Covid-19

Gangues: os ajudantes improváveis para vacinar mais na Nova Zelândia

Gangues: os ajudantes improváveis para vacinar mais na Nova Zelândia

Numa altura em que está a tentar atingir uma das maiores taxas de vacinação do Mundo, o Governo da Nova Zelândia começou a trabalhar com companheiros improváveis: os líderes dos gangues do país.

Dos cinco milhões de habitantes da Nova Zelândia, cerca de oito mil são membros de gangues - alguns dos quais envolvidos em atividades criminosas. Os mais infames são o Mongrel Mob e o Black Power, duas fações que competem por território em todo o país. Como algumas das comunidades mais alienadas, marginalizadas e desconfiadas da Nova Zelândia, os gangues colocam obstáculos à resposta contra a pandemia, bem como à implantação do plano vacinal.

Para inverter esta tendência, o ministro do desenvolvimento Māori [povo nativo], Willie Jackson, sugeriu que as autoridades de saúde reunissem com os líderes dos gangues, argumentando que, se não se vacinassem, estariam a colocar todo um país em risco. "Não sou um grande apoiante de gangues. Sou um defensor da comunidade e de outras pessoas", disse, citado pelo jornal britânico "The Guardian".

A estranha estratégia está a funcionar. "Estou na estrada desde sexta-feira da semana passada", disse Harry Tam, afiliado de longa data dos Mongrel Mob. "Fui a Rotorua para falar com alguns dos líderes da máfia da Baía de Plenty... Baía de Waihau, para a secção do Cabo Leste... Kawerau, para trabalhar com o presidente da secção Te Teko dos notórios Mongrel Mob para vacinar os seus membros e as suas famílias - vacinámos 27 [pessoas] naquele dia".

Incentivar pela fala é bom, mas não chega. É por isso que, este mês, o líder dos Black Power NZ deixou-se ser vacinado à frente das câmaras para a televisão nacional. Com a agulha no braço direito, Mark Pitman levantou o punho esquerdo numa espécie de saudação. "Quero fazer isto e quero que o resto da nossa organização em todo o país saiba que fiz isto. Eu sou o líder. E lidero pelo exemplo", afirmou.

"Chutados como uma bola de futebol por capricho dos políticos"

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Muitos dos membros originais dos gangues foram criados em circunstâncias brutais. Passaram por várias gerações de abusos, separação familiar e pobreza - interagindo com o Estado apenas através do sistema de justiça criminal. Agora, considera Tam, dos Mongrel Mob, o Governo deve aprender com a experiência da covid-19: negligenciar comunidades como estas pode ter repercussões em toda a Nova Zelândia.

"Há uma lição e tanto a ser aprendida. É incrível, os Governos negligenciaram esta comunidade durante décadas e convenientemente esqueceram-se disso e, de repente, a covid aparece e estão todos preocupados que, se esta comunidade não for vacinada, poderão ficar infetados", afirmou.

"Esta comunidade é chutada como uma bola de futebol política por capricho dos políticos, nunca prestando atenção à razão pela qual estas comunidades existem e à razão do seu comportamento. Não há políticas pró-sociais para elas. A única política é a aplicação da lei, aplicação da lei e mais aplicação da lei", continuou.

Um exemplo para o futuro

Para o ministro do desenvolvimento Māori, os últimos exemplos de diálogo entre o Governo e os gangues podem ser replicados no futuro. "Os movimentos pragmáticos para abordar a covid e os problemas de vacina dentro dos gangues poderiam ser usados para lidar com os problemas sociais", defendeu.

Mas há quem considere que este trabalho pode ser um risco. Tam, assim como pelo menos um líder dos Mongrel Mob, recebeu o estatuto de trabalhador essencial, o que gerou imediatamente manchetes e acusações.

Jackson desvaloriza as vozes crítica: "Não se pode executar a estratégia política com base na próxima votação. É preciso executá-la com base em princípios".

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