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Festa na primeira noite sem Mubarak

Festa na primeira noite sem Mubarak

A festa pela demissão de Hosni Mubarak prolongou-se pela noite, com milhares de egípcios a celebrar na praça da Liberdade.

As Forças Armadas egípcias anunciaram já que vão dar a conhecer, em breve, as medidas a serem aplicadas no país, assegurando que "não há alternativa à legitimidade do povo".

No primeiro comunicado após o anúncio da renúncia do Presidente egípcio Hosni Mubarak, os militares expressaram o seu agradecimento "a todos os mártires que sacrificaram a vida" a favor da liberdade do país.

A declaração, lida na televisão pública egípcia pelo porta-voz militar, Ismail Etman, refere que as Forças Armadas estão conscientes do "momento histórico" que vive o Egipto após a renúncia do Presidente Mubarak.

Os militares afirmaram, na mesma mensagem, que estão a avaliar a actual situação "para alcançar as aspirações" do povo egípcio.

O órgão representativo expressou ainda "todo o agradecimento ao presidente Hosni Mubarak pelo seu trabalho patriótico durante a guerra e a paz", mas também "rende homenagem e assinala o seu apreço para com as almas dos mártires que sacrificaram as suas vidas a favor da liberdade e da segurança do país".

Heróis de Tahrir

"Bem-vindo de volta, Egipto". Foi assim que reagiu o jovem executivo da Google Wael Ghonim, o blogger que começou a revolução online que milhares de jovens levaram para as ruas a 25 de Janeiro, culminando na renúncia de Mubarak.

"Os verdadeiros heróis são os jovens egípcios na praça Tahrir e o resto do Egipto", acrescentou Wael Ghonim no twitter pessoal, em reação à demissão de Hosni Mubarak.

"Queridos governos ocidentais, estiveram calados durante 30 anos, apoiando um regime que nos oprimiu. Por favor, não se envolvam agora", acrescentou Wael Ghonim, um dos dos organizadores-chave da campanha online que culminou nas ruas e em 18 dias de protestos que demitiram Mubarak.

O Parlamento Europeu foi a primeira instituição europeia a reagir ao recente anúncio, pelo vice-presidente egípcio Omar Suleiman, de que Mubarak vai abandonar o poder, transferindo-o para o exército.

O presidente do Parlamento Europeu, Jerzy Buzek, saudou a notícia da resignação, afirmando-se convicto de que se trata de "um dia histórico de mudança democrática pacífica e duradoura".

Apontando que apoia plenamente "as aspirações do povo egípcio", o presidente da assembleia advertiu que "este é apenas o início de um longo caminho para uma mudança dourada" e disse ser por isso "da maior importância estimar e proteger as flores da liberdade obtida".

A chefe da diplomacia europeia, Catherine Ashton, saudou a demissão de Hosni Mubarak, afirmando que o Presidente egípcio "escutou a voz do povo".

A Alta Representante da União Europeia (UE) para a Política Externa e Segurança afirmou ainda, em comunicado, que a renúncia de Mubarak abre caminho a "reformas mais rápidas e mais profundas".

"É importante que o diálogo possa ser acelerado, conduzindo a um Governo amplamente representativo que respeite as aspirações (...) do povo" egípcio, acrescentou Ashton.

"O respeito dos direitos humanos e das liberdades fundamentais é essencial. Todos os abusos devem ser investigados", referiu a chefe da diplomacia europeia.

Barack Obama, presidente dos EUA, soube da notícia quando estava numa reunião na Sala Oval, na Casa Branca. A assessoria da presidência norte-americana anunciou uma conferência de Imprensa para a 13.30 em Washington (18.30 em Lisboa), mas Joe Biden, vice-presidente, já salientou a necessidade de uma transição pacífica rumo a uma democracia.

Israel espera que o período de transição que se abre no Egipto com o anúncio da demissão de Hosni Mubarak se faça "sem sobressaltos", afirmou um responsável governamental israelita à agência France Presse.

Frisando a necessidade de preservar o tratado de paz entre Israel e o Egipto, assinado em 1979, o responsável afirmou que esse acordo "serve os interesses dos dois países e é uma garantia para a estabilidade do conjunto da região".

A mesma fonte afirmou por outro lado que "o momento é demasiado crucial para fazer comentários a quente", e admitiu que as autoridades de Israel estão "algo preocupadas face à incerteza" criada pela demissão do presidente Mubarak.

A chanceler alemã Angela Merkel fez questão de sublinhar que "os acordos do Egipto com Israel têm de ser honrados", ao reagir à demissão do presidente egípcio.

Considerando que Mubarak "prestou um serviço ao Egipto ao renunciar", Merkel salientou a necessidade da realização de eleições livres.

Mohamed El Baradei, um dos principais rostos da oposição a Mubarak, foi dos primeiros a reagir. "É o dia mais feliz da minha vida. O país foi libertado", disse o Nobel da Paz, que regressou ao Egipto pouco após o início dos protestos no Cairo, a 25 de Janeiro.

Um alto representante dos Irmãos Muçulmanos diz que a renúncia de Mubarak "é uma vitória do povo egípcio". Em declarações à Reuters, aquela importante força política no Egipto disse esperar novos rumos do Alto Conselho das Forças Armadas.

Amr Moussa, líder da Liga Árabe considerou a partida de Mubarak como "uma grande oportunidade para os egípcios", relata a televisão Al Arabiya, especializada em conteúdos do Médio Oriente.

"O que a grande nação egípcia obteve, por sua vontade e apesar da resistência de responsáveis que dependem das grandes potências, é uma grande vitória", afirmou um porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Irão, Ramin Mehmanparast, à televisão iraniana Al-Alam.

"Esperamos que ao seguirem o seu caminho, todas as exigências históricas dos egípcios sejam realizadas", acrescentou.

"Consideramos a demissão do presidente Mubarak como o anúncio do início da vitória da revolução egípcia, a qual apoiamos em todas as suas reivindicações", disse à France Presse Sami Abu Zuhri, porta-voz do Hamas em Gaza, depois de ter sido anunciada a saída do poder de Mubarak.

O porta-voz considerou esta saída "a vitória da vontade e dos sacrifícios do povo egípcio" e apelou "ao Exército egípcio para ser o garante das reivindicações do povo e a não permitir que elas sejam corrompidas".

"Apelamos às autoridades egípcias para decidir imediatamente o levantamento do bloqueio de Gaza e a abertura do terminal egípcio" de Rafah, na fronteira entre a Faixa de Gaza e o Egipto, acrescentou.