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"A tática do medo já não funciona na Grécia"

"A tática do medo já não funciona na Grécia"

Não esconde o entusiasmo com a possibilidade de vitória do Syriza no próximo domingo. Acabado de chegar de Nova Iorque, onde proferiu uma série de conferências sobre a atual situação na Grécia, Michalis Spourdalakis recebe o JN na Universidade de Atenas, onde lecciona Ciência Política. Membro do comité científico do Instituto Nicos Poulantzas, o "think tank" do Syriza, acha que os eleitores gregos estão menos vulneráveis às mensagens procedentes do exterior do que em 2012 e acredita que o partido liderado por Alexis Tsipras poderá mesmo formar Governo sozinho.

Alexis Tsipras descreveu recentemente a atual situação da Grécia como um cenário de "pós-guerra". Não é uma metáfora um pouco excessiva?

Pode parecer exagerado, mas não é: nos últimos seis anos a economia grega encolheu quase 30%. Uma queda deste nível é algo que nunca tinha acontecido na História em momentos de paz, fora de situações de guerra. Se tivermos em conta a calamidade social que a Grécia enfrenta atualmente: com o desemprego nos 26% (que no caso dos jovens ultrapassa os 50%), com mais de 30% da população a viver abaixo do nível de pobreza, com crianças que desmaiam devido à falta de comida... Se repararmos que o número de suicídios motivados por motivos económicos quadruplicou nos últimos cinco anos e que o número de pessoas sem-abrigo aumentou três vezes, percebemos que a expressão de Tsipras não era exagerada.

Ao mesmo tempo, assistimos ao crescimento dos movimentos sociais. Qual a importâncias destas redes de apoio informal no atual cenário de crise?

No início da crise assistimos sobretudo a mobilizações contra as medidas de austeridade. O movimento dos "indignados" que se concentrou na praça Syntagma foi muito forte, mas depois ano e meio de resistência sem conseguir atingir os objetivos, o movimento foi-se transformando. Dividiu-se em várias redes de solidariedade que dão apoio às pessoas e procuram suprir necessidades que agora o Estado já não garante a todos os cidadãos: saúde, roupa, comida... Mais disperso, este movimento não é tão visível, porque já não ocupa as praças, mas tem uma força importante.

Qual é a relação do Syriza com estes novos movimentos de solidariedade que emergiram na Grécia?

O Syriza é muito próximo a estes movimentos, mas de uma forma diferente da antiga esquerda, menos paternalista. Os novos movimentos são independentes, o que acontece é que há muitos elementos do Syriza que estão lá e o partido como entidade apoia estes movimentos. Por exemplo, boa parte do salário de todos os deputados e eurodeputados do Syriza são canalizados para financiar movimentos solidários. Estamos a falar de cerca de 25% destes salários.

Noutros países europeus como França ou Hungria os partidos de extrema-direita têm sido os que mais apoios ganham com o descontentamento derivado da crise. Na Grécia, embora haja um partido forte na extrema-direita (Aurora Dourada), a esquerda tem conseguido capitalizar a maior parte da indignação. Como conseguiu?

Penso que tem a ver com a própria atuação do Syriza. Em 2008, quando tivemos o levantamento da juventude em Atenas, o Syriza foi o único partido que apoiou o movimento. O partido escolheu integrar o terreno social como parte da sua estratégia, em vez que se cingir aos movimentos tradicionais como sindicatos, etc... Quando chegou a crise e os "indignados" se tornaram nos supostos inimigos do Estado, nos inimigos do Governo, nos inimigos do futuro do país, o Syriza continuou sempre a apoiar estes movimentos. Ao mesmo tempo, o Syriza não foi para as praças com as bandeiras do partido. Os membros do partido estavam lá apenas como indivíduos. Isso aproximou as pessoas e evitou que os apoios fossem para o outro grupo contrário ao sistema que também estava a crescer e que era a extrema-direita fascista.

Alguns jornais internacionais dizem que a vitória do Syriza seria um terramoto político para a Europa e avisam sobre a catástrofe que poderia representar uma saída da União Europeia. Nas eleições de 2012 ficámos com a sensação que estas mensagens provenientes do exterior influenciaram os votantes gregos. Isso poderá repetir-se este domingo?

O que o Governo e as forças pró-austeridade têm feito neste país tem sido dizer às pessoas que se não seguirem as medidas da troika, haverá uma catástrofe no país. É a tática de medo. Funcionou bastante bem em 2012, mas não creio que volte a funcionar este ano. Porque a maioria das pessoas percebeu que muito do que se dizia era mentira. Por exemplo, disseram-lhes que "quando chegassem os comunistas" iriam perder as suas casas. Mas o que aconteceu foi que as pessoas perderam as casas porque estavam asfixiados com impostos, ou porque não conseguiam continuar a pagar as hipotecas aos bancos devido aos níveis de desemprego... Claro que algumas pessoas podem assustar-se, mas creio que a nível global essa estratégia já não está a funcionar.

O mundo está com os olhos postos na Grécia. E há também várias vozes internacionais de apoio ao Syriza.

Sim, há também cada vez mais nomes de prestígio internacional que afirmam que algumas das medidas propostas pelo Syriza (como a renegociação da dívida), é uma possibilidade viável. Penso que é um bom momento para o Syriza chegar ao Governo porque chegou a hora das elites europeias perceberem é preciso mudar de política.

Mas também há muitos receios em relação à possibilidade de default grego.

O objetivo do Syriza não é entrar em default (não pagar uma parte da dívida) de forma unilateral. O objetivo é fazer uma negociação. É impossível manter este nível de endividamento: é uma espiral sem fim, uma armadilha impossível de pagar. Chegará o momento em que diremos aos credores: em vez de 100, vou devolver-te 30 ou 40, por exemplo.

A questão é saber como é que os mercados irão reagir a essa negociação.

Os mercados terão que se adaptar. Nós iremos tentar negociar. A promessa do Syriza é que não irá continuar a destruir o sistema universitário, o sistema de saúde, a segurança social, a permitir que as pessoas percam as suas casas para pagar o que devemos aos bancos com juros incomportáveis. É claro que vamos pagar. Não a quantia que os bancos querem, mas aquela que for comportável para a nossa economia. O Syriza propõe que paguemos de acordo com a nossa taxa de crescimento. Se a economia crescer 3%, pagaremos juros de 3%. Quando se chega a esta situação, a renegociação da dívida é a solução mais razoável.

Mas os credores vão aceitar essas perdas?

Os mercados seguem sempre os lucros, não o coração. Eles irão perceber que se aceitarem negociar irão receber uma parte da quantia, enquanto que noutros cenários poderão não receber nada. Se aceitarem negociar, as perdas serão menores, por isso penso que irão acabar por ceder.

Se o Syriza ganhar as eleições mas não conseguir formar Governo sozinho, que cenários de negociação com outros partidos poderão acontecer?

Para começar, penso que é possível que o Syriza consiga uma maioria que lhe permita governar sozinho. Devido ao sistema eleitoral grego [que atribui um bónus de 50 deputados ao partido mais votado e exclui do Parlamento os partidos com menos de 3%], é possível o Syriza ter maioria parlamentar com 34%. Por isso, estamos muito pendentes do número de votos que irá para os partidos mais pequenos, que estão no limite de entrar no Parlamento.

E se não conseguir essa maioria sozinho?

Se este cenário não for atingido, há outra possibilidade, a que assistimos recentemente: é possível que alguns deputados de outros partidos saiam da sala no momento da votação. Assim, o Syriza já não precisaria dos 151 votos, mas menos, porque a Constituição fala apenas na necessidade da aprovação de metade dos deputados presentes. Essa seria uma forma de alguns representantes de outros partidos apoiarem a formação de um Governo do Syriza sem terem que votar favoravelmente no partido. É o chamado "voto de tolerância". Se mesmo esse cenário fracassar, a solução seria a convocação de novas eleições, como aconteceu em 2012. Não creio que seja possível uma coligação com outros partidos neste momento.

Uma vitória do Syriza poderia influenciar o Podemos em Espanha e outros movimentos anti-austeridade na Europa. Estaremos perante o início de uma mudança na política europeia?

Penso que sim. Há dois anos ninguém imaginava que em Espanha ia surgir uma força política com a força do Podemos. É um desafio muito importante observar agora as possibilidades de enfrentar a austeridade. O Syriza tem inspirado as pessoas. Há muita gente impressionada com este movimento em vários países. Estive em Nova Iorque esta semana e conheci muitos americanos que querem ser membros do Syriza. Agora o verdadeiro desafio será observar o desemprenho deles no Governo e verificar se continuarão a ser uma fonte de inspiração.