Testemunho

A história de sobrevivência de um português no sismo da Indonésia

A história de sobrevivência de um português no sismo da Indonésia

Manuel Ramos diz que é um homem de sorte. Tem um braço partido, o joelho inchado, um gémeo pisado e uma história (mais uma) que o faz recusar a ideia de traumatismo. Escapou em calções e t-shirt, com um filho ferido e outro em cuecas e a mulher, pisada como ele, do paraíso indonésio da ilha Gili Meno, na trágica noite de domingo 5 de agosto, quando o Anel de Fogo do Pacífico resolveu fazer das dele a 10 km de profundidade sob a vizinha ilha-mãe, Lombok, matando mais de 300 pessoas. "Estou vivo."

Podia não estar. Ao lado dele, debaixo do alpendre do hotel Villa Pulau Cinta onde se preparava para saborear um churrasco, ele e a família e os dois outros casais estrangeiros que decidiram não alterar o plano de férias apesar da atividade sísmica na região de Nusa Tengara Ocidental e ainda os seis funcionários do estabelecimento, ali, ao lado, uma pessoa morreu. "Foi apanhado naquele metro onde nenhum de nós estava", aquele metro que foi o curto espaço onde se desfez a trave mestra do alpendre. Um metro de onde se via o azul transcendente do mar indizível que banha as três minúsculas Gili.

Percurso atribulado

Chegou quarta-feira depois de uma noite sob as estrelas enquanto as entranhas da terra se acalmavam, um dia entre uma bicicleta para se apoiar e vencer os metros até ao mar, um barco de salvamento - "Tivemos sorte, tínhamos mau ar, eu tinha sangue, três paus e um elástico a segurar o braço e sem me conseguir mover, o meu filho cheio de sangue, entenderam por bem sermos dos primeiros" -, um autocarro através de uma ilha "desfeita" ("inacreditável"), umas horas deitado no chão do aeroporto a esperar que uma réplica não lhe atirasse com o teto em cima enquanto os outros se refugiavam na pista, um voo tardio até Bali, outro desenrascado desde Portugal pela agente de viagens até Singapura, uma passagem por uma clínica para colocar um gesso a sério e outro voo, o último, até ao Porto.

"Não gosto de usar nem gosto que usem vulgarmente a palavra traumatizado. Não estou traumatizado." Tem o braço esquerdo engessado, o direito completamente negro, o gémeo direito só agora a ganhar vida. "Deve ter ficado debaixo de uma viga."

Lembra-se de três segundos. O tempo suficiente para não ter tempo para nada. Um barulho fenomenal e um passo para a frente. Tivesse dado dois, estaria morto. O alpendre desfez-se sobre a piscina. Preso, olhou para trás, viu o filho bem, um pé torcido, a mulher bem, uma perna pisada, e arrastou-se. Enfiou-se na piscina e saiu por debaixo de água. Ao longe, o outro filho. Estava no bungalow, a um canto, o teto caiu, evitou-o, ele saiu por cima.

"Foi entreajuda." Deram-lhe um casaco, uma toalha para o filho. Viajou vestido de pó e sangue seco até ao aeroporto. As autoridades, perante tamanho drama, não tinham como resolver nada. Havia médicos estrangeiros no descampado de Meno onde se discutia o risco de tsunami. "Se viesse, numa ilha com dois metros de altitude, éramos varridos. Não valia a pena preocuparmo-nos com salvar-nos." Trataram as feridas como puderam. Alguém levou bananas de um hotel que ficou direito. O de Nelo quase desapareceu. Com ele, tudo o que tinha. Salvou documentos e cartões. E o telemóvel de um dos rapazes. Por ele foi contactado pela Embaixada de Portugal. Respondeu que estavam bem.

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