Investigação

"Fast food" e frango vendido no Reino Unido contribuíram para desflorestação do Brasil

"Fast food" e frango vendido no Reino Unido contribuíram para desflorestação do Brasil

Os principais supermercados e estabelecimentos de "fast food" do Reino Unido vendem frango que foi alimentado com soja associada à desflorestação e a milhares de incêndios no ameaçado Cerrado brasileiro, revela uma investigação de um consórcio britânico de jornalistas.

Tesco, Lidl, Asda, McDonald"s e Nando's, entre outras empresas de retalho, são acusadas de escoar produtos de frango criado pela multinacional norte-americana Cargill. Segundo a investigação, esta gigante do agronegócio enviou mais de 100 mil toneladas de grãos de soja por ano daquela região tropical vital do Brasil para o Reino Unido.

De acordo com dados obtidos junto da consultora Aidenvironment, mais de 12 mil incêndios e 800 quilómetros quadrados de área desflorestada, registados desde 2015, no Cerrado, correspondem a terras exploradas por fornecedores de soja da Cargill.

"Frequentemente, os incêndios são feitos para limpar a floresta e ajudar na expansão agrícola", diz a reportagem do "Bureau of Investigative Journalism" sobre a investigação jornalística realizada em colaboração com o "The Guardian", o "Greenpeace Unearthed" e o "ITV News".

Imagens obtidas durante o trabalho mostram grandes incêndios numa fazenda de um desses fornecedores, em outubro. Em resposta, a Cargill negou ter quebrado as regras e as suas próprias políticas ao comprar produtos dessa fazenda e sublinhou que não compra soja a terras desflorestadas ilegalmente.

Conhecido como a savana brasileira, o Cerrado é menos conhecido do que a floresta Amazónia, mas é considerado o segundo maior bioma brasileiro, com dois milhões de quilómetros quadrados e uma riquíssima biodiversidade. O habitat da vida selvagem conserva 5% das espécies vegetais e animais do mundo, mas está sob a ameaça crescente da produção industrial de alimentos.

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A investigação jornalística traz à luz do dia as "complexas cadeias de abastecimento" por trás da soja que chega ao Reino Unido, grande parte dela do Cerrado, "onde as acusações de apropriação de terras, violência e desflorestação são abundantes", destaca.

As revelações surgem numa altura em que o Governo britânico está a propor uma nova legislação, para reprimir a destruição de áreas florestais promovida pelas cadeias de abastecimento britânicas, que tornaria ilegal a importação de alimentos associados a crimes ambientais noutros países.

McDonald"s, Asda, Lidl e Nando"s não revelam publicamente a proveniência da soja das suas cadeias de abastecimento. À equipa de jornalistas, a Nando's admitiu, porém, que a soja vem do Brasil e do Paraguai e a Tesco reconheceu que parte da soja da Cargill vem do Cerrado.

Todos os supermercados e estabelecimentos de "fast food" reforçam estar comprometidos no combate à desflorestação nas suas cadeias de abastecimento e até apoiaram recentemente a nova legislação proposta. Admitem, porém, que há mais trabalho a fazer.

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