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Timor-Leste

Acusações de abuso sexual de Ximenes Belo eram conhecidas por várias entidades

Acusações de abuso sexual de Ximenes Belo eram conhecidas por várias entidades

O Nobel da Paz Ximenes Belo, ex-bispo de Díli, foi acusado de abusar sexualmente de menores nas décadas de 1980 e 1990, em Timor-Leste. Os casos seriam do conhecimento de várias entidades, incluindo a Igreja portuguesa, há mais de uma década.

O jornal holandês "De Groene Amsterdammer" publicou testemunhos de alegadas vítimas de abusos sexuais, quando eram menores. Crimes que terão sido cometidos durante vários anos pelo ex-administrador apostólico de Díli e Nobel da Paz Ximenes Belo. Na edição online, dois homens revelam terem sido vítimas de abuso, mas aquele jornal diz ter ouvido várias vítimas e 20 pessoas com conhecimento de casos, incluindo "individualidades, membros do Governo, políticos, funcionários de organizações da sociedade civil e elementos da Igreja".

Segundo o jornal online "Observador", as suspeitas eram do conhecimento da Igreja em Portugal pelo menos desde 2010, pouco antes da visita do Papa Bento XVI. O caso está com os órgãos competentes da Santa Sé, disse o representante do Vaticano em Timor-Leste, sem confirmar se o prelado chegou a ser investigado.

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"Pessoalmente não posso nem confirmar nem desmentir porque é uma questão de seriedade da minha parte, visto a competência ser dos meus superiores na Santa Sé", disse à Lusa Marco Sprizzi, representante máximo do Papa e do Vaticano em Timor-Leste. "Esta questão deve ser dirigida diretamente à Santa Sé", referiu, questionado sobre a veracidade das denúncias de alegados abusos de menores cometidos ao longo de vários anos por Ximenes Belo, hoje a residir em Portugal.

Segundo aquele jornal neerlandês, as primeiras investigações a este alegado abuso remontam a 2002, quando um timorense denunciou que o irmão era vítima de abusos. Em novembro desse ano, Ximenes Belo anunciou a resignação do cargo, que foi aceite, e viajou para Portugal, instalando-se num convento salesiano na região de Aveiro.

Os contornos da saída de Ximenes Belo de Timor-Leste, em novembro de 2002, nunca foram totalmente clarificados pelo Vaticano, com o assunto a tornar-se tabu no país. "Sempre associei a sua vinda [para Portugal] a motivos de saúde", disse ao "Observador" a ministra dos Negócios Estrangeiros portuguesa na altura, Teresa Gouveia, fiada na versão proclamada pelo prelado.

"Estou a sofrer de fadiga mental e física, o que requer um longo período de recuperação", referia Ximenes Belo num comunicado em que informava ter escrito à Santa Sé, em 2002, solicitando a renúncia do cargo de Administrador Apostólico de Díli, função que exercia desde 1983. "Tenho vindo a sofrer de esgotamento, cansaço físico e psicológico, pelo que necessito de um longo período de repouso em vista de uma recuperação total da minha saúde", referia o texto, citado então pela Lusa.

Ximenes Belo, hoje com 74 anos, disse que o pedido - escrito com base no Cânone 401 do código de direito canónico - foi aceite pelo então Papa João Paulo II. Em entrevista à agência de notícias católica UCA News, em 2004, explicava que saiu do cargo em Díli para ser sacerdote assistente em Moçambique, estando a residir em Portugal.

A saída de Ximenes Belo de Timor-Leste causou grande surpresa na sociedade timorense, porque, até então, o bispo nunca havia indicado essa vontade de abandonar o cargo.

Em 2020, em declarações à Lusa, um elemento superior da Igreja Católica em Díli, que solicitou o anonimato, escusou-se a revelar se houve ou não uma demissão formal de Ximenes Belo pelo então Papa João Paulo II. A mesma fonte referiu-se, porém, ao que disse serem "instruções" para "ter um perfil discreto, não viajar, não mostrar insígnias episcopais, ter uma atitude modesta".

Parte do silêncio sobre o Nobel da Paz deve-se, admitiu a mesma fonte, ao facto da postura do Vaticano relativamente a abusos sexuais na Igreja ter mudado com os dois últimos papas, com a adoção de uma política de "tolerância zero".

Neste tipo de crimes, disse, independente do que possa ocorrer na legislação criminal dos vários países, para a Igreja "não há prescrição, e mesmo anos depois de investigados recebem a sanção jurídica e penal" da Santa Sé.

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