1968

Gripe de Hong Kong: a pandemia subestimada que matou mais na segunda vaga

Gripe de Hong Kong: a pandemia subestimada que matou mais na segunda vaga

Em setembro de 1968, um agente infecioso agressivo espalhou-se pelos Estados Unidos da América. Mais tarde, foi batizado de gripe de Hong Kong, local onde o primeiro caso foi identificado.

Esta foi uma das três grandes pandemias de gripe do século XX: a espanhola em 1918-20, a gripe asiática de 1957-58 e a de Hong Kong, entre 1968 e 1970.

A primeira foi a mais agressiva e a mais grave de todas. Causada pelo vírus H1N1, levou pelo menos 40 milhões de pessoas à morte. A segunda, causada pelo H2N2, matou dois milhões. A terceira, H3N2, tirou a vida a um milhão de pessoas.

"A gripe asiática e a gripe de Hong Kong foram esquecidas logo de seguida", relata Anton Erkoreka, diretor do Museu Basco de História de Medicina e especialista em história das doenças, em entrevista à BBC Mundo.

"As medidas adotadas na época não foram excecionais, e acabou por ser considerada apenas mais uma gripe." E assim, acrescenta, esqueceu-se o que aconteceu e os ensinamentos que a epidemia trouxe.

"As gripes vêm sempre com uma conotação benigna de que matam apenas idosos, por isso foram sempre banalizadas socialmente", diz Erkoreka.

Em 1968, a filha mais nova de Phillip D. Snashall, professor emérito de medicina da Universidade de Newcastle, no Reino Unido, contraiu a gripe de Hong Kong e ninguém conseguiu perceber como.

O pai dela contou ao "British Medical Journal" que apenas alguns médicos e uma publicação especializada souberam disso.

No entanto, no Natal de 1968, hospitais dos 50 estados americanos começaram a receber diversos pacientes, assim como aconteceu com a atual pandemia de covid-19.

Uma catástrofe global

Nova Iorque decretou estado de emergência e Berlim foi obrigada a guardar cadáveres nos túneis de metro. Pacientes inundaram hospitais de Londres, onde pelo menos 20% das enfermeiras foram infetadas, segundo o jornal "The Telegraph".

Em algumas regiões de França, o vírus deixou metade da força laboral de cama e causou, pelo menos, 30 mil mortos ao longo de dois anos. Algo semelhante ocorreu no Reino Unido e na Alemanha, que registou mais de 60 mil mortes.

Ao todo, entre 1968 e 1969, morreram por causas relacionadas com a gripe de Hong Kong cerca de um milhão de pessoas em todo o mundo.

Só nos Estados Unidos, o total superou mais de 100 mil mortes, uma proporção três ou quatro vezes maior que a média anual de mortes por gripe desde 2010, segundo o Centro para Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA.

Os mortos por covid-19 ainda não são tão numerosos. Mas ambas as pandemias têm em comum o facto de muitas das mortes ocorrerem entre os maiores de 65 anos.

O que podemos aprender com a pandemia de 1968?

As reações à gripe de Hong Kong e ao novo coronavírus têm sido parecidas em diversos aspetos.

Mas ainda que distanciamento social, campanhas de higienização das mãos e outras recomendações tenham sido adotados, na ocasião as cidades não adotaram quarentenas e todos os cidadãos continuaram a trabalhar.

As escolas permaneceram abertas, as competições desportivas foram mantidas e a economia continuou a crescer, embora a um ritmo mais lento.

Naquela época, a imunidade de grupo não foi atingida. Ou seja, não se chegou a um patamar de pessoas infetadas (e depois imunizadas) tão alto a ponto de haver um efeito parecido ao da vacinação em massa.

Veio então uma segunda onda, ainda mais forte

"A gripe de Hong Kong teve uma primeira onda suave no inverno de 1968-69, mas possivelmente mutou significativamente e produziu uma segunda onda que, na Europa, se deu em dezembro de 1969", relata Erkoreka.

Esta foi muito agressiva e teve ampla repercussão nos meios de comunicação da época, mas foi rapidamente esquecida.

O historiador acredita que, como acontece agora, aquela pandemia se amplificou por ter sido subestimada por governantes, na primeira vaga.

"Autoridades e epidemiologistas fracassaram em Espanha e na Europa porque não aprenderam com as grandes epidemias do passado", opina.

"Os governantes devem ter em mente que quanto mais cedo agirem e adotarem medidas, menores serão os danos."

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