Colômbia

A mulher cega que vê o cancro com as mãos

A mulher cega que vê o cancro com as mãos

Dez anos depois de ter ficado cega, a colombiana Leidy García Henao deteta potenciais cancros da mama ao toque. Já examinou cerca de três mil mulheres.

Leidy García Henao, de 28 anos, é uma das quatro pessoas invisuais que obteve, na Colômbia, o título de examinadora auxiliar tátil da mama - há outras tantas na Alemanha, Áustria, Índia e México, segundo o jornal espanhol "El Mundo", que entrevistou a colombiana.

Das três mil mulheres que já lhe passaram, literalmente, pelas mãos, encaminhou três quartos para os médicos, depois de ter detetado com os dedos nódulos ou espessamentos mamários, alterações que podem ser manifestações de um cancro da mama, e que em vários casos se revelaram mesmo sintomas de tumores. O trabalho em causa ajuda a prevenir e detetar a doença, que, de acordo com a Liga Portuguesa contra o Cancro, afeta em Portugal 6000 mil novas mulheres por ano (são 11 novos casos por dia).

"Encontrei muitas massas fazendo palpação. Quando as deteto, envio as doentes para o médico", contou Leidy, na clínica Meléndez, no sul da cidade colombiana de Cali, onde exerce atividade todos os dias. São oito horas diárias que passa a palpar as pacientes, auxiliada por fitas especiais, que a ajudam a guiar-se "centímetro a centímetro, por toda a área da mama" e que permitem gerar uma coordenada caso uma anomalia seja detetada. Depois, as informações recolhidas são inseridas num computador e, se for o caso, transmitidas a médicos especialistas.

"Nós somos o primeiro filtro. É por isso que esta função é tão importante e precisamos de replicá-la no mundo todo", considera a profissional, acrescentando que a zona onde a clínica está situada é habitada por famílias com recursos limitados e mínima consciência quanto aos perigos de desenvolver cancro.

Cegou aos 19 anos

Leidy era uma jovem saudável e desportista quando, aos 19 anos, sofreu um AVC que a fez perder a vista quase por completo: "Só fiquei com um pouco de visão no canto do olho direito. Consigo distinguir silhuetas e cores primárias". Depois de dois meses e meio internada num hospital, voltou para casa e acabou por cair numa depressão profunda. Demorou um ano a aceitar que estava cega.

Abandonou, ao sexto semestre da faculdade, o curso de Engenharia Topográfica, por levar a "uma carreira muito visual". Aprendeu braille e tecnologia para cegos, matriculou-se em Ciências Sociais e conheceu pessoas que também haviam perdido a visão e que de alguma forma a inspiraram. "Comecei a aceitar-me, com a ajuda da minha família. Descobri que tinha outros sentidos", contou.

Sem que esperasse, foi chamada pela organização "Niños sordos y ciegos" (Meninos surdos e cegos, em português) para que participasse num processo de seleção para o projeto "Mãos que salvam vidas", replicada do modelo alemão "Discovery Hands", que recorre à "superior perceção tátil dos invisuais para melhorar a palpação no diagnóstico precoce do cancro da mama".

Passou todas as fases do concurso e acabou por, juntamente com mais quatro jovens, ser escolhida para fazer, durante seis meses, uma "formação muito rigorosa" dada por dois médicos especialistas, que ensinaram toda a anatomia e fisiologia da mama. "Estudámos muito e depois iniciámos a parte técnica da palpação, de como sentir a mama, a simetria, as características, os mamilos, os gânglios, a pele, o pescoço... E depois veio a prática", recordou.

Em entrevista ao jornal espanhol, a colombiana lamentou que as mulheres não tenham o hábito da fazer palpação nas mamas. "Senti muitos nódulos fáceis de encontrar, com mais do que 1,5 centímetros", disse, sublinhando a importância da consciencialização.