Covid-19

Gangues substituem-se ao Governo brasileiro e fecham favelas

Gangues substituem-se ao Governo brasileiro e fecham favelas

Bolsonaro pediu o fim do confinamento em massa e teve quase todos os governadores a ignorá-lo. Cresce receio de epidemia nas zonas pobres.

Bastou um caso positivo do novo coronavírus para o Comando Vermelho impor a força que costuma impor para negócios obscuros na Cidade de Deus, uma das mais famosas favelas do Rio de Janeiro, 40 mil habitantes: recolher obrigatório a partir das 20 horas. Quem falhar será castigado. Porque um caso numa favela, onde a densidade populacional vive paredes-meias com a falta de condições sanitárias, é o suficiente para espoletar uma tragédia.

"Iremos fazer toque de recolher porque ninguém está levando a sério (a pandemia). Quem estiver na rua de sacanagem ou batendo perna vai receber um corretivo e vai ficar de exemplo. É melhor ficar em casa de molho. O recado já foi dado". Foi o recado gravado, debitado por altifalante, ouvido por todos os moradores, segundo o jornal local "Extra". Que multiplica os exemplos, na Rocinha, Fubá, Chacrinha, Rio das Pedras... Total: dois milhões de habitantes literalmente amontoados em morros onde a água é esparsa ou inexistente e a pobreza é nome de família.

"Os traficantes estão a fazer isto porque o Governo está ausente", explicava ontem um habitante ao jornal britânico "The Guardian". Num reversão total dos papéis, são os gangues que distribuem sabão junto às bicas de água das favelas.

Caos na chefia de Estado

Ora o Governo tem um rosto - o do presidente, Jair Bolsonaro -, e está metido num caos de comunicação sem precedentes. Anteontem, à hora em que Bolsonaro se dirigia à nação pela televisão para abordar a crise sanitárias, incontáveis brasileiros assomavam às janelas batendo tachos no oitavo "panelaço" seguido contra um líder que coleciona erros na gestão de uma pandemia que pode ter no Brasil um dos piores cenários.

Invocando Deus, repetidamente, Bolsonaro criticou os governadores regionais por fecharem comércios e escolas. Para quê, quando o vírus afeta sobretudo os mais velhos, que não são tantos no Brasil quanto na Europa, perguntou, ar carregado, acusando a comunicação social de espalhar "pavor" e dizendo-se protegido pelo seu "histórico de atleta". No máximo "uma gripezinha ou um resfriadinho".

Não foi infetado, garante, mas não mostra os testes que fez depois de, um atrás do outro, os elementos da comitiva que o acompanhou numa visita aos EUA testarem positivos. Até o motorista particular...

"Acha que estou escondendo alguma coisa?" reagiu quando questionado sobre o facto de terem sido omitidos nomes pelo hospital que testou Bolsonaro, que não se coibiu de participar numa manifestação.

Esteja ou não, está no centro das atenções. E tem até governadores apoiantes a largar o barco. A maioria fez saber que ignoraria o apelo ao fim do confinamento em massa pedido pelo chefe de Estado. Que teve o vice-presidente, Hamilton Mourão, a corrigi-lo: "A posição do nosso Governo, por enquanto, é uma só: o isolamento e o distanciamento social". Ainda que logo viesse o ministro da Saúde, Luiz Mandetta, endossar Bolsonaro e pedir racionalidade e organização entre governadores quanto a confinamentos.