Espanha

Fuga de Juan Carlos alimenta campanhas contra a monarquia

Fuga de Juan Carlos alimenta campanhas contra a monarquia

Petições para um referendo e para retirar o nome do rei emérito de ruas, mapas ou instituições sucedem-se a bom ritmo.

Antes de um possível julgamento futuro no Supremo Tribunal, a sociedade já esta a ditar de diversas formas a sua própria sentença sobre os escândalos de corrupção protagonizados por Juan Carlos I de Bourbon. Desde que a Casa Real anunciou a saída do rei emérito de Espanha, as iniciativas para apagar qualquer legado monárquico ganharam grande repercussão mediática.

O jornal espanhol "Público" lançou na sua página web uma petição para um referendo sobre monarquia ou república. A iniciativa já recebeu o apoio de mais de 250 mil pessoas e tem como objetivo final ser apresentada no Congresso dos Deputados, já que o artigo 92.o da Constituição espanhola determina que "as decisões políticas de especial relevância podem ser submetidas a um referendo consultivo de todos os cidadãos". Segundo o jornal, os espanhóis têm a soberania do país, mas nunca decidiram nas urnas se preferem que a chefia do Estado recaia sobre a coroa ou um presidente.

Apesar de uma grande base de apoio, realizar um referendo é uma tarefa árdua. Em primeiro lugar, o Conselho de Ministros deve acordar num Real Decreto a petição do referendo para mais tarde ser autorizada pelo Congresso dos Deputados e, último passo, a consulta ser convocada pelo rei após proposta do primeiro-ministro. Atualmente, a formação Unidas Podemos e os partidos nacionalistas estão a aproveitar estes momentos de fragilidade da coroa para tentar abrir novamente este antigo debate que parece não ter fim.

O caso da Universidade

Outras iniciativas contra a figura do rei emérito estão mais perto do sucesso. Na página Change.org, uma associação de estudantes da Universidade Rei Juan Carlos lançou uma petição ao reitor para que a instituição mude de nome. Já tem mais de 50 mil assinaturas.

O grupo de estudantes, que promove atividades sindicalistas e culturais, coloca em paralelo os escândalos de corrupção protagonizados pelo rei emérito com o facto de uma universidade pública continuar a levar o seu nome. "Não podemos permitir que esta instituição de ensino se veja manchada pela imagem e fama da coroa", lê-se num comunicado emitido pela associação.

As revelações sobre contas na Suíça com depósito de alegadas comissões recebidas pelo rei emérito foram a verdadeira origem desta causa. Os estudantes decidiram dizer "chega". "Cremos que não nos representa. Juan Carlos I não deve ter a honra de uma universidade pública ter o seu nome porque este centro deveria representar outros valores cívicos muito afastados dos representados pelo rei emérito", explica Iñaki Modrego, da associação estudantil Vikalvarada, que já promoveu no passado um referendo sobre monarquia ou república no âmbito universitário.

A associação espera que a proposta chegue a bom porto, até porque a Universidade já ter retirado há uns anos a distinção "honoris causa" a Rodrigo Rato, antigo vice-presidente do Governo, condenado por corrupção no caso dos cartões black, que envolveu o Partido Popular.

Mudam mapas para apagar referências ao monarca

Segundo o Instituto Nacional de Estatística, existem em Espanha pelo menos 637 vias públicas denominadas Juan Carlos I. A câmara municipal de Vitoria, no País Basco, foi pioneira ao retirar do mapa da cidade o nome do rei emérito. Agora, Saragoça quer seguir o exemplo. O partido regionalista Chunta Aragonesista (CHA, ecossocialismo) quer solicitar à autarquia da capital aragonesa uma proposta política para mudar o nome da avenida Juan Carlos I e substituí-lo por uma figura histórica da região como Juan V de Lanuza. "Não é uma proposta contra Juan Carlos, mas sim em favor da democracia, porque as ruas da cidade devem ser motivo de orgulho e não de vergonha", justifica Chuaquín Bernal, presidente de CHA Zaragoza. A iniciativa conta com o apoio político de Zaragoza En Común (antiga cisão do Podemos), a quem caberá apresentar esta moção política na assembleia da Câmara em setembro.

De Vigo a Abu Dhabi

O rei emérito de Espanha, Juan Carlos I de Bourbon, terá deixado Espanha na segunda-feira, depois de passar a noite em Sanxenxo (Pontevedra), vindo de Paris. Voou de Vigo, em jato privado, até Abu Dhabi, onde é amigo do xeque, e instalou-se num hotel de luxo. A Casa Real não confirma.

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O país só foi informado da intenção de Juan Carlos deixar o país nessa mesma segunda-feira, já ele estaria no destino.

Poupar a coroa

Juan Carlos I alegou não querer afetar as funções da chefia de Estado (entregue ao filho, rei Filipe VI) com as repercussões do escândalo de corrupção que o envolve.

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