Fenómeno

Halloween sem "palhaços" após onda de ataques

Halloween sem "palhaços" após onda de ataques

Neste Halloween, pessoas com mais de 18 anos estão proibidas de se disfarçarem de palhaço. As autoridades de alguns estados norte-americanos estão em alerta e na Europa também há registos de casos. O fenómeno dos "palhaços assustadores" está a crescer.

Usam máscaras e, munidos de machados ou motosserras, aterrorizam as pessoas na rua. Nas estradas, atravessam-se à frente dos carros para assustar os condutores.

Os primeiros relatos de "palhaços assustadores" surgem nos EUA. Há vídeos na Internet, que contam milhares de visualizações, que mostram o desespero dos automobilistas.

Os primeiros casos remontam ao início de setembro. Os moradores de Greenville, na Carolina do Sul, EUA, reportaram às autoridades locais o aparecimento de pessoas vestidas de palhaço. Numa dessas situações, um homem terá mesmo levado uma criança para um bosque depois de a atrair com dinheiro e luzes de lasers.

Uma das situações mais graves aconteceu, já este mês, na Suécia. Um jovem de 19 anos foi esfaqueado no ombro por um desconhecido que se pôs em fuga.

Na mesma altura, foram reportados seis casos de palhaços que surgiram de repente e assustaram crianças no norte de Inglaterra, preocupando pais e professores. Em Newcastle, um rapaz foi detido por alegadamente estar relacionado com estes casos.

Uma brincadeira que se tornou séria de mais

Se o frenesim inicial foi ignorado, a verdade é que o ritmo a que surgem e a violência associada a alguns destes avistamentos levou as autoridades a agirem. A aproximação ao Halloween também está a preocupar as forças policiais, principalmente nos EUA, onde milhares de pessoas festejam a data, na última noite deste mês. Há também relatos, oriundos de outros países, de pessoas que se juntam, como vigilantes, para atacarem os palhaços.

Este ano, em alguns estados norte-americanos, todas as pessoas com mais de 18 anos estão mesmo proibidas de se vestirem como palhaço. "Qualquer tipo de atividade que possa provocar distúrbios públicos pode levar a detenções", disse Ken Miller, porta-voz da polícia de Greenville, à Reuters. Até a Casa Branca emitiu um comunicado em que afirmou estar atenta, informando que as autoridades vão a levar estes incidentes muito a sério.

Em Portugal, não há nenhum registo destes casos. No entanto, Hugo Palma, responsável pela comunicação da PSP, alertou para o perigo: "O risco real é o de potenciar acidentes pessoais na fuga de pessoas, ou levar a uma reação de força por parte de terceiros", afirma ao JN.

"Aquilo que pedimos é que se forem vítimas ou tiverem conhecimento direto de algum caso, que rapidamente o denunciem", disse o porta-voz da polícia portuguesa.

Um fenómeno viral que deixa os profissionais preocupados

Os relatos das aparições de "palhaços assustadores" também são comuns no Brasil e na Austrália. Aquilo que começou como uma brincadeira atingiu contornos globais e inundou os media sociais.

Para Danielle Kilgo, investigadora na área dos novos media na Universidade do Texas, em Austin, "as redes sociais desempenharam um papel vital para a globalização do evento". A especialista explica, ao JN, que não se trata de um caso único e lembra o fenómeno Slenderman, que envolvia pessoas vestidas com fato e com o rosto coberto e é descrito como "o primeiro grande mito da Internet". "Como os palhaços têm uma origem medieval e folclore, a partilha através das redes sociais é mais fácil de acontecer", explica a investigadora norte-americana.

A situação está a deixar preocupados os palhaços profissionais. Ao "The Guardian", Rob Bowker, da associação "Clowns International", disse que os "ataques nada têm a ver com aquilo que os palhaços fazem".

A Macdonalds, que tem como mascote um palhaço, também não ficou indiferente à situação. Em declarações à Associated Press, explicou que a participação do Ronald McDonald em eventos públicos "seria repensada" devido "aos acontecimentos relacionados com o avistamento de palhaços em espaços públicos".

Jorge Rosado, diretor artístico da Palhaços d'Ópital, que desenvolve atividades com crianças internadas, explicou, ao JN, que este fenómeno pode levantar problemas aos profissionais. "Se as crianças virem nos media socais ou na televisão estes ataques podem desenvolver fobias, despoletando reações adversas", lamentou. Para o responsável "está a ser explorada uma ideia que contrasta totalmente com aquilo que é ser palhaço".

Os riscos de saúde associados à coulrofobia

Se o palhaço é normalmente associado a situações de alegria e diversão, nestas partidas o medo parece ser o principal objetivo dos figurantes, podendo ter consequências ao nível psicológico. A coulrofobia é "uma perturbação associada à ansiedade que acontece quando as pessoas são confrontadas com um palhaço", disse ao JN o psicólogo, Luís Villas-Boas.

Questionado sobre os riscos que estes ataques podem ter, foi claro ao explicar que: "Um ataque contra um adulto coulrofóbico pode ter consequências de enorme gravidade que no limite deixarão em risco a própria vida".

Porém, o psicólogo lembra que a relação mais comum das crianças e dos adultos com os palhaços é de alegria. "Com a globalização, somos atraídos a celebrar esta espécie de Carnaval macabro, como acontece com o Halloween e os "palhaços assustadores" não andam longe disso", referiu.

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