Crise energética

"Fresquinho" mantém-se nas lojas de Madrid, empresários pedem apoios

"Fresquinho" mantém-se nas lojas de Madrid, empresários pedem apoios

O ar condicionado nas lojas e restaurantes de Madrid fixou-se esta quarta-feira nos 27 graus e poucos clientes notaram diferenças, enquanto os proprietários dizem que o problema são as regras para poupança energética que entram em vigor em setembro.

Ao longo da manhã de hoje, dia de entrada em vigor em Espanha das medidas para poupar energia, a temperatura nas ruas de Madrid subiu acima dos 30 graus e no bairro de Chamartín, clientes de lojas, restaurantes, cafés e serviços públicos que falaram com a Lusa foram unânimes em considerar que continua "a sentir-se o fresquinho" dentro de todos os espaços.

A exceção foi Luis, de 56 anos, que à saída da estação de correios, após algum tempo de espera até ser atendido, disse à Lusa que "não se tem a sensação de frescura de antes, mas pode aguentar-se bem".

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Surpreendida, a mulher, a seu lado, responde: "Eu não notei diferença".

Os clientes do Mercado de Chamartín, um espaço fechado e climatizado, no quarteirão do lado, também não notaram diferença e houve até quem dissesse à Lusa que, depois de algum tempo ali dentro, sentia frio.

Segundo os dois vendedores na bancada de frutas e legumes "La Huerta de Chamartín", a diferença esta quarta-feira no ar condicionado é pouca, "um bocadinho mais, um grau", e os clientes "nem notam", vindos de temperaturas exteriores que hoje devem chegar aos 39 graus, segundo as previsões meteorológicas.

O mesmo vai acontecer no inverno, em que o aquecimento dentro do mercado está programado para os 20 graus "de média, podendo variar em um grau acima ou abaixo", explica um dos vendedores da "La Huerta de Chamartín", que assegura que estão em causa valores apropriados para um espaço de venda de frutas e legumes.

Também na loja de roupa masculina Fevica, numa rua ao lado do mercado, os 27 graus a que tem de estar o ar condicionado não causa grande diferença, por ser já "mais ou menos" a essa temperatura que estava antes, segundo o dono, Carlos Villar.

Quanto às montras, terá de passar a desligar a iluminação às 22:00, uma hora mais cedo do que aquilo que fazia.

Em Madrid, "as ruas estão cheias de gente até às onze" e Carlos Villar adivinha que potenciais clientes se vão perder por "não verem um produto que lhe poderia interessar" na montra, o que não vai compensar a poupança que vai ter na fatura da eletricidade.

Carlos Vilar lamenta que a lei que entrou hoje em vigor seja "só impositiva", sem ajudas para comerciantes "sem lucros", sobretudo por causa das regras que a mesma legislação prevê para setembro.

A regra de que comerciantes como Carlos Villar mais se queixam é a que impõe que espaços comerciais com entrada direta desde a rua tenham, até 30 de setembro, sistemas de portas que impeçam que estejam abertas em permanência.

"É um gasto tremendo e impossível", garante Carlos Villar.

Nos bares e restaurantes, como a Casa Lucas, o ar condicionado já estava em temperaturas acima dos 27 graus, "por ser antigo", e as portas "quase sempre fechadas", garante à Lusa uma funcionária que prefere não revelar o nome, ao lado de uma esplanada sempre com clientes que não temem as temperaturas exteriores elevadas de Madrid.

Numa cidade em que há várias semanas as temperaturas mínimas se mantêm acima dos 20 graus, as esplanadas têm sempre clientes e enchem-se à noite, quando os termómetros ainda estão na casa dos 30 graus, pelo que as normas que entraram hoje em vigor parecem pouco incomodar clientes de bares, restaurantes e lojas.

Uma reação que colide com a polémica que se gerou nos últimos dias ao nível político, com o maior partido da oposição em Espanha, o PP (direita), a pedir a revogação do decreto governamental que impõe este "plano de choque de poupança e eficiência energética" que entrou em vigor à meia-noite desta quarta-feira.

Os dirigentes do Partido Popular e os líderes dos governos regionais que têm à frente presidentes do PP, como o de Madrid, queixaram-se de estas medidas serem "uma improvisação", sem debate prévio com os executivos das regiões, que terão de garantir a sua aplicação, ou com os empresários, que representam um universo de atividades muito diferentes, agora sujeitas a regras iguais para todos e em todo o território de um país com diferenças substanciais ao nível meteorológico.

Empresários e oposição dizem não perceber "as pressas" do Governo espanhol, liderado pelos socialistas, quando a generalidade dos países europeus, face à crise energética gerada pela ameaça de corte de fornecimento de gás russo, estão ainda a estudar medidas de poupança de energia e só vão avançar com elas em setembro.

As normas foram aprovadas há uma semana e houve pouco tempo para prestar informação ao comércio, hotelaria e restauração, queixaram-se as associações patronais e empresariais.

"Nós, como organização, podemos ter acesso a essa normativa, mas o comerciante pequeno, não. Havia muito medo, muita insegurança e sensação de que não sabíamos muito bem o que fazer. A notícia na rua eram 27 graus e multas de até 60.000 euros e isso assusta", disse à rádio Cadena SER o presidente da Confederação Espanhola de Comerciantes, Rafa Torres.

O Governo espanhol tem garantido que a legislação "é flexível" e que haverá "uma margem" para a aplicação no terreno e para os empresários irem adotando as medidas previstas na lei.

O "Plano de choque de poupança e gestão energética" do Governo espanhol prevê que os espaços comerciais, culturais e públicos refrigerados tenham uma temperatura mínima de 27 graus e que os aquecimentos, quando chegue o inverno, não subam acima dos 19.

Estão abrangidos por estas medidas de poupança de energia, que ficarão em vigor até novembro de 2023, edifícios oficiais e das administrações públicas, espaços comerciais, a hotelaria (espaços comuns) e a restauração, espaços culturais (como cinemas, teatros, museus ou auditórios), estações de comboio, autocarro ou metro e os aeroportos.

O decreto prevê exceções para a climatização e aquecimento de espaços como as cozinhas dos restaurantes, ginásios, cabeleireiros, hospitais, lares de terceira idade ou laboratórios.

A iluminação pública vai manter-se sem alterações, mas a iluminação das montras das lojas e dos edifícios públicos que não estão a ser usados vai ter de desligar-se a partir das 22 horas.

Na última noite, o impacto das luzes apagadas das montras em grandes artérias comerciais de Madrid, como a Gran Vía, foi já visível. E embora a medida não abranja painéis publicitários nem iluminação pública, alguns setores têm também sugerido que as montras desligadas à noite podem aumentar a insegurança nas ruas das cidades.

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