Coronavírus

Índia morre asfixiada e cai no caos da covid-19

Índia morre asfixiada e cai no caos da covid-19

A cada 30 segundos que passam, um indiano está a morrer com a doença do coronavírus. Quanto aos novos infetados, são quatro por segundo. Os números são os mais graves em todo o mundo. Como foi possível chegar até aqui?

A Índia tem números demasiado alarmantes: a cada minuto que passa, pelo menos dois indianos estão a morrer de covid-19; por dia são 3.980 mortes. O número de novos infetados, e que pode conduzir a mais mortes, é ainda mais catastrófico: quatro pessoas por segundo estão a apanhar a doença respiratória aguda provocada pelo coronavírus, o que dá 292 por minuto, mais de 17 mil por hora ou 421.262 pessoas por dia. Estes são os dados oficiais relativos às últimas 24 horas na Índia.

Desde o início da pandemia, o país, que tem 1,3 mil milhões de habitantes e é o 2.º país mais populoso do mundo, logo a seguir à China, já contabilizou 230.168 óbitos e 21,1 milhões de casos, segundo o Ministério da Saúde indiano.

Mas, o cenário oficial pode pecar por defeito - muitos especialistas dizem que os números reais são muito superiores aos números que estão a ser divulgados.

Incrédulo, o resto do mundo pergunta: mas, mais de um ano depois do início da pandemia, como é que a Índia caiu agora neste absoluto caos de covid?

A culpa é do Governo. E é mesmo

Entre muitas razões, há uma muito evidente e de ordem endógena: más decisões do governo do primeiro-ministro Narendra Modi, que não acautelou as necessárias medidas de contenção e confinamento, permitindo e até facilitando grandes ajuntamentos de pessoas.

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Foi o que se viu no caso do Kumbh Mela, festival religioso que em meados de abril juntou milhões de indianos em celebração nas ruas e no rio Ganges. Ninguém se distanciava de ninguém, ninguém usava máscara. O mesmo já tinha acontecido em diversos comícios políticos em março.

De novo: mas, como foi isso possível?

A ilusão da falsa exceção

Foi uma questão de ótica: em janeiro e fevereiro, o número de casos diários na Índia tinha caído para menos de 20 mil por dia, quando atrás, em setembro de 2020, havia picos de 90 mil novos infetados por dia.

Foi aí que primeiro-ministro Modi declarou que a Índia tinha "derrotado o covid" e que era "a exceção mundial". Assim, todos os locais de reunião pública foram reabertos. E as pessoas deixaram de aderir aos protocolos de segurança da covid.

De cima, do Governo, vinham mensagens confusas. Modi dizia uma coisa e depois fazia outra. Por um lado, pedia às pessoas que usassem máscaras e praticassem distanciamento social; por outro, realizava comícios com grandes multidões sem máscara, como se viu durante as campanhas eleitorais em cinco estados da Índia. Vários ministros do governo também foram vistos a discursar em grandes ajuntamentos . E depois veio o festival hindu Kumbh Mela, que teve a bênção do Governo para avançar.

A culpa foi mesmo dos governantes. "Houve total desconexão entre o que eles praticavam e o que pregavam", disse o especialista em políticas públicas e sistemas de saúde Chandrakant Lahariya, citado pela BBC. O proeminente virologista Shahid Jameel, por seu lado, diz que "o governo simplesmente não viu, ou não quis ver, a segunda vaga a chegar e começou a comemorar demasiado cedo".

Sistema nacional de saúde a ruir

A terrível devastação indiana na pandemia está a expor ao mundo uma evidência: o sistema nacional de saúde do país está, há décadas, negligenciado e subfinanciado. As cenas de partir o coração que agora correm pela internet afora, com pessoas a desfalecer nas ruas porque os hospitais rebentam pelas costuras e esgotaram há muito as camas UCI, ou pessoas que morrem literalmente asfixiadas por falta de oxigénio, são as provas da dura realidade das infraestruturas de saúde da Índia.

Estes são os números: os gastos da Índia com saúde, incluindo sistemas privados e públicos, andaram à volta de 3,6% do PIB nos últimos seis anos. A percentagem parece ser baixa. Por comparação, o Brasil gasta em saúde mais de 9,2% do seu PIB, a África do Sul gasta 8,1%, Rússia 5,3% e a China 5%.

Na Europa, a Alemanha gasta 11,2% do seu PIB anual em saúde e os EUA investem ainda mais, 16,9%. Qualquer um destes países está melhor do que a Índia nos rácios da pandemia.

E o oxigénio, por que é que esgotou?

A falta de oxigénio para uso hospitalar é agora o problema mais urgente, a que se juntam, ainda, outras carências graves, como a falta de camas hospitalares, falta de medicamentos antivirais e falta de kits de testes de coronavírus. Ou seja, faltam quase todas as ferramentas de que qualquer país precisa para combater eficazmente uma pandemia.

Os hospitais estão em SOS. Na terça-feira, 4 de maio de 2021, 24 pessoas morreram depois de o hospital distrital de Chamarajanagar, no estado de Karnataka, ter ficado sem stocks de oxigénio. No sábado anterior, 1 de maio, 12 pacientes de covid morreram nas suas camas na Unidade de Cuidados Intensivos do Hospital Batra, na capital Nova Deli, porque o serviço de entrega de oxigénio engarrafado se atrasou 90 minutos.

Vários outros incidentes deste tipo foram relatados em todo o país, noticiou a "National Public Radio", dos EUA, na sua edição online.

E não são apenas os pacientes covid que estão a ser afetados: um hospital infantil perto da capital lançou no último sábado um apelo em forma de SOS, alertando que estava a ficar sem oxigénio e que seis bebés em cuidados intensivos corriam perigo de vida.

"Por favor, ajudem-nos a encontrar cilindros de oxigénio! É para o bem dos nossos bebés e da humanidade", revelou o hospital num comunicado que correu pela internet em milhares de partilhas. O aviso era dirigido "a quem possa interessar".

Isto é um genocídio, diz Tribunal

Agora, o Supremo Tribunal de Allahabad, no norte da Índia, declarou na terça-feira que as mortes em hospitais por falta de oxigénio equivalem a "um ato de genocídio". Na Índia, os tribunais investigam, com frequência, na qualidade de "suo moto", que quer dizer "por conta própria", averiguando assuntos de interesse público sem a necessidade de abrir previamente um processo judicial.

Neste caso, o alarme pela escassez de oxigénio engarrafado é de tal ordem que o Tribunal Superior de Allahabad já está a atuar desde o mês passado. E os atuais governantes, liderados pelo primeiro-ministro Narendra Modi, podem vir a ser judicialmente culpados.

Falta de previsão e de ação

"Quando a primeira vaga do coronavírus estava a diminuir, o governo deveria ter-se preparado para uma segunda vaga, presumindo o pior. Deveriam ter feito um inventário de oxigénio e dos medicamentos necessários e tratar de fazer aumentar a capacidade de fabricação", disse à BBC Mahesh Zagade, médico e ex-secretário do estado.

As autoridades dizem que a Índia produz oxigénio mais do que suficiente para atender a este aumento da procura, mas o problema é outro: é o transporte. Especialistas dizem que também isso poderia ter sido corrigido, e evitado, há muito tempo.

O governo está agora a tentar corrigir a trajetória: criou um reforço de comboios que transportam oxigénio entre os vários estados e proibiu o uso de oxigénio nas indústrias, exceto no exército, mas teme-se que possa ser demasiado tarde.

Relembremos os números: na Índia estão atualmente a morrer de covid 3980 pessoas por dia, o que dá 165 mortos por hora, dois por cada minuto, um a cada 30 segundos que passam. E não se vê forma disto abrandar.

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