Afeganistão

Governo afegão perdoa o "carniceiro de Cabul"

Governo afegão perdoa o "carniceiro de Cabul"

O governo afegão assinou um acordo de paz com um dos priores criminosos de guerra do país, Gulbuddin Hekmatyar, conhecido como "o carniceiro de Cabul".

O acordo garante imunidade a Gulbuddin Hekmatyar e abre caminho ao seu regresso à política.

O acordo foi contestado por muitos afegãos, algumas centenas dos quais se manifestaram em Cabul, e por organizações nacionais e internacionais de defesa dos direitos humanos, incluindo a Human Rights Watch, que considera que o acordo "conforta a cultura de impunidade" seguida pelas autoridades afegãs e pelos seus aliados.

Hekmatyar, líder do segundo maior grupo insurgente do país, o Hezb-i-Islami (Partido Islâmico do Afeganistão), ganhou o cognome de "carniceiro de Cabul" no princípio dos anos 1990, quando era primeiro-ministro e ordenou o bombardeamento da cidade.

Para o governo do presidente Ashraf Ghani, um acordo de paz com o Hezb-i-Islami é um avanço simbólico, numa altura em que as conversações com os talibãs estão paradas e em que a situação de segurança no país se degrada cada vez mais.

O acordo foi assinado entre o Alto Conselho para a Paz, o organismo governamental encarregado de negociar uma reconciliação nacional, e uma delegação do grupo, que aceitou depor as armas e transformar-se num partido político.

"Este acordo foi assinado depois de dois anos de negociações (...) Constatamos a unanimidade de que estas negociações chegaram a uma feliz conclusão", afirmou a vice-presidente do Conselho, Habiba Sorabi, precisando que o acordo entra "em vigor quando o presidente Ghani e Hekmatyar o tiverem assinado oficialmente".

Nascido há 67 anos em Kunduz (norte), Hekmatyar, o homem do turbante negro, é um veterano da luta contra os soviéticos dos anos 1980.

Afastado pelos talibãs, viveu as duas últimas décadas no exílio, primeiro no Irão, depois no Paquistão, de onde em 2004 apelou para a "guerra santa" contra os Estados Unidos, país que o mantém na lista de "terroristas internacionais".

O acordo, de 25 pontos, garante-lhe imunidade judicial em relação a "todas as ações políticas e militares do passado" e prevê a libertação de membros do Hezb-i-Islami em troca da renúncia a atividades militares e a qualquer ligação ou apoio a organizações terroristas.

"O regresso de Gulbuddin Hekmatyar depois de décadas no exílio vai confortar essa cultura de impunidade que o governo afegão e os doadores internacionais têm mantido ao renunciarem a processar os responsáveis das muito numerosas vítimas de Hekmatyar e de outros senhores de guerra que devastaram o país nos anos 1990", protestou a organização Human Rights Watch.

Além do bombardeamento de Cabul, Hekmatyar é acusado de várias outras atrocidades, como o massacre de mais de mil pessoas em agosto de 1992, confirmado pelo Comité Internacional da Cruz Vermelha, o desaparecimento de numerosos opositores e o recurso à tortura em prisões clandestinas.

Nos últimos anos, o Hezb-i-Islami tem estado quase inativo. O último ataque no país, que matou 10 afegãos e cinco norte-americanos em Cabul, remonta a 2013.