Israel

"Guerra civil" opõe judeus no Muro

"Guerra civil" opõe judeus no Muro

Mulheres e rabinos liberais entraram no Kotel carregando rolos da Torá para recitá-la em voz alta, enfrentando ultraortodoxos

Anat Hoffman não venceu a guerra, mas venceu uma batalha: ontem, liderou duas centenas de mulheres e de rabinos liberais (reformistas e conservadores) e entrou na esplanada do Kotel - o Muro das Lamentações -, em Jerusalém, segurando no colo um rolo da Torá e aguentando insultos e agressões. Chegada ao Muro, ergueu os textos sagrados e rezou. Tudo na mais absoluta proibição aos olhos ultraortodoxos do rabinato que administra o Kotel.

Anat Hoffman dirige o movimento ativista "Mulheres do Muro", que milita pela igualdade homem--mulher na oração no Muro. Cometeu, na sua investida, várias violações: tocar nos pergaminhos da Torá terá sido talvez a mais grave para os ultraortodoxos que quiseram impedir a iniciativa, tentando agarrar os rolos e derrubar quem os transportava.

Além disso, o grupo trouxe 12 rolos da Torá do exterior da esplanada, quando as regras impõem que se usem exclusivamente os que estão depositados no Kotel. Por fim, Anat vestiu o talit (xaile da oração reservado aos homens) e usou a kipa (chapéu) e rezou com o rolo na praça, entre as zonas separadas destinadas a homens e mulheres. E longe da área prevista para "zona mista" de oração que o Governo de Benjamin Netanyahu inventou este ano para sossegar as diferentes fações judias, mas não tirou do papel: os ultraortodoxos rejeitam a criação do espaço e usam-no segundo a tradição segregada da oração como sinal de resistência à liberalização; e as ativistas e os rabinos reformistas e conservadores recusam a configuração prevista, junto ao Arco de Robinson, no sul da esplanada, separada das zonas de oração tradicionais e com acesso exclusivo do exterior da praça.

Ignorando os apelos à "paciência e tolerância" endereçados por Netanyahu, os manifestantes partiram da Porta dos Magrebinos, levaram murros e empurrões de seguranças e judeus ultraortodoxos, foram apelidados de "nazis". Entre os homens que se associaram a Anat Hoffman estava Rabbi Rick Jacobs, presidente da União norte-americana para a Reforma do Judaísmo, representando a diáspora que se ergue contra o Governo de Telavive, acusado de ceder aos partidos ultraortodoxos que o compõem e de adiar a criação do espaço para não ortodoxos no Kotel.

Violação, diz Netanyahu

"Temos um povo e um Muro - é o nosso Muro. Quanto menos falarmos da questão publicamente, mais hipótese teremos de resolvê--la. A última coisa de que precisamos é de mais fricção, porque só dificultará uma solução", avisara Netanyahu antes da anunciada manifestação, pedindo tempo para o diálogo. Ontem, perante a ação das "Mulheres do Muro", falou em "desafortunado incidente", em "violação unilateral do status quo no Muro Ocidental" e em machadada nos esforços por um compromisso. Um recado muito pouco velado, a que as ativistas respondem que estão apenas "a lutar pela igualdade".

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"O Governo aprovou uma zona mista de oração, mas tal como está não serve. É um espaço de discriminação e as obras para equipará--lo aos lugares tradicionais de oração não parecem avançar", reagiu Sandra Kochmann, cita pelo jornal espanhol "El País".

A promessa é a de manter a ação que estas mulheres cumprem mensalmente, algumas há 30 anos, penetrando na esplanada do Kotel. A diferença é que ontem deixaram de fazê-lo às escondidas. Anat Hoffman já foi detida por isso algumas vezes. Por pedir igualdade de direitos, como cantar, recitar a Torá e usar talit e tefilin, as caixinhas com trechos da Torá. Ou, na interpretação do rabino mor do Kotel, o ultraortodoxo Shmuel Rabinowitz, "atiçar a chama, convertendo o fogo da disputa numa fogueira eterna". "Guerra civil" foi mesmo a expressão usada.

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