Líbia

"A hora chegou". Marechal líbio ordena que forças avancem para Tripoli

"A hora chegou". Marechal líbio ordena que forças avancem para Tripoli

O homem forte da fação que controla o leste da Líbia, o marechal Khalifa Haftar, ordenou às suas forças que avancem em direção a Tripoli, sede do governo de união nacional.

"A hora chegou", referiu Khalifa Haftar, na declaração divulgada na rede social Facebook através da página dos serviços de comunicação do exército nacional líbio, que foi autoproclamado pelo marechal.

Na Líbia, país imerso num caos político e securitário há vários anos, duas autoridades disputam o poder: o governo de união nacional líbio, estabelecido em 2015 com sede em Tripoli, que é reconhecido pela comunidade internacional (incluindo pelas Nações Unidas), e uma autoridade paralela que exerce o poder no leste do país, com o apoio do marechal Haftar.

Na mensagem de áudio, o marechal descreveu a movimentação das suas forças como uma "marcha vitoriosa" para "libertar as terras sob influência dos injustos".

Khalifa Haftar frisou ainda que as forças do exército nacional líbio não têm ordem para abrir fogo contra civis, salientando: "Quem levantar a bandeira branca está seguro".

O marechal também prometeu poupar "instituições estatais" e os cidadãos estrangeiros.

As forças lideradas por Khalifa Haftar tomaram, entretanto, o controlo da cidade de Gharyan, cerca de 50 quilómetros a sul de Tripoli. Os combatentes de Haftar nunca estiveram tão perto da capital líbia.

Estas movimentações estão a ser encaradas com grande preocupação pelo secretário-geral da ONU, António Guterres, que chegou na quarta-feira à Líbia numa visita surpresa.

Numa mensagem publicada na rede social Twitter, Guterres afirmou "estar profundamente preocupado com as movimentações militares que estão a ocorrer na Líbia e com o risco de confronto", exortando as várias fações a iniciarem um processo de diálogo.

"Não há solução militar. Apenas o diálogo entre os líbios pode resolver os problemas da Líbia", afirmou.

António Guterres é o primeiro secretário-geral das Nações Unidas a visitar a Líbia desde a queda do regime de Muammar Kadafi em 2011.

A visita de Guterres acontece a poucos dias da realização de uma "conferência nacional", promovida pela missão das Nações Unidas na Líbia, que terá como objetivo preparar um roteiro para a estabilização do país.

A conferência, que está agendada para 14 a 16 de abril na cidade histórica de Ghadames (centro da Líbia), pretende abrir o caminho para uma possível solução política e tentar definir uma data para a realização de eleições parlamentares e presidenciais na Líbia, país que enfrenta uma grave crise desde a queda de Kadafi marcada por divisões e lutas de influência entre milícias e tribos.

"Vamos convidar todas as categorias políticas líbias, sem exceção", afirmou, em meados de março, o líder da Missão de Apoio das Nações Unidas na Líbia (UNSMIL, na sigla em inglês), Ghassan Salamé, durante uma conferência de imprensa em Tripoli.

Em finais de fevereiro, a ONU anunciou um novo acordo alcançado em Abu Dhabi (Emirados Árabes Unidos) entre os dois poderes rivais para a organização de eleições na Líbia, mas sem estabelecer um calendário.

Vários acordos para tirar a Líbia da crise foram anunciados ao longo dos últimos anos, mas nenhum foi concretizado.

Um acordo intergrupos sobre uma nova Constituição e a realização de eleições é necessário para alcançar uma estabilidade institucional, um regresso a um cenário securitário estável e uma recuperação económica no Líbia, segundo defendem várias vozes internacionais.