Guerra

Iémen: "O país não está à beira do precipício. O país já caiu"

Iémen: "O país não está à beira do precipício. O país já caiu"

Guerra entre rebeldes e forças governamentais dura há cinco anos. Milhares de civis mortos num conflito de interesses internacionais.

Há cinco anos, os rebeldes huthis invadiram a capital do Iémen, Sanaa, e forçaram a queda do Governo. Há uma semana, reivindicaram os ataques às instalações petrolíferas de Abqaiq - a maior refinaria do Mundo - e ao campo de petróleo de Khurais, ambas as estruturas localizadas na Arábia Saudita sunita, reduzindo a produção saudita em 5,7 milhões de barris por dia, 5% da produção mundial.

São 60 meses de uma guerra em que o Iémen funciona como entreposto de um conflito que tem a coligação internacional liderada pela Arábia Saudita - criada para recolocar o Executivo governamental no poder e que conta com o apoio dos Estados Unidos - e o Irão, aliado dos huthis, xiitas como os líderes iranianos, como faces de um jogo que já sacrificou cerca de 15 mil civis e colocou 20 milhões de pessoas perto da fome.

A guerra civil iemenita transformou-se num conflito regional, epítome dos interesses e da competição entre potências globais pela posição estratégica do país no Mar Vermelho. Nesta instabilidade geral, proliferam também grupos extremistas ligados ao jiadismo internacional.

As Nações Unidas chamam-lhe a pior crise humanitária da atualidade. Cerca de 3,3 milhões de deslocados não hesitarão em concordar. As crianças sofrem de "desnutrição aguda".

Muitos hospitais estão destruídos ou sofreram danos extensos. Uma epidemia de cólera causa estragos de uma dimensão antes inimaginável. A educação e a economia são, presentemente, conceitos do foro da boa vontade.

Cinco anos após o início da guerra, os huthis controlam boa parte do território, apesar das operações das forças governamentais e dos bombardeamentos da coligação saudita.

Além da capital, os rebeldes dominam várias cidades no norte, centro e oeste do Iémen, incluindo Hodeida, urbe portuária nas margens do Mar Vermelho, principal ponto de entrada da ajuda humanitária a um dos mais pobres países árabes.

"A guerra fragmentou o país através de fraturas identitárias, geográficas e ideológicas brutais", afirma Peter Salisbury, analista do International Crisis Group. "Caso venha a ser possível, serão necessários muito mais do que cinco anos para voltar ao grau de coesão interna de 2014."

Apesar de os rebeldes e o Governo terem vindo a participar em rondas de negociações promovidas pela ONU, não se vislumbra qualquer saída para o conflito.

"O país não está à beira do precipício. O país já caiu", lamenta Fabrizio Carboni, diretor do Comité Internacional da Cruz Vermelha para o Médio Oriente.

Da primavera à desilusão

O conflito tem raiz na Primavera Árabe, em 2011, quando uma revolta popular forçou o presidente, Ali Abdullah Saleh, a deixar o poder nas mãos do vice, Abdrabbuh Mansour Hadi.

Supunha-se que a transição política levaria à estabilidade, mas Hadi enfrentou diversos problemas, entre eles, ataques da al-Qaeda e de um movimento separatista no sul, corrupção, insegurança alimentar e o facto de muitos militares continuarem leais a Saleh.

Os huthis, defensores da minoria xiita zaidi e que tinham lutado em várias rebeliões contra Saleh na década passada, aproveitaram a debilidade do novo presidente para conquistar a província de Saada e zonas próximas.

Desiludidos com o Governo, muitos iemenitas, mesmo sunitas, apoiaram os rebeldes, que, a 21 de setembro de 2014, invadiram Sanaa e forçaram Hadi a exilar-se na Arábia Saudita.

O resto é meia década de uma triste história.