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42,6 ºC em Paris. O mundo bate recordes dos últimos 2000 anos

42,6 ºC em Paris. O mundo bate recordes dos últimos 2000 anos

Onda de calor com máximos superados em França, na Bélgica, na Holanda e na Alemanha. Estudo conclui que o Planeta nunca esteve tão quente nos últimos 2000 anos.

Os comboios em marcha lenta, os passageiros convidados a adiar as viagens por um dia, as linhas elétricas que os guiam a falhar, os carris regados de branco para repelir o calor e evitar que se deformem e façam descarrilar composições, o Danúbio demasiado baixo a impedir cruzeiros, a Torre Eiffel a inclinar. E 42,6ºC em Paris às quatro e meia de uma tarde que se sucedeu a uma manhã recordista e a uma noite igual, com mínimas acima dos 20ºC, impedindo o arrefecimento terrestre. A Europa viveu na quinta-feira um dos piores dias de calor da história, com valores acima de 40ºC em França, na Bélgica, na Holanda e na Alemanha e os máximos superados na Inglaterra. Pela segunda vez num mês.

A saga de Greta

O retrato apocalíptico é da Europa, mas estende-se, em maior ou menor grau, ao Planeta. E encaixa na conclusão a que chegou um estudo internacional conduzido por paleontoclimatologistas e publicado esta semana nas revistas "Nature" e "Nature Geoscience": o mundo nunca aqueceu tanto, tão depressa e tão amplamente como agora. E está no período mais quente em 2000 anos.

O recorde de Paris é sintomático. Ainda esta semana recebeu na Assembleia Nacional Greta Thurnberg, a jovem ativista sueca que tem mobilizado manifestações de estudantes por toda a Europa. E teve entre deputados à direita quem não a quisesse ali, essa "profetisa em calções" ou "guru do apocalipse" que deveria era estar na escola, e recusasse "a infantilização obscurantista, a falsa moral e o terror pelo medo". Ela respondeu, do alto dos seus 16 anos, que era natural que não dessem ouvidos a crianças, mas já não o era que o fizessem com cientistas.

Olhar Paris a dobrar-se sob a segunda canícula em dias e registar recordes nos termómetros foi o que pediu a adolescente. E ainda não conhecia as conclusões do já referido estudo, que recorreu à análise de cilindros de gelo, anéis de crescimento das árvores, sedimentos lacustres e corais, por exemplo. Raphael Neukom, da universidade de Berna, na Suíça, liderou a investigação.

O aquecimento atual é sem precedentes, por ser rápido e universal: 98% do planeta está no período mais quente em dois milénios. O estudo percorreu os aquecimentos e pequenas idades do gelo, aponta o fim da última, que afetou regiões diferentes em alturas diferentes, em 1850. Em pleno expoente máximo da Revolução Industrial, período que marca a viragem para um aquecimento global cuja velocidade só entrou na anormalidade em meados do séc. XX. "Os fatores naturais não podem explicar a velocidade e a estrutura espacial do aquecimento atual. Os nossos resultados confirmam de forma inequívoca que são as atividades as responsáveis por estas alterações". Diz Neukom. É cientista.