normalização política numa região marcada pela violência. Porque a sociedade basca "há muito tempo que dava a ETA como amortizada", conclui o Usón.