Líbia

Forças armadas líbias, a desconfiança fatal do coronel Kadafi

Forças armadas líbias, a desconfiança fatal do coronel Kadafi

O distanciamento e esvaziamento das forças armadas líbias por Muammar Kadafi jogou um papel no desfecho da rebelião, segundo um especialista francês.

Saïd Haddad, professor na academia militar especial de Saint-Cyr, assinala a desconfiança do líder líbio em relação aos militares, em favor de um sistema de organizações paralelas, baseadas nos "laços de sangue" e nas lealdades tribais.

Este sistema paralelo, muitas vezes oficioso e marcado por uma "reconstrução do tribalismo", contraria a retórica da "maior reserva militar mundial".

Para Saïd Haddad, a longa cronologia de golpes falhados e as sucessivas purgas, por Kadafi, entre os militares são testemunho de uma desconfiança permanente.

Muammar Kadafi, que ascendeu ao poder num golpe militar em 1969, enfraqueceu os pilares fundamentais das forças armadas, através de esforços para criar um exército popular baseado na participação de todos os cidadãos", sublinha Saïd Haddad, que analisou em detalhe o papel dos militares na rebelião que afastou o líder líbio.

A criação do exército popular fez-se através do serviço militar, obrigatório para ambos os sexos desde 1984, e pelo recurso a milícias populares.

"Para atingir esse objectivo, o regime aboliu as patentes militares tradicionais e promoveu a criação de uma estrutura quase-militar cujo papel era a repressão interna e a vigilância", explica Saïd Haddad.

Esse sistema "servia de contrapeso às forças armadas regulares", sublinha Saïd Haddad.

Os corpos mais importantes de forças desse tipo eram, até à queda de Tripoli, o Corpo de Guardas Revolucionários e a Legião Pan-Africana Islâmica.

A Legião "é um grupo de mercenários de diversas partes de África que Kadafi recrutou em várias campanhas em diferentes países africanos nos anos 70 e 80".

O especialista francês calcula "entre três mil e mil homens" para a Guarda e a Legião, respectivamente.

Outras estruturas "quase-militares" são as milícias populares, que operavam em todo o país com a missão de defesa regional, com cerca de 40 mil membros, e a Força de Cavalaria Popular.

"A família imediata de Kadafi e outros membros da sua tribo Qadhadhafah e as tribos que lhe são aliadas forneceram a contribuição mais importante da liderança militar", conclui Saïd Haddad pela análise das informações disponíveis sobre os titulares de lugares de confiança do regime.

Além da tribo Qadhadhafah, o "último círculo de lealistas de Kadafi" era constituído pelos aliados das tribos Maqariha e Warfalla. O alinhamento da tribo Warfalla com a rebelião a leste, nas semanas iniciais do levantamento militar, terá sido crucial para a mudança dos equilíbrios no terreno.

"Apesar dos discursos de hostilidade ao tribalismo, insultando as tribos como 'forças reaccionárias' relacionadas com o antigo regime anterior a Kadafi, o factor tribal não desapareceu da cena líbia e manteve-se como factor crucial", avisa Haddad.

A relevância do tribalismo na era Kadafi nota-se desde o início, pois "todos os Oficiais Livres (envolvidos no golpe contra o Rei Idris) vieram de pequenas tribos e a maior parte tinham origens rurais".

Saïd Haddad assinalava já, nas primeiras semanas da rebelião, que "a retirada da tribo Warfalla da aliança (do regime), além da demissão de centenas, e possivelmente de milhares, de soldados do serviço militar, ou até a decisão de aderir à revolução popular, são sinais claros de que uma grande parte do exército se dissociou do regime".

Apesar da retórica do regime, assinala ainda Saïd Haddad, o governo de Kadafi "foi irresponsável na manutenção" das suas forças armadas. "O exército, além disso, sofre de uma falta generalizada de preparação e de actualização que se estende ao equipamento, a problemas laborais e a serviços de manutenção deficientes".

Sob Kadafi, o exército regular tinha 45 mil elementos, a força aérea 23 mil e a marinha oito mil.

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