México

"Abraço até ao último suspiro". Fotógrafa explica imagem trágica de Valéria e o pai

"Abraço até ao último suspiro". Fotógrafa explica imagem trágica de Valéria e o pai

Julia Le Duc é a autora da fotografia que desde segunda-feira chama a atenção do mundo para o drama dos migrantes que tentam alcançar os EUA. A fotojornalista mexicana conta a história do fim trágico de Valéria e do pai nas águas do Rio Grande. E confessa o choque de ver "a bebé a abraçar o pai..."

"Chamou-me a atenção a bebé a abraçar o pai... Foi qualquer coisa que me tocou fundo porque mostra que, até ao seu último suspiro, ela esteve junto a ele, não só pela t-shirt mas também naquele abraço que os manteve juntos até à morte". As palavras são de Julia Le Duc, fotojornalista mexicana do jornal "La Jornada" que captou a fotografia de pai e filha bebé, afogados na margem do Rio Grande, na fronteira com os Estados Unidos.

"Fui repórter de crimes durante muitos anos, e já vi muitos corpos - e muitas vítimas de afogamento", refere, para confessar como aquela imagem a tocou profundamente. "É possível ver que o pai meteu a menina dentro da sua t-shirt para que a corrente não a levasse. Ele morreu a tentar salvar a vida da filha", sublinha, num testemunho ao jornal britânico "The Guardian".

Por estes dias, a imagem dos corpos de Óscar Alberto Martinez Ramírez, 25 anos, e da sua filha Valéria, de um ano e 11 meses, tem suscitado comoção e indignação, e avolumado as críticas às políticas de imigração da Administração Trump.

Mas também há Tania Vanessa Ávalos, de 21 anos, mulher e mãe que assistiu em desespero ao momento em que a corrente levou o marido e a filha para a morte.

"No domingo, recebemos o alerta de uma mulher que gritava desesperada na margem do Rio Grande. No local, os gritos de que a corrente tinha levado a sua filha", lembra Julia.

Às autoridades, a jovem mãe contou que partiram de El Salvador em abril. "Tinham estado em Tapachula, no sul, e pediram um visto humanitário para poderem ficar e trabalhar no México durante um ano, mas queriam o sonho americano - por isso foram de autocarro até à fronteira", conta a fotógrafa.

"Chegaram no domingo de manhã e foram diretos à ponte internacional pedir asilo, mas os serviços de imigração americanos estavam fechados por ser fim de semana e havia muita gente já à espera para ser atendida", acrescenta.

Julia Le Duc explica que "há poucos meses, eram cerca de 1800 pessoas à espera em Matamoros para uma entrevista de asilo. Agora, serão à volta de 300, mas só são feitas três entrevistas por semana".

Quando a família deixava a ponte, Óscar parou, olhou para o rio e disse: "É aqui que vamos atravessar", segundo a descrição da fotojornalista.

"Ele atravessou primeiro com a bebé e deixou-a no lado americano. Depois regressou [à outra margem] para ir buscar a mulher, mas a menina entrou na água atrás dele. Quando ele voltou atrás para a salvar, a corrente levou-os aos dois", recorda.

Perante a tragédia e os gritos de desespero de Tania, "alguém chamou os serviços de segurança - neste local há sempre pessoas a correr ou andar de bicicleta ao fim de semana - e as buscas decorreram até às 23 horas, mas mesmo com barcos e lanternas não foram encontrados".

Na manhã seguinte, um bombeiro viu os corpos de pai e filha pelas 10.15 horas, a cerca de 500 metros do local onde desapareceram. "Foi quando tirei as fotos, antes de o local ser vedado", explica Julia.

"O Rio Grande é um rio muito forte: parece calmo à superfície mas há muitas correntes e redemoinhos", acrescenta. Quem arrisca "são famílias desesperadas - e pessoas desesperadas fazem coisas desesperadas".

No ano passado, morreram 283 pessoas a tentar passar a fronteira entre o México e os Estados Unidos. Na última semana contam-se nove vítimas mortais, entre as quais quatro crianças.

"Vai mudar alguma coisa? Devia", defende a fotojornalista mexicana. "Estas famílias não têm nada e arriscam tudo por uma vida melhor. Se cenas como esta não nos fazem pensar - se não fizerem mudar a opinião dos decisores - então a nossa sociedade está num mau caminho".